'Crime mais grave contra a humanidade': o que significa resolução da ONU sobre escravidão e o que pode mudar?
Jornal O Globo

'Crime mais grave contra a humanidade': o que significa resolução da ONU sobre escravidão e o que pode mudar?

A decisão da Assembleia Geral da ONU de classificar o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas como “o crime mais grave contra a humanidade” amplia o reconhecimento internacional sobre a gravidade do sistema escravagista e seus efeitos duradouros. Embora não tenha caráter vinculante — ou seja, não obriga países a adotar medidas concretas —, a resolução é vista como um marco político que pode fortalecer pressões por reparações e por medidas de reconhecimento histórico. 'Sofrimento físico e mental': Mundo deu a Israel 'licença para torturar' palestinos, diz relatora especial da ONU Guerra no Irã: Pelo menos 3,2 milhões de pessoas foram deslocadas no Irã desde o início do conflito A formulação destaca o tráfico de africanos entre os séculos XV e XIX, período em que entre 12 e 15 milhões de pessoas foram levadas à força para as Américas, com cerca de 2 milhões de mortes durante a travessia. Para o secretário-geral António Guterres, o sistema foi “construído sobre vidas roubadas e trabalho roubado” e constituía “uma máquina de exploração em massa e de desumanização deliberada de homens, mulheres e crianças”. Reconhecimento político e efeitos práticos Na prática, a resolução não obriga países a adotar medidas concretas, mas eleva o status do tema dentro das Nações Unidas. — Já é um passo enorme e significativo em termos políticos ter esse debate na ONU, mesmo que tenha um valor mais simbólico — afirmou Almaz Teffera, pesquisadora sênior sobre racismo na Human Rights Watch, à BBC. Transferências forçadas e desaparecimentos: ONU acusa Rússia de 'crimes contra a humanidade' por deportação de crianças ucranianas Especialistas apontam que o principal efeito pode ser o fortalecimento das demandas por reparações, que incluem compensações financeiras, pedidos formais de desculpas, criação de fundos e investimentos em educação. Para a líder do Fórum Africano da Diáspora, Erieka Bennett, o reconhecimento tem impacto emocional direto. — Isso significa que eu sou reconhecida, significa que meu ancestral finalmente descansa. Para mim, pessoalmente, como afro-americana, estou emocionada. Até que você faça parte do que aconteceu, é muito difícil entender o que isso realmente significa — diz. O tema enfrenta resistência de países como Estados Unidos e Reino Unido, que rejeitam reparações financeiras diretas. Clima extremo: Terra acumulou calor recorde em 2025, e consequências podem durar milhares de anos, diz agência da ONU O chanceler britânico David Lammy afirmou que “não se trata de transferência de dinheiro”. Entre os argumentos contrários estão a dificuldade de responsabilizar gerações atuais e de identificar descendentes diretos. Os valores em discussão variam amplamente. Estimativas citadas incluem pelo menos 33 trilhões de dólares, em propostas associadas à Caricom, e até 107 trilhões de dólares, segundo Patrick Robinson. Para o analista jurídico Luke Moffett, “legalmente, é uma montanha enorme que não pode ser escalada". — Mas isso não significa que as partes envolvidas não devam sentar e negociar. As pessoas, no entanto, não devem esperar trilhões de dólares. Também é provável que essas discussões levem décadas para chegar a algum tipo de acordo — explica. Além do dinheiro Há crescente ênfase em medidas não financeiras. Segundo a representante do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), Sara Hamood, o aspecto financeiro é "só uma parte". — Temos dito repetidamente que nenhum país enfrentou plenamente o legado da escravidão ou contabilizou de forma abrangente seus impactos na vida das pessoas de ascendência africana. Pedidos formais de desculpas, esclarecimento da verdade e educação fazem parte de um amplo conjunto de medidas — afirma. Para defensores, a resolução é um avanço, mas insuficiente. Acadêmica e ativista, Esther Xosei duvida que a votação da ONU, por si só, tenha efeitos reais. — É uma boa vitória [para o movimento por reparações], mas lembremos que isso é apenas uma declaração de intenção. Corações e mentes não serão conquistados na ONU. A verdadeira batalha será travada nas ruas, onde as pessoas ainda estão desinformadas sobre a história da escravidão e seus efeitos duradouros na vida dos africanos e de seus descendentes — diz. A classificação também gerou críticas. Para vice-embaixador dos EUA na ONU, Dan Negrea, há um equívoco em hierarquizar crimes contra a humanidade. — A afirmação de que alguns crimes contra a humanidade são menos graves do que outros diminui objetivamente o sofrimento de inúmeras vítimas e sobreviventes de outras atrocidades ao longo da história — explica.

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