'Três Apitos' de Noel Rosa: Vila Isabel entra no mapa do turismo internacional com nova Rota do Samba
Jornal O Globo

'Três Apitos' de Noel Rosa: Vila Isabel entra no mapa do turismo internacional com nova Rota do Samba

O som do apito já não ecoa das chaminés como antes. Mas, em Vila Isabel, ele continua a marcar o ritmo de uma história que nunca deixou de ser cantada. Entre calçadas que guardam partituras, muros que contam trajetórias e esquinas onde o samba resiste, o bairro da Zona Norte passa a transformar sua própria memória em caminho — um percurso afetivo que agora também se abre ao turismo internacional, com apoio da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur). Confira o percurso completo no final da reportagem. Alimentos com larvas e mosquitos: às vésperas da Semana Santa, fiscais descartam 14 quilos de alimentos impróprios no Cadeg Cinema: Prefeitura do Rio lança projeto para criação de filmes curta-metragem na Rocinha A partir deste sábado, Vila Isabel entra oficialmente no mapa do turismo internacional com o lançamento da segunda fase da Rota do Samba. Batizada de “Três Apitos”, em referência à canção de Noel Rosa inspirada na antiga fábrica de tecidos do bairro, a iniciativa conecta, a partir das histórias de Noel e Martinho da Vila, dez pontos históricos e afetivos em uma caminhada guiada que tem como pilares simbólicos os dois sambistas e a Unidos de Vila Isabel. A antiga fábrica Confiança, em Vila Isabel, onde hoje funciona um supermercado Alexandre Cassiano / Agência O Globo O modelo já foi testado em Oswaldo Cruz, também na Zona Norte, onde a primeira edição do projeto ajudou a projetar o subúrbio como destino turístico. Agora, a aposta se volta para um território que, embora central na história do samba, por muito tempo ficou fora dos roteiros tradicionais. — A Vila, como ensinou Noel, não quer abafar ninguém. Só quer mostrar que tem samba também — diz o presidente da Embratur, Marcelo Freixo. — Estamos estruturando uma experiência completa, contando a história de Noel, Martinho e da própria escola, com tecnologia, memória e participação de quem vive o bairro. O percurso, com cerca de três horas de duração e realizado a pé, começa no ponto onde tradicionalmente está a estátua de Noel Rosa — atualmente ausente após ter sido vandalizada no ano passado — e segue por marcos que ajudam a contar a formação cultural do bairro. A previsão é de que o monumento volte a ocupar seu lugar no início do segundo semestre de 2026. Já a nova estátua de Martinho da Vila está em fase final de construção e deve ser inaugurada em junho, na Praça Barão de Drummond. Com mais de 14 metros de altura, o monumento vai retratar o sambista em bronze, posicionado sobre uma coroa e cantando para uma plateia formada por silhuetas de pessoas em aço. — É um prazer ser eternizado como um dos três apitos deste bairro, ao lado de Noel e da escola onde sou presidente de honra. Já fui homenageado e tive minha história contada de muitas maneiras, mas, em uma rota turística, é a primeira vez. Que venha o mundo todo conhecer o que a Vila tem de melhor: mostrar que faz samba! — afirma Martinho da Vila. A estátua de Noel Rosa dá o pontapé inicial na rota do samba em Vila Isabel. Depredada, restam apenas a mesa e o garçom Alexandre Cassiano / Agência O Globo Logo adiante, o visitante encontra o mural de Martinho da Vila, parte do projeto NegroMuro, que apresenta a trajetória do sambista e sua atuação política e cultural. Ao longo do trajeto, as calçadas musicais do Boulevard 28 de Setembro, atualmente em processo de revitalização, reúnem mosaicos com partituras de clássicos da música brasileira, como “Feitiço de Vila”. As intervenções fazem parte de um pacote de obras iniciado pela Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos, que inclui melhorias em calçadas no Centro histórico e em Vila Isabel. Segundo a pasta, os totens já estão prontos, e as pedras portuguesas estão em fase final de instalação, ainda sem previsão de conclusão. Já no local onde ficava a casa de Noel, hoje substituída por um edifício, o visitante pode acessar, por meio de QR Codes, imagens e informações sobre a antiga residência. A rota também inclui audioguias multilíngues, mapas interativos e recursos de realidade aumentada, desenvolvidos com apoio do EmbraturLAB. Em alguns pontos, conteúdos digitais complementam a história do bairro. No fim do trajeto, na quadra da Unidos de Vila Isabel, o público poderá assistir, com óculos de realidade virtual, a um encontro fictício entre Noel Rosa e Martinho da Vila. Na narrativa, Martinho apresenta ao compositor, que morreu em 1937, antes da fundação da escola de samba, a Vila Isabel que ele não chegou a conhecer. Noel, por sua vez, responde apenas com trechos de suas músicas. As calçadas musicais do Boulevard 28 de Setembro, em Vila Isabel, integram a rota do samba no bairro, ao lado de outros dez pontos Alexandre Cassiano / Agência O Globo A iniciativa também dialoga com o afroturismo e a valorização das narrativas negras na construção da cultura brasileira. A curadoria foi realizada em parceria com historiadores, pesquisadores e a empresa Etnias Turismo e Cultura, fundada pela turismóloga Emily Borges, que destaca o esforço de conectar a história do samba à formação social do bairro. — A gente buscou mostrar não só a boemia, mas também a relação com a história da abolição e a construção de Vila Isabel como território simbólico — explica. — Depois do mapeamento, construímos a formação dos guias para ampliar o olhar e desenvolver esse circuito turístico na cidade. Ao todo, mais de 70 pessoas participaram da capacitação presencial, e cerca de 30 guias foram formados para atuar no circuito. Durante os três primeiros meses, os passeios serão gratuitos, realizados aos sábados, para atrair moradores e visitantes e integrar a rota ao cotidiano do bairro. Para se inscrever, clique aqui. Assim como em Oswaldo Cruz, o projeto pode movimentar a economia local e fortalecer a identidade cultural da região. Para o presidente da Unidos de Vila Isabel, Luiz Guimarães, a iniciativa representa uma oportunidade de ampliar o alcance da história do bairro. — É uma chance de levar mais pessoas para conhecerem um território extremamente rico culturalmente, não só pela escola, mas por tudo o que Vila Isabel representa — afirma. A quadra da Unidos de Vila Isabel é o ponto final da rota do samba no bairro Alexandre Cassiano/Agência O Globo O circuito termina justamente na quadra da agremiação, que neste ano celebra 80 anos de história. O lançamento da rota se soma às comemorações, com apresentações culturais e a presença de nomes ligados ao samba, como Martinho da Vila e Milton Cunha. Confira o percurso da Rota do Samba de Vila Isabel Monumento a Noel Rosa: homenagem interativa ao compositor, inspirada em “Conversa de Botequim”. Mural de Martinho da Vila: obra do projeto NegroMuro que sintetiza a trajetória artística e política do sambista. Calçadas Musicais da Boulevard 28 de Setembro: mosaicos com partituras de clássicos da música brasileira, incluindo “Feitiço de Vila”. Bar Petisco da Vila: ícone da boemia carioca e ponto de encontro de grandes nomes do samba. Edifício Noel Rosa: local onde ficava a casa do compositor, hoje resgatada por tecnologia digital. Fábrica Confiança e vila operária: marco da industrialização que inspirou “Três Apitos” e moldou a vida no bairro. Ponto Cem Réis: antiga parada de bonde ligada à rotina operária e à sociabilidade local. Escola Municipal Equador: espaço que já abrigou ensaios da Vila Isabel e integra a memória do samba-enredo “Kizomba”. Praça Barão de Drummond: berço do primeiro zoológico da cidade e origem do jogo do bicho. Quadra da Unidos de Vila Isabel: ponto final do circuito e símbolo da consolidação da escola. Initial plugin text

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