Soldada teve transferência ao TJ confirmada horas antes de ser morta; marido criticava 'nova postura' | Collector
Soldada teve transferência ao TJ confirmada horas antes de ser morta; marido criticava 'nova postura'
Jornal O Globo

Soldada teve transferência ao TJ confirmada horas antes de ser morta; marido criticava 'nova postura'

A soldado Gisele Alves Santana foi morta no mesmo dia em que teve confirmada sua transferência para a assessoria do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Na manhã em que a policial foi baleada na cabeça, uma publicação no Boletim Geral da Polícia Militar oficializou a mudança — vista por ela como uma virada em sua vida, marcada por dependência financeira do marido, conforme revelam os diálogos do casal. Embora inicialmente a mudança tenha contado com o apoio do marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu por suspeita de feminicídio no caso, o tema passou a alimentar conflitos recorrentes no relacionamento. Em mensagens analisadas pela investigação, o oficial demonstra incômodo com a nova função da esposa, afirmando que ela estaria “abrindo as manguinhas” e que outros policiais — chamados por ele de “mikes” — iriam “cair matando na carne nova”. Conversas de WhatsApp entre Geraldo Neto e Gisele Alves Santana Reprodução Conversas de WhatsApp entre Geraldo Neto e Gisele Alves Santana Reprodução O conteúdo extraído do celular do militar revela o desgaste nas semanas que antecederam o crime. Em determinados momentos, Neto aparenta apoiar a mudança, chegando a prometer a compra de uma nova farda para a esposa — poucos dias após criticar o uniforme que ela usava, considerado por ele “muito justo”. Ele também afirmou que agradeceria aos desembargadores responsáveis pela transferência. Essas manifestações ocorreram em 9 de fevereiro. Apesar do aparente suporte, outras conversas já indicavam um relacionamento em crise, com menções explícitas à possibilidade de divórcio. Gisele, em diversos momentos ao longo de fevereiro, insistiu para que se separassem. Na versão dele para a morte da PM, ele é que teria pedido a separação na manhã da tragédia e ela, em descontrole, se suicidado. A situação se agravou em 13 de fevereiro. Naquele dia, Gisele ligou para os pais pedindo ajuda para deixar o apartamento onde vivia com o marido. Em mensagens, confrontou o oficial: “Se considere divorciado”, escreveu, acrescentando que já providenciava sua saída. Ela chegou a retirar roupas do armário e deixá-las na sala, em preparação para sair de casa. No dia seguinte, 14 de fevereiro, Gisele solicitou o envio de documentos para formalizar o divórcio. Em uma última tentativa de manter o casamento, condicionou a continuidade da relação a uma mudança de comportamento do marido, que classificou como “estúpido e sem escrúpulos”, mas indicou que a separação era o desfecho mais provável. Quatro dias depois, em 18 de fevereiro, ela foi morta. Paralelamente, segundo testemunhas, Neto passou a demonstrar crescente insatisfação com a nova fase profissional da esposa. Em um almoço para celebrar a transferência, colegas de farda relataram que o tenente-coronel compareceu ao evento, sendo o único presente sem vínculo com o ambiente de trabalho. De acordo com a defesa da família de Gisele, a nova função representava não apenas um avanço financeiro — com um pró-labore de R$ 5 mil —, mas também maior autonomia em relação ao marido. No Tribunal de Justiça, argumentam, ele não teria influência para interferir em sua lotação ou rotina. — Ele tinha uma patente superior à dela. No novo posto, ela passaria a se sentir mais segura, porque ele não teria ingerência para transferi-la ou pressioná-la como fazia antes. Havia o temor de que ele prejudicasse sua carreira — afirmou a defesa. As investigações também apontam que o controle exercido por Neto sobre a rotina da esposa se estendia à vida profissional. Segundo as apurações, ele não permitia que Gisele realizasse atividades remuneradas extras, como a Diária Especial por Jornada Extraordinária de Trabalho Policial Militar (Dejem) ou participasse da Operação Delegada, modalidades voluntárias que reforçam o policiamento e aumentam a renda dos agentes. Conversas de WhatsApp entre Geraldo Neto e Gisele Alves Santana Reprodução Neto foi preso preventivamente em 18 de março, após se tornar réu por feminicídio e fraude processual. Inicialmente, ele alegou que a esposa havia tirado a própria vida após uma discussão — versão posteriormente descartada por laudos periciais, que apontaram para homicídio. Ele alega que se tratou de um suicídio. Tiro por trás Laudos necroscópicos e pós-exumação apontam que o tiro que matou Gisele foi desferido com a arma encostada à têmpora direita, de baixo para cima. Além disso, ela foi abordada por trás, com a mão esquerda do agressor apertando sua face e pescoço. A arma foi empunhada e disparada pela mão direita do atirador, segundo os exames. Outro ponto que levantou suspeitas foi a posição da arma usada no crime. Quando os primeiros policiais chegaram ao apartamento, viram a vítima caída na sala, em frente à televisão. Em sua mão direita, a arma estava presa a um de seus dedos, o que é inusual em casos de suicídio. Em geral, o revólver se solta das mãos, segundo pessoas que conhecem esse tipo de situação. Diante das evidências, os investigadores afastaram a hipótese de suicídio. "O mosaico probatório, portanto, afasta a hipótese de suicídio e indica que Gisele foi abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita; após o disparo, o corpo foi deposto ao chão, houve escoamento sanguíneo e manipulações subsequentes (inclusive posição da arma na mão), com limpeza/banho do autor, sendo o investigado a única pessoa com ela antes do fato e o primeiro a intervir na cena, o que robustece a autoria em seu desfavor", diz trecho do despacho do juiz militar. Visão do box para a sala Além de fazer a perícia no local do crime, os policiais civis realizaram uma reprodução simulada do ocorrido no apartamento em que Gisele morava com o marido. Um dos pontos que chamaram a atenção dos investigadores foi o fato de Geraldo Neto ter dito que tomava banho quando ouviu o disparo de uma arma, vindo da sala. Na sequência, ele teria visto, pelo vidro do box e pela porta do banheiro, a esposa caída. Porém, para os peritos, a dinâmica do local impediria que Geraldo Neto tivesse tal visão. Além disso, com uso de resíduos e substâncias, eles localizaram marcas de sangue no banheiro, tanto no box quanto nas paredes e no piso. "A reprodução simulada e a perícia (...) identificaram luminol positivo no box, paredes, piso e registros do banheiro usado pelo investigado, toalha rosa com reação positiva e bermuda jeans dele com padrão de gotejamento latente, tudo em frontal contradição com a versão de que não teve contato com o sangue nem manipulou a cena. Ainda, a reconstrução tridimensional do ambiente concluiu que, da porta do banheiro, não era possível visualizar o corpo na posição registrada nas fotos de chegada dos socorristas, com ou sem a árvore de Natal na sala, contrariando a narrativa do investigado". Assédio no trabalho Segundo colegas de trabalho de Gisele, em depoimentos citados na decisão judicial, o relacionamento do casal era marcado por episódios de ciúmes e comportamento controlador por parte do marido. Os relatos dão conta de que o tenente-corone frequentemente comparecia ao local de trabalho dela, mesmo não tendo atribuição funcional ali. De acordo com as declarações, ele se utilizava de sua condição hierárquica (inicialmente como major, depois como tenente coronel) para entrar na Seção de Logística, permanecendo por vezes longos períodos, sentado próximo a Gisele e observando suas atividades, o que causava desconforto entre os integrantes da equipe. As testemunhas relataram episódios em que o tenente-coronel Neto teria criado situações constrangedoras, chegando a protagonizar discussões no interior da seção. “Também foi relatado que, mesmo em momentos em que a Sd PM Gisele demonstrava intenção de manter maior autonomia ou distância do Oficial, este continuava comparecendo com frequência ao ambiente de trabalho da policial, chegando inclusive a acompanhar seus horários de saída e permanência na seção”, diz o despacho. “Ainda segundo os elementos apresentados, o investigado teria utilizado sua posição hierárquica para desqualificar profissionalmente a vítima, proferindo ofensas e menosprezando sua condição funcional, chegando a afirmar que ela deveria ‘arrumar um soldado’, em evidente manifestação de desprezo não apenas à sua condição de mulher, mas também à sua posição dentro da estrutura da Corporação”, diz a decisão. Até o presente momento, a defesa do tenente-coronel sustenta que o caso se trata de um suicídio. No dia da prisão do oficial, advogados disseram estar “estarrecidos” . A equipe jurídica recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão. Sobre as mensagens usadas para justificar a prisão, os advogados alegam que houve descontextualização e exposição indevida de aspectos da vida privada do investigado.

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