Crítica: Volta de Marcelo Moutinho ao conto, 'Gentinha' se apresenta como uma ficção sobre a memória do cotidiano
Jornal O Globo

Crítica: Volta de Marcelo Moutinho ao conto, 'Gentinha' se apresenta como uma ficção sobre a memória do cotidiano

Em seu novo livro, “Gentinha”, o escritor Marcelo Moutinho escolheu como epígrafe um pequeno texto de João Antônio (1937-1996), autor que retratou com vigor incomum a vida proletária de São Paulo e do Rio. Por meio da recriação da linguagem, ele valorizava a sonoridade das palavras e do fraseado de seus personagens. O mesmo ouvido treinado é revelado por Moutinho em seu retorno, após seis anos, ao gênero do conto. Azar Nafisi: 'As pessoas preferiram morrer a continuar vivendo sob este regime', diz escritora iraniana Rosiska Darcy de Oliveira: Imortal diz que alta de feminicídios não acontece por acaso e defende direito ao aborto: 'A única pessoa que decide sobre isso é a mulher' “Gentinha” traz um conjunto de 16 narrativas divididas em duas partes, contos que partem da resolução de dar voz, corpo e mente a figuras fascinantes e fugidias do dia a dia. Escritor atento, vencedor do Prêmio Jabuti em 2022, Moutinho leva para as páginas o modo como os populares (tanto moradores de bairros de periferia quanto os das casas de classe média) trabalham e falam, como pensam e organizam suas vidas. Tudo fruto do olhar curioso de quem gosta de circular livremente pelas ruas de Rio. São histórias curtas que privilegiam os detalhes, cuja beleza lírica se revela lentamente. Moutinho nos faz acreditar que, em nosso cotidiano urbano, somos mais semelhantes aos anônimos do que pensamos. “Gentinha” se apresenta como uma ficção sobre a memória do cotidiano. Das 16 narrativas, apenas a primeira, “Queda para o alto”, não é totalmente ficcional, mas inspirada em fatos relacionados à morte trágica da mãe do escritor, o que comprova a existência de uma terrível sina familiar ligada a atropelamentos. A narrativa é seca, o que a torna ainda mais dolorosa: “Não, não adianta ligar para o 190, chamar os bombeiros, a ambulância. Basta olhar o ônibus. O para-brisa estilhaçado diz coisas que ninguém quer ouvir, suas fissuras são palavras de uma língua interdita, o rebuliço é, paradoxalmente, silêncio”, diz um trecho. O mesmo assunto inspirou a primeira crônica de “O último dia da infância”, o livro anterior de Moutinho, que traz o comovente relato sobre a morte trágica da mãe, atropelada às vésperas do Natal. O cronista estava em Recife e a viagem aérea até o Rio, período em que não consegue receber ligações telefônicas, é marcada pela angustiante expectativa de receber a fatídica notícia. Um tema que ainda parece não resolvido para o escritor. No objeto de sua curiosidade, o artista revela tanto a si quanto os narradores e os personagens que cria. Capa de 'Gentinha' Divulgação João Antônio era um grande estilista e optava pela quebra da regra, da mesma forma com que Moutinho constrói seu caleidoscópio com peças que se encaixam mesmo que totalmente diferentes uma da outra. Para sua escrita, pode-se aplicar a mesma observação feita pelo crítico Antonio Candido para João Antônio: “Há uma coragem tranquila de elaborar a irregularidade, aceitando os caprichos da conversa, as hesitações, as repetições, as violações do ‘bom gosto’ convencional, que contradizem os manuais de escrever bem, mas aumentam o alcance da expressão porque a aproximam da naturalidade.” A singularidade do estilo de Moutinho é especialmente notada em “Conto de Natal”, em que um ladrão vestido de Papai Noel só quer roubar de uma loja o melhor presente para o filho. Aqui, o leitor se delicia com o ouvido atento do contista, que reproduz com perfeição a linguagem afiada de quem vive em eterna luta pela sobrevivência. “O Ilsinho tava na função de render o gerente, depois a gente recolhia os bagulhos e botava no carro do Marcão. Sem neurose.” O vocabulário das ruas ganha uma erudição parodiada. Os personagens de “Gentinha” não se limitam à sua condição ordinária: conseguem fugir do óbvio do cotidiano até atingir momentos de rara beleza. E Moutinho sabe alternar humor com clima tenso. “Mictório” provoca uma vaga lembrança do filme iraniano “Foi apenas um acidente” (2025) ao relatar um encontro trivial em um banheiro público onde um homem reconhece ao seu lado aquele que o torturou barbaramente anos antes. Édouard Louis: No Rio, escritor se encanta com Malu Galli, cai no samba e exalta cultura brasileira: 'Um dos grandes encontros da minha vida' Já “Paladar infantil” apresenta um personagem fascinante, um bebê que, embora ainda obrigado a apenas tomar mamadeira, revela-se um gourmet ao avaliar (e desejar) os alimentos consumidos pelos adultos que o cercam. Como ainda não consegue articular as palavras, traduz sua insatisfação por meio de um choro incessante. Alimentos, por sinal, estão presentes em vários contos, na descrição de cardápios ou no apontamento do que está sendo consumido, recurso com que Moutinho demonstra a importância do paladar na ambientação das cenas. O mesmo acontece com canções, que atravessam boa parte das narrativas e funcionam como ponte entre literatura, memória e cultura popular a partir de um vasto repertório, que vai de Roberto Carlos a Jorge Ben Jor, passando por Altemar Dutra e os Menudos. Enxuto nas frases, implacável nas observações, direto na forma escrita, o texto de Moutinho apresenta um “regionalismo urbano”, ou seja, uma inspirada carpintaria verbal nascida de uma intensa vivência da cidade e de seus tipos. “Gentinha” terá noite de autógrafos no próximo dia 9 de abril, 19h, na Livraria Janela do Jardim Botânico (Rua Maria Angélica 171), com leitura de contos pelos atores Fabíula Nascimento e Bruce Gomlevsky, e bate-papo com Mateus Baldi. Ubiratan Brasil é jornalista

Go to News Site