Vogue Brasil
Neste mês em que a Valentino celebra um duplo aniversário no Brasil (25 anos de presença da marca e 15 de operação direta), vale revisitar uma história de amor que poucos países do mundo podem reivindicar com uma grife. Porque a relação de Valentino Garavani com o Brasil nunca foi apenas comercial. Foi visceral, afetiva, familiar até. Tudo começou nos anos 1970, quando Lucia Curia (amiga íntima que trabalhava como relações-públicas da maison e depois se tornaria Moreira Salles) trouxe o couturier e seu sócio e então companheiro, Giancarlo Giammetti, ao Rio de Janeiro. Valentino se encantou. Da penthouse do Copacabana Palace, observava as pessoas na calçada e não via grande diferença entre cariocas e italianos. “Agradou-me o material humano, é apaixonante”, contou-me certa vez. Dali, a turma seguiu para a Bahia, e o impacto foi tão profundo que rendeu uma coleção inteira de vestidos brancos. Anos mais tarde, quando abriu sua loja de objetos para casa em Paris, as estátuas decorativas que mais vendiam eram figuras de baianas. Chegou a quase comprar um apartamento no Rio (uma vez em Copacabana, outra em Ipanema), mas nunca fechou negócio. Sobre o Carnaval, que adorava assistir do alto do camarote, “como na ópera”, dizia: “É sublime, é lindíssimo”. O Brasil deixou de ser destino de férias e virou parte constitutiva da vida dele. Em seu chalé suíço de Gstaad, a família Gancia era presença constante; tanto que Kika Rivetti, filha de Lulla e Piero Gancia, chegou a representar os licenciamentos da marca no Brasil nos anos 1980, quando as importações ainda eram vetadas por aqui. A “Tribe”, como ele e Giancarlo batizaram seu círculo de íntimos, foi ficando cada vez mais verde-amarela: Cacá de Souza, relações-públicas da marca por mais de 30 anos; Charlene Shorto, sua musa eterna; a condessa ítalo-brasileira Georgina Brandolini d’Adda; Andrea Dellal; e os filhos de Cacá e Charlene, Sean e Anthony, tratados não como tribo, mas como família de verdade, nas palavras do próprio Giancarlo. As modelos brasileiras sempre tiveram lugar especial em seus desfiles e em seu coração, de Dalma Callado, uma de suas musas inaugurais, a Betty Lago e Gisele Bündchen. “Nossa família ficou mais brasileira do que italiana”, resumiu Giancarlo. Fotografada em Roma, Julia Barucci usa vestido de tafetá com laço na gola e mangas bufantes e cinto de cetim. Todos os looks são da coleção de alta-costura verão 2026 da Valentino, batizada de Specula Mundi Vogue Brasil/ Marcus Sabah No plano comercial, a paixão correspondeu. Nos anos 1990, Eliana Tranchesi e Donata Meirelles foram responsáveis por abrir a primeira loja da marca no Brasil, na Daslu. Em 1998, um desfile para 1.200 convidados no Jockey Club paulistano, com direção de Naum Alves de Souza, celebrou os 40 anos da loja, e Dalma fez sua última aparição na passarela de Valentino. Em dezembro de 2001, a Daslu se tingiu de vermelho para acolher a alta-costura do mestre. Cacá de Souza recorda: “Trouxe vários vestidos vintage, apenas vermelhos, para o desfile, e todas as principais clientes também estavam de vermelho. Foi uma declaração de amor mútua entre ele e o Brasil”. Saiba mais Mônica Mendes, que foi relações-públicas da Daslu e esteve no centro desses eventos, guarda memórias precisas daquela noite. “Em 2001, tudo começou quando vi a Gisele Bündchen no Oscar com um vestido de alta-costura vintage Valentino, aquilo me marcou muito e ficou na minha cabeça”, conta. A ocupação do espaço foi total: cada sala da Daslu Homem foi pensada de forma autônoma, e os vestidos vermelhos ganharam um ambiente próprio, suspensos, mais de dez peças vintage em uma instalação que antecipava o que hoje se chamaria experiência imersiva. O envolvimento das clientes com a marca, relembra Mônica, era de outra ordem: “Não era só uma grife que vendia bem, existia uma identificação real. Elas tinham um encantamento pela feminilidade que ele criava, pela forma como o vestido transformava o corpo, pela segurança de saber que estavam lindas. Cada coleção nova que chegava era esperada, existia uma expectativa, quase uma ansiedade mesmo”. Blusa de chiffon fil coupé com padronagem paisley bordada, saia de lã bordada com flores, estola com bordados em radzimir de lã e seda e tiara de paetês com franjas Vogue Brasil/ Marcus Sabah Valentino Garavani nos deixou em janeiro deste ano, aos 93 (teria completado 94 em 11 de maio). Em março, visitei parte de seus arquivos no subsolo do PM23, a sede da Fundação Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti, num prédio do século XIX próximo ao seu atelê histórico, em Roma. Ali, deparei com o vestido de casamento de Jackie Kennedy, criações para Elizabeth Taylor (a cliente que tornou Valentino mundialmente célebre), a réplica do vestido com que Julia Roberts ganhou o Oscar por Erin Brockovich, croquis originais, muitas fotos de brasileiros e o vestido pantera original. Na entrada, a frase do documentário O Último Imperador: “I love beauty, it’s not my fault”. A Fundação, que ao lado de Elizabeth Taylor combateu a aids nos anos 1980, hoje se dedica a projetos sociais, culturais e educacionais e abriga exposições que promovem um diálogo entre os arquivos e a arte contemporânea. Vestido-caftã bordado em organdi plissado e contornado com renda, macacão curto de renda lurex, coroa de latão, cristais e correntes, e sandálias de cetim com plumas Vogue Brasil/ Marcus Sabah Alessandro Michele, atual diretor criativo, é o guardião desse legado e o intérprete do que Valentino representa hoje. Em conversa com a Vogue Brasil, ele fala sobre a relação com o arquivo da maison: “O passado de uma marca não é algo confinado a um único lugar: ele está espalhado, vive na memória, nas pessoas, nos objetos. As peças criadas por Valentino continuam a circular, a ser vistas, estudadas”. Longe de uma relação obsessiva com a nostalgia, Michele prefere encará-la como matéria viva: “O termo ‘arquivo’ pode sugerir uma ideia estática, quase restritiva, mas, na verdade, trata-se de um conjunto de objetos que fazem parte de uma história viva. Há peças extraordinárias, momentos de grande beleza e reflexões importantes. Afinal, esta marca se chama Valentino: e isso não é por acaso”. Quimono de veludo com forro em cetim e punhos bordados, cinto com franjas bordadas e mules de veludo acolchoado Vogue Brasil/ Marcus Sabah Sobre o vermelho (a cor mais carregada de significado na história da moda, quase uma obrigação e, ao mesmo tempo, um presente para quem ocupa esse posto criativo), Michele é categórico: “É um signo distintivo poderossíssimo, carregado de significados e sugestões. Uma cor que atravessa a história, a cultura e a linguagem simbólica: remete à dimensão religiosa (penso nos cardeais), mas também à ritualística; evoca o Oriente, as lacas, uma certa ideia de sacralidade e intensidade. Eu o percebo como algo vivo, em constante transformação, nunca estático”. Nesse espírito, o desfile de março, em Roma, terminou com um único look vermelho, um gesto que, dentro de uma coleção inteira, teve o peso de um ponto final. E também de uma promessa. Vestido de veludo com detalhes em espiral no ombro, cinto de veludo com laço e chapéu bob com cristais Vogue Brasil/ Marcus Sabah Para celebrar os 15 anos de operação direta no Brasil, a marca fez uma escolha que surpreendeu pela simplicidade e pela força: em vez de festa, convidou as clientes mais fiéis a indicarem instituições para receberem doações. “Quinze anos exigiam algo com um significado maior. Nós queríamos celebrar de uma maneira que tivesse a cara do nosso país e que ajudasse de verdade”, conta Patricia Bagattini, diretora da Valentino no Brasil. A corrente de generosidade que se formou alcançou o A.C.Camargo Cancer Center, as Obras Sociais Irmã Dulce, o Instituto Protea, o Pacto Contra a Fome e a Casa Santa Terezinha, entre outras. Um gesto que Valentino teria aprovado, ele que sempre soube que a beleza só se justifica quando transborda e alcança o outro. * Jaqueta e saia de cetim bordadas com padronagem com efeito de pétalas, top de organdi e chapéu acolchoado de veludo Vogue Brasil/ Marcus Sabah Créditos: Fotos: Marcus Sabah Texto: Bruno Astuto Direção de arte: Julia Filgueiras Edição de moda: Patricia Tremblais Diretora de moda: Vívian Sotocórno Beleza: Alan Leal Produção executiva: Flavia Karina Gay Produção local: Francesco Gau Direção de casting: Iris Carneiro Assistente de foto: Jordi Bello Tabbi Assistente de moda: Serena Gaudenzio Assistente de beleza: Lucas Vinicius Tratamento de imagem: Philipe Mortosa
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