Guerra no Irã completa um mês sem rota de saída clara para governo Trump; veja principais consequências do conflito
Jornal O Globo

Guerra no Irã completa um mês sem rota de saída clara para governo Trump; veja principais consequências do conflito

Ao anunciar o início dos ataques ao Irã, na madrugada de 28 de fevereeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que buscava “defender o povo americano, eliminando as ameaças iminentes do regime iraniano”.Em questão de horas, ao lado de Israel, Teerã foi atingida por centenas de toneladas de bombas, e a cúpula do regime, incluindo o líder supremo, Ali Khamenei, foi morta. Em Washington, muitos esperavam uma repetição da ofensiva na Venezuela, em janeiro, quando as tropas capturaram o presidente, Nicolás Maduro, e o chavismo se alinhou à Casa Branca. — Este regime logo aprenderá que ninguém deve desafiar a força e o poder das Forças Armadas dos Estados Unidos — disse Trump no pronunciamento, publicado em sua s redes sociais. As armas da guerra: Um guia sobre os principais artefatos utilizados por EUA, Israel e Irã no conflito do Oriente Médio Veja mapa: Com mais tropas americanas a caminho, Irã fortalece defesas no Golfo e se prepara para invasão em terra Um mês depois, o cenário não poderia ser mais distinto do que previam os trumpistas. Apesar de abalada, a República Islâmica segue em pé, lançando ataques violentos contra Israel, bases americanas e as monarquias do Golfo. O fechamento de Ormuz estrangulou uma das principais passagens de petróleo e gás do planeta, impondo impactos globais e demonstrando como o regime estudou formas de usar seu território como arma contra invasores. Sem objetivos claros, Trump alterna discursos sobre negociações com a ameaça de uma ofensiva terrestre. O apoio interno à guerra é baixo, e nem seus aliados republicanos parecem dispostos a defender a “Operação Fúria Épica” a qualquer custo. Com os preços dos combustíveis em alta, muitos temem derrotas nas eleições de novembro, que renovarão a Câmara e parte do Senado. A aprovação está abaixo dos 40%. Initial plugin text Outra vítima da guerra é a liderança internacional dos EUA, já fragilizada pelo caótico primeiro ano do atual mandato de Trump. Os aliados europeus se recusaram a empregar tropas e armas contra Teerã, e temem um esfarelamento ainda mais acentuado da Otan, a principal aliança militar do Ocidente. Os russos se aproveitam da mudança de foco na Casa Branca para avançar em sua ofensiva de primavera, sem a preocupação com negociações de paz. Nem as relações com Israel passaram ilesas: Trump e o premier israelense, Benjamin Netanyahu, demonstram ter objetivos diferentes, e as rusgas por vezes foram públicas. Os mercados financeiros, que em 2024 celebraram a eleição do republicano, amargam semanas de perdas. Entenda os efeitos da guerra em todo o planeta e como Trump, ao contrário do que prega, pode ser o grande perdedor. EUA Sem um casus belli definido, Trump decidiu atacar o Irã em meio a negociações diplomáticas, como fez no ano passado ao atacar centrais nucleares. As bombas mataram lideranças iranianas, abalaram a capacidade militar e seus aviões de combate, assim como os israelenses, transitam livremente pelos céus do país. Mas a forma como conflito evoluiu não parecia estar nos planos do presidente. Os bombardeios do Irã esgotaram recursos defensivos regionais, e o deslocamento de sistemas de defesa aérea de outras regiões, como a Ásia, causou mal-estar com governos locais. Não há indícios de que instalações ligadas ao programa nuclear tenham sido inutilizadas, assim como as fábricas subterrâneas de mísseis e drones, e as negociações sobre um cessar-fogo só produziram, até o momento, manchetes em veículos de imprensa. O fechamento de Ormuz provoca o maior choque do petróleo desde os anos 1970, e aumentou a insatisfação dos americanos com o conflito, a meses de eleições. Donald Trump AFP Irã Quando os mísseis caíram sobre Teerã, o regime se encontrava em seu momento mais frágil desde 1979, após semanas de protestos e sob pressão internacional por causa das mortes de dezenas de milhares de pessoas. Mas os ataque pareceram um golpe esperado. O sistema descentralizado de comando permitiu retaliações imediatas, e o fechamento de Ormuz foi um golpe decisivo. A resiliência empoderou os discursos oficiais, e pode influenciar nas negociações com os EUA. Mas país deve sofrer um choque de realidade. A reconstrução deve ser longa, e a economia, já em crise antes da guerra, está em frangalhos. Os ataques no Golfo ainda agravaram a percepção de que Teerã é um risco. Estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb Editoria de Arte Israel Para Netanyahu, uma guerra com o apoio dos EUA parecia a melhor chance em décadas para eliminar um regime que vê como ameaça existencial. Os bombardeios atingiram alvos militares e estratégicos, mas também causaram críticas dos americanos quando destruíram instalações petrolíferas. Mas as bombas iranianas causaram danos e mortes em cidades israelenses, mostrando limites nos sistemas de defesa antiaérea — Dimona, principal central nuclear do país, quase foi atingida. Israel abriu uma nova frente de combate no Líbano, centrada no grupo Hezbollah e que provocou mais de mil mortes e um milhão de deslocados internos. Com o país há dois anos e meio em guerra, políticos e comandantes dizem que as tropas estão “à beira do colapso”. Homem quase é atingido por míssil em Yehuda, em Israel Golfo Pérsico Em questão de horas,a imagem de ilhas de estabilidade em uma região afeita a conflitos, nutrida por décadas, começou a desmoronar. As bombas em Dubai, Abu Dhabi, Doha e Riad jogaram as monarquias árabes para uma guerra que não era delas. Estragos em hotéis e bases militares usadas pelo EUA se acumularam, assim como perdas na indústria aérea, com a maior paralisação desde a pandemia da Covid-19, e de petróleo e gás. Estimativas apontam para prejuízos bilionários, sem recuperação rápida. Em meio ao mal estar com Teerã, alguns monarcas já falam abertamente em se juntarem à guerra. Incêndio em depósito de combustível após incidente com drone afeta voos no aeroporto de Dubai AFP Economia global As bombas no Golfo Pérsico provocaram efeitos devastadores a milhares de quilômetros da região. Ações listadas em bolsas de valores perderam trilhões de dólares em valor em questão de dias, e a disparada nos preços do petróleo e gás fez com que governos em todo o mundo entrassem em modo emergencial. As promessas de Trump e a liberação de estoques estratégicos serviram como alívio temporário, mas analistas já preveem taxas de crescimento modestas em 2026, com risco de recessão nos EUA, e estimam que a inflação global será impactada. Europa/Otan Nas capitais europeias, a dissonância deu o tom das respostas à guerra. Não houve apoio explícito às ações de Trump, cuja legalidade foi questionada, e as críticas ao Irã se restringiram a comunicados e, após o fechamento de Ormuz, compromissos para garantir a navegação. O continente pareceu satisfeito em ser coadjuvante, mas viu nos ataques de Trump — que chamou os líderes locais de “covardes” — novos riscos à segurança regional e à unidade da Otan, da qual o americano ameaçou se retirar. Rússia A Rússia foi uma das principais beneficiadas. A alta do petróleo significou mais dinheiro nos cofres do Estado para financiar sua própria aventura militar na Ucrânia. A escassez do produto derrubou sanções dos EUA ao barril russo, com o retorno de velhos clientes. O foco das atenções no Oriente Médio dá a Vladimir Putin espaço para sua nova ofensiva de primavera em território ucraniano, e lhe poupa de participar de negociações de paz. De acordo com governos ocidentais, Moscou está fornecendo dados de inteligência a Teerã, e cogita enviar drones de ataque, o que o Kremlin nega.

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