Jornal O Globo
Romulo Estrela é um homem à moda antiga: abre a porta do carro, puxa a cadeira, olha nos olhos ao cumprimentar. É também um “aliado da causa feminista”, como frisou durante entrevista de duas horas feita em sua casa, na Zona Oeste do Rio, com direito a café fresco e bolo quentinho, saído do forno. No ar como o policial Paulinho Reitz, de “Três Graças”, o ator maranhense de 41 anos vive o auge da carreira, sem estrelismos de galã. No Rio desde os 17, quando já sabia que queria ser ator da Globo, exercitou outras aptidões antes de engrenar na TV. Apaixonado por esporte e lutas marciais, tornou-se faixa preta de jiu-jítsu e chegou a competir na modalidade. Também sonhou pilotar aviões, e é louco por motores, a ponto de guardar na residência carros da década de 1970, como Kombi e Variant, além de conservar com capricho e devoção uma Harley-Davidson. Ao lado da rebeldia de motoqueiro, Romulo guarda um romântico inveterado. Desde 2008, vive uma história de amor com a especialista em branding pessoal Nilma Quariguasi, que cuida de clientes do porte de Paolla Oliveira e Tais Araújo. Pais de Theo, de 9 anos, eles se conheceram na época de colégio, em São Luiz; anos depois, reencontraram-se em São Paulo e se casaram em 2017. “Estamos longe de ser uma família ‘margarina’”, ressalta. “O que temos um pelo outro é uma profunda admiração.” Romulo Estrela Marcus Sabah Além da volta às novelas — a última que participou foi “Travessia” (2022), em que viveu o hacker Oto —, vai aparecer na segunda temporada da série “Amor da minha vida”, ao lado de Bruna Marquezine, e completamente diferente no longa “Por um fio”, baseado no livro homônimo do oncologista Drauzio Varella, ambos com estreia para o segundo semestre.“Estou muito feliz com os dois projetos.” A seguir, os melhores trechos da conversa em que Romulo fala sobre casamento, masculinidade, vaidade, moda e carreira internacional. O GLOBO: O Paulinho Reitz, de “Três Graças”, é um policial sensível e vulnerável. Como construiu o personagem? Romulo: Eu, Romulo, acredito em múltiplas masculinidades. Então, pensei em como trazer isso para o Paulinho, ao ler a sinopse. Quis humanizá-lo. Me dei conta de que era a oportunidade perfeita de dividir com essa “macharada” um cara que não tem medo de se vulnerabilizar, de dizer que ama e que está sofrendo por amor. E que é, ao mesmo tempo, seguro de si e de sua competência profissional. É claro que Paulinho tem a herança machista. A masculinidade em alguns ambientes policiais pode ser equivocada. Conheci os caras de uma delegacia em São Paulo e, nesse processo, encontrei um agente calmo, que, ao contrário de outros, não fazia piadas misóginas e respeitava as mulheres. Ao observá-lo, pensei: “Tá aí”. O GLOBO: Há três meses, você gravou um vídeo falando que era hora de os homens agirem em relação à violência sofrida pelas mulheres. De lá para cá, a situação só piora... R: Estamos vivendo um momento em que não podemos mais passar pano nem fingir que não estamos vendo o que está acontecendo. Temos números alarmantes de feminicídio, o assunto é sério. Quero trazer os homens para o debate. Sou aliado da causa feminista. Estar ao lado de uma mulher potente como a Nilma me ajuda muito. Não tem um dia que a gente não fale sobre esse tema. O GLOBO: No dia a dia, como lida com atitudes machistas de outros homens? R: O machismo e o abuso começam nas pequenas coisas e em controles aparentemente inofensivos, como na piada que se faz ao lado da companheira. Atualmente, não tenho mais esse tipo de amigo, acontece uma seleção natural. Fica quem me respeita. Agora, se alguma situação de misoginia acontecer do meu lado, eu interfiro, sim. Quem cala, consente. E não serei o único a não ficar calado. Romulo Estrela Marcus Sabah O GLOBO: Você e Nilma estão casados há 17 anos. De que maneira se mantiveram firmes diante de tantas outras possibilidades? R: Com tanto assédio, né? Primeiro, não sou a mesma pessoa, nem a Nilma. Sempre estabelecemos um diálogo intenso na nossa relação. Temos, sobretudo, muita admiração um pelo outro. Já fizemos terapia de casal, o que aconselho a todos (risos). A Nilma é uma mulher por quem sinto muito desejo. E eu vou te falar uma coisa, isso também é uma manutenção, você ter, na mesma pessoa, o parceiro amoroso e amante. Atribuo o sucesso da minha família ao fato de a gente, em primeiro lugar, querer estar um com o outro e também a fazermos concessões. Vou te dar um exemplo: sou um cara receptivo, aberto! Porém, às vezes, essa gentileza em excesso dá margem a interpretações erradas, a ciúme. Precisei ajustar isso no nosso casamento. O GLOBO: Você falou sobre desejo. Tem alguma receita para manter a “chama acesa”? R: Em primeiro lugar, a terapia de casal. Não conseguir falar determinadas coisas para o seu parceiro, o que você quer de verdade e quem você é, pode virar um problema e embotar o desejo. O GLOBO: Já pensaram em abrir o casamento? R: Já conversamos sobre isso, mas, por enquanto, não sentimos vontade. O GLOBO: Você foi diagnosticado com fibrilação atrial, que causa arritmia no coração, ao 24 anos. Como isso o impactou? R: Muito. Imagina estar no auge da saúde e não sentir nada. Aí, um médico chega e diz que eu tinha um problema grave no coração e poderia morrer a qualquer momento, a ponto de um treino na academia poder me matar. É uma condição silenciosa. Fiz uma ablação, cirurgia por cateter. Realizei duas, na verdade. Me dei conta, ainda muita jovem, da finitude de uma maneira muito direta, sem rodeios. Passei a ter cuidado e mudei muitas coisas na minha rotina. Excessos, como tomar um “porre” de álcool, não fazem mais parte da minha vida. Uma boa noite de sono faz muita diferença e tento não me preocupar em resolver coisas que eu não tenho o controle absoluto. O GLOBO: Por falar em saúde, você está no filme “Por um fio”, baseado no livro do oncologista Drauzio Varella. Pode falar dessa experiência? R: É um trabalho lindíssimo. Está ambientado num momento difícil que o Brasil passou, a ditadura militar. Fala também sobre o surgimento do Sistema Único de Saúde, o SUS. Abordamos coisas nossas, políticas e conquistas. Os dois protagonistas, interpretados por mim e Bruno Gagliasso, vivem um grande drama, um câncer em família. Já tinha feito outros trabalhos na minha carreira em que tive que encarar a dor e a perda. A gente só tem uma certeza na vida, a de que vamos morrer um dia. Porém, a sociedade ocidental se relaciona muito mal com isso. Temos dificuldade em aceitar a morte. O GLOBO: Além da saúde, quais são seus autocuidados? Considera-se vaidoso? R: Quero envelhecer bem. Trabalho com meu corpo, então seria negligente se não me cuidasse. Costumo fazer limpeza de pele, faço questão de utilizar um bom xampu, capricho na hidratação do rosto e aplico protetor solar. Sou um homem que carrega uma base na bolsa (risos). Romulo Estrela Marcus Sabah O GLOBO: Qual é a sua relação com a moda? R: Entendi que o jeito como me vestia comunicava rápido quem eu era e passei a olhar para esse assunto com atenção. Volta e meia, faço parcerias e, em breve, vou lançar um negócio que ainda não tinha feito: uma coleção em collab com a Foxton. O GLOBO: Planeja carreira internacional? R: As coisas naturalmente acontecem. Não vou fechar minha casa nesse momento e me mudar para Los Angeles ou Nova York para trabalhar lá. Tenho uma carreira no Brasil que amo. Mas a minha profissão, hoje, é global. O que posso fazer é estar preparado e disponível.
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