O exercício na infância
Jornal O Globo

O exercício na infância

Ninguém duvida da importância da atividade física para a saúde. O exercício é cada vez mais a panaceia da contemporaneidade. Faz bem para corpo e mente, previne doenças, melhora a qualidade de vida e garante um envelhecimento mais longevo e autônomo. A atividade física começa nos primeiros dias do bebê, quando alcança um objeto, ergue a cabeça de bruços, se arrasta e engatinha. A recomendação de 3 a 5 anos é de 180 minutos por dia e acima de 5 anos, de 60 minutos diários. A atividade física da criança sempre foi sinônimo de brincar e de infância: correr, pular, subir, cair e levantar, brincar de pega, andar de bicicleta, jogar bola, explorar o mundo e o próprio corpo. Isso tudo era feito com liberdade, pouca supervisão adulta, quando o território infantil era o próprio bairro. Hoje o livre brincar nas cidades está em extinção. Em contraponto cresce uma visão mais estreita e mercantil do movimento. Em vez de brincar, a criança “faz atividade”, conduzida por adultos, treinadores, com exigências de desempenho e metas. Sem o livre brincar e seu movimento espontâneo, a infância perde experiências fundamentais para o desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e social. A criança que corre, salta, se equilibra, joga com outras, aprende a usar o corpo com inteligência, descobre limites, mede riscos, desenvolve coragem, tolera frustrações. É a própria linguagem do desenvolvimento. A atividade física regular na infância melhora a saúde metabólica, ajuda a prevenir obesidade, melhora o perfil lipídico e controla a pressão arterial. Favorece a formação óssea, o desenvolvimento muscular, a coordenação motora e o bem-estar psíquico. O exercício melhora a oferta de oxigênio e nutrientes ao cérebro e estimula a coordenação, atenção e aprendizagem. Crianças ativas apresentam melhor cognição, regulação emocional e autoestima. Nas brincadeiras e jogos compartilhados, e mais tarde, nos esportes — especialmente os coletivos — a criança aprende a esperar a vez, lidar com a derrota, cooperar, conviver com regras e diferenças — habilidades humanas essenciais na infância e na vida adulta. Desmontando mitos antigos: não há esportes que fazem a criança crescer mais ou menos. Basquete não gera gigantes nem ginástica olímpica produz baixinhos. É um viés de seleção: os mais altos tendem a ir para certos esportes e vice versa. Outro mito: atividades de força e resistência são perigosas ou prejudicam o crescimento. Em intensidade adequada, com boa orientação e respeito à fase do desenvolvimento, são seguras e benéficas. O osso infantil responde com mais mineralização, importante para a construção da massa óssea que protegerá esse indivíduo no futuro. Muitos pais acreditam que, para uma criança se tornar realmente boa em um esporte, ela precisa se dedicar exclusivamente à modalidade. Algumas famílias fazem disso uma obsessão, muitas vezes imposta à criança. Uma revisão sistemática recente sugere o contrário: crianças que praticam múltiplas atividades, com repertório motor mais amplo, tendem a construir uma base mais sólida e têm mais chances de se tornar melhores atletas. A infância precisa ser a fase da diversidade, da alegria, do movimento pelo prazer. Foco, compromisso e esforço devem ir surgindo aos poucos. Numa época em que tantas crianças passam horas sentadas, confinadas em paredes e em telas, é bom lembrar: brincar e se movimentar é melhor que muitos treinamentos e aulas particulares. É ali que se fortalecem mais os músculos, ossos, pulmões, e também cérebro, vínculos, coragem, autonomia e alegria. A cultura contemporânea tenta traduzir a atividade física infantil em categorias adultas. Mas o que a criança precisa é brincar, de esportes com variedade e sem exigência excessiva, e experimentar a diversidade, a fantasia e a liberdade.

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