Furto de vírus na Unicamp foi motivado por disputa acadêmica, dizem cientistas
Jornal O Globo

Furto de vírus na Unicamp foi motivado por disputa acadêmica, dizem cientistas

O episódio de furto de amostras de vírus em um laboratório da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) tem como pano de fundo uma disputa acadêmica, afirmam colegas da cientista suspeita no caso. Trama biotecnológica: Cientista suspeita de furtar laboratório na Unicamp tem empresa que produz vírus transgênicos 'Não foi a educação que eu dei': Mãe 'invade' rede social do filho, critica postagem machista e viraliza na web A professora Soledad Palameta Miller, contratada pela Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), chegou a ser presa na última segunda-feira pela Polícia Federal por ter retirado sem autorização os microorganismos que estavam armazenados em um laboratório do Instituto de Biologia (IB) chefiado pela professora Clarice Arns. Apesar de trabalharem em unidades diferentes, Soledad estava colaborando em pelo menos três projetos de pesquisa de Arns, listados em seu próprio currículo na plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). As cientistas eram parceiras em estudos que envolviam o vírus sincicial respiratório, o metapneumovírus aviário e o vírus da bronquite infecciosa. Currículo forte: Saiba quem é a professora da Unicamp presa por furto de material biológico Um pesquisador da Unicamp ouvido pelo GLOBO na condição de anonimato disse crer que, pela relação mantida entre as duas, a motivação para o suposto furto teria sido uma "disputa pelo teor da pesquisa". Soledad é sócia em um startup de aplicações de microbiologia na pecuária e manipula organismos transgênicos, mas a possibilidade de o material disputado ser direcionado a sua empresa é pequena, dizem fontes, porque o incidente se limitou todo ao ambiente do campus da Unicamp. — Não acredito que ela queria vender ou fazer algum tipo de bioterrorismo — disse outro pesquisador ao GLOBO. — A motivação foi algo mais humano, talvez disputa de egos ou alguma desavença. Outro elo que existe entre as duas pesquisadoras é que o marido de Soledad, Michael Edward Miller, foi orientando de Arns no mestrado e no doutorado, que ainda está em curso. O cientista também chegou a ser alvo de mandado de busca e apreensão por parte da Polícia Federal, mas não chegou a ser preso. Michael é graduado em medicina veterinária e participou de trabalhos de Arns que envolviam vigilância epidemiológica em animais, particularmente morcegos. Nada foi dito em detalhe sobre que tipo de disputa teria desencadeado o episódio do furto. Não é incomum que parcerias acadêmicas gerem atritos, sobretudo em casos nos quais pesquisadores fazem intercâmbio de favores, como empréstimo de equipamento em troca de assinaturas em estudos. Outro ponto que não está claro ainda para os cientistas ouvidos pelo GLOBO é o motivo pelo qual Soledad teria movimentado vírus de gripe (variantes H1N1 e H3N2), que não são citados explicitamente nos projetos de pesquisas descritos ao CNPq. Isso causou preocupação imediata entre os pesquisadores, porque estes são patógenos que precisam estar em segurança biológica de nível 3, mais restrita, pois apresentam risco real de contaminação. A amostra congelada teria sido armazenada em um freezer inadequado para essa categoria na FEA, segundo pesquisadores. Apesar de a reitoria da Unicamp ter divulgado poucos detalhes do caso, há sinais de a decisão de chamar a polícia para investigar o episódio partiu de Arns, depois de uma estudante de pós graduação ter dado falta das amostrass de vírus. O ambiente do IB é vigiado por câmeras, e é possível que a pessoa autora do furto tenha sido identificada pela própria instituição. O caso todo se desenrolou por mais de um mês, entre o sumiço das amostras em fevereiro e a prisão de Soledad em março. Ela foi solta em liberdade condicional sob fiança, com a defesa argumentando paralelamente que ela é mãe de duas crianças. Nenhuma das pessoas envolvidas no caso, vítimas ou suspeitos, deu declarações públicas sobre por que teria sido feita a movimentação indevida de amostas. Polícia acolhida Quando os agentes da PF chegaram ao campus com representantes da justiça, no sábado anterior à prisão de Soledad, o trabalho foi todo feito com colaboração de pesquisadores do IB, que forneceram equipamento de proteção aos policiais que ingressariam nos laboratórios. "Eu gostaria de agradecer a ação conjunta da Polícia Federal e da Anvisa, que coordenaram ações simultâneas no Campus de Barão Geraldo da Unicamp e em outros locais da cidade", afirmou o diretor do IB, Hernandes Carvalho, em email interno. "Gostaria também de reconhecer o trabalho diligente e hábil da Procuradora Geral, Dra. Fernanda Lavras Costallat Silvado e da Procuradora Subchefe, Dra. Luciana Alboccino Barbosa Catalano, que habilmente orquestram as atividades." Quando investigadores estavam na FEA, Anderson Santana, diretor da faculdade, ordenou a interdição dos laboratórios que seriam revistados. Um ultrafreezer da instituição segue lacrado. O GLOBO entrou em contato com Pedro Russo, advogado de Soledad Miller, questionando-o sobre o posicionamento de sua cliente diante da investigação, mas não obteve retorno. A Reitoria da Unicamp tem se manifestado por meio de comunicados oficiais sobre o caso, mas disse que não pretende dar detalhes sobre a investigação enquanto ela estiver em curso. "A Universidade seguirá rigorosamente as normas processuais e institucionais", disse em nota a entidade. "Manifestações detalhadas sobre o mérito da investigação serão realizadas exclusivamente nos autos dos processos, nas esferas externa e interna. Cabe ressaltar que todo o material recolhido está sob a guarda e responsabilidade legal da PF."

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