Jornal O Globo
A morte por eutanásia da espanhola Noelia Castillo, de 25 anos, após uma disputa judicial de 18 meses com o próprio pai, provocou um debate sobre os limites entre autonomia individual e dever de proteção do Estado entre os cidadãos. O procedimento foi realizado na noite desta quinta-feira, em um hospital de Barcelona, após decisão favorável do Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Noelia Castillo: Jovem disse ao pai que queria 'partir em paz' antes de eutanásia autorizada na Espanha Agressão sexual, paraplegia e impedimento familiar: Quem é Noelia Castillo, jovem que obteve autorização para eutanásia aos 25 anos na Espanha Noelia ficou paraplégica após uma tentativa de suicídio em 2022 e relatava sofrimento contínuo. Durante o processo, afirmou não contar com apoio familiar. Sobre o pai, dizia que ele “não respeitou" a decisão "e nunca respeitará”. Em entrevista à TV Antena 3, declarou: “Quero ir em paz agora e parar de sofrer”. A eutanásia havia sido autorizada pelo governo da Catalunha em 2024, mas foi suspensa após ações judiciais movidas pelo pai, com apoio do grupo Christian Lawyers (Abogados Cristianos). O impasse prolongou o caso até a decisão final da Justiça europeia. Críticas ao Estado e defesa da decisão A repercussão trouxe críticas à atuação das instituições. Para críticos, o caso evidencia falhas no oferecimento de alternativas de cuidado. — Para uma jovem que obviamente teve uma vida muito difícil, o que todos lamentamos, a única coisa que o sistema de saúde pôde oferecer a ela foi a morte — afirmou José María Fernández, do Christian Lawyers. O líder do Partido Popular (PP), Alberto Núñez Feijóo, também criticou. — As instituições que deveriam ter protegido Noelia falharam com ela. Me recuso a acreditar que o Estado não tinha os meios para lhe oferecer cuidado. A Igreja Católica afirmou que o caso “reflete um acúmulo de sofrimento pessoal e falhas institucionais”. Por outro lado, há quem defenda a decisão como exercício de um direito legal. Em editorial, o jornal El País afirmou que “o desejo de pôr fim ao seu sofrimento usando o direito à eutanásia foi sabotado por uma cruzada legal que acrescentou quase dois anos de dor à sua existência”. O deputado Alberto Ibáñez, do Sumar, disse que “19 médicos apoiaram sua decisão e devemos respeitá-la”, classificando o tema como “profundamente complexa”. Mãe a acompanhou até a clínica A mãe de Noelia, embora contrária, a acompanhou até a clínica. Uma amiga identificada como Carla Rodríguez tentou entrar no hospital para convencê-la a desistir, mas foi impedida pela polícia. O pianista James Rhodes fez um apelo público, oferecendo apoio financeiro e afirmando que ela poderia ser “capaz de tomar essa decisão com um pouco mais de tranquilidade”. Espanhola de 25 anos que ficou paraplégica após agressão sexual obtém aval final para eutanásia Reprodução A legislação espanhola permite a eutanásia desde 2021, sob critérios rigorosos, como maioridade, condição grave e incapacitante, pedido formal em duas ocasiões e avaliação médica. Em 2024, 426 pedidos foram aprovados no país. O caso de Noelia Castillo foi o primeiro a chegar aos tribunais, evidenciando as tensões jurídicas e éticas na aplicação da lei. A Espanha integra o grupo de países europeus que permitem a prática, ao lado de Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo.
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