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O jornalismo na UTI
Revista Oeste

O jornalismo na UTI

Quando o New York Times (NYT) decidiu publicar um artigo com acusações gravíssimas unicamente baseadas em relatórios de ONGs politizadas e fontes anônimas, fez mais do que abandonar o rigor: colaborou para decretar a falência do bom jornalismo em um veículo que foi, um dia, considerado um guardião da verdade. O NYT não está sozinho nesse processo, que é resultado de uma mudança estrutural drástica ocorrida nos últimos 20 anos dentro das redações. Seus orçamentos foram encolhidos, os escritórios internacionais foram fechados, enquanto ONGs multibilionárias, que operam segundo uma evidente agenda ideológica, tornaram-se suas principais fontes locais de informação. Muitas vezes, essas entidades substituem o trabalho dos repórteres, cada vez mais sobrecarregados e menos qualificados, enviando às redações textos prontos para publicação. O episódio do NYT pôs em evidência o resultado desse processo e a escalada preocupante da desinformação. Mais do que isso, exibe a infiltração na grande mídia de um tipo de informação precária e rudimentar que antes se restringia a perfis duvidosos em redes sociais ou veículos de autenticidade questionável. A acusação de que Israel treina cães que abusam sexualmente de prisioneiros não deveria estampar as páginas de uma publicação centenária. Já houve um tempo em que a mídia tradicional exerceu o papel de defensor do interesse dos leitores. As grandes redações contavam inclusive com uma editoria composta de repórteres investigativos que tinham como único objetivo o que seu título apontava: investigar. Sem eles, o público jamais teria conhecimento sobre o que se transformou no escândalo de Watergate, revelado por dois jornalistas do Washington Post e que levou à renúncia do presidente Richard Nixon. Outro bom exemplo é a revelação dos abusos sofridos por prisioneiros iraquianos na prisão americana de Abu Ghraib, resultado do trabalho de repórteres investigativos da CBS e da revista New Yorker . O que existe hoje está longe disso. Perda do senso crítico O leitor está, de forma geral, entorpecido pelo imediatismo e pela superficialidade das informações que consome. A perda do senso crítico não é um acidente, mas o resultado de um processo de adaptação a um ambiente informativo cada vez mais contaminado e baseado em algoritmos. A cobertura da guerra em Israel é um exemplo claro disso. E não é de hoje, muito embora tenha se tornado sistemático. Como escreveu o jornalista americano Matti Friedman em 2014, em seu artigo O Que a Mídia Entende Mal sobre Israel, no The Free Press, "o novo objetivo não é mais descrever a realidade, mas conduzir o leitor para uma conclusão política". Ele assistiu de perto esse processo durante os seis anos em que trabalhou na filial israelense de uma das maiores agências de notícia do mundo, a norte-americana Associated Press. Friedman é, atualmente, uma das vozes mais eloquentes quando se trata da transição do jornalismo ao ativismo que se assiste atualmente em veículos que no passado eram considerados fontes confiáveis, como, além do NYT , a CNN, o The Guardian e a BBC. O lado sombrio do Pulitzer A infiltração do ativismo também é observada no universo que orbita o jornalismo, como no do Pulitzer, prêmio criado em 1917 para reconhecer trabalhos de destaque nas áreas de jornalismo, literatura e composição musical. Poucos não conhecem as imagens que, décadas atrás, venceram prêmios de fotografia nas épocas áureas da fotorreportagem, como a dos fuzileiros navais hasteando a bandeira americana em Iwo Jima ou a da menina vietnamita correndo, com o corpo nu e queimado, após ser atingida por uma bomba de napalm lançada pelos Estados Unidos. Crianças correm em desespero durante a guerra do Vietnã - 8/6/1972 | Foto: Reprodução Já em 2024 e 2025, as escolhas do comitê de premiação do Pulitzer demonstraram um óbvio viés político, o qual gerou polêmica intensa pelo mundo. Uma das fotografias premiadas de 2024 mostra o corpo seminu da jovem israelense Shani Louk sendo desfilado pelas ruas de Gaza no bagageiro de uma caminhonete, após ter sido brutalmente assassinada por terroristas do Hamas no Festival Nova, em 7 de outubro de 2023. Ao seu redor, os algozes celebram seu “troféu”. A escolha por uma imagem que exibe a celebração da crueldade humana enquanto expõe sua vítima de forma degradante levou a uma onda de indignação pelo mundo. Já a imagem premiada com o Pulitzer 2025 estampou a capa do New York Times e de muitas outras publicações ao redor do mundo, sendo utilizada como prova cabal da “fome em Gaza”. Ela mostra uma mãe segurando um bebê nu e de aparência famélica. Pouco tempo depois, Israel divulgou a verdade sobre a cena registrada: a criança sofre de uma doença congênita e já estava em tratamento na Itália no momento da publicação da imagem. O enquadramento que ocupou uma página quase inteira no NYT não permite ao público ver que ao lado do bebê estava seu irmão mais velho, evidentemente bem-alimentado. À época, o NYT admitiu o erro em uma pequena nota de uma página interna. Poucos dos inúmeros veículos que reproduziram a imagem tiveram essa preocupação. Em outras palavras, o Pulitzer premiou justamente a imagem cujo objetivo era consolidar a mentira da fome em Gaza. Ela foi a base para a que foi, provavelmente, a acusação mais grave lançada contra Israel durante o conflito. O ambiente jornalístico é desalentador, mas felizmente existe resistência. Há uma boa oferta de conteúdo provido por veículos e jornalistas independentes, a exemplo de Matti Friedman, além de canais dedicados à checagem de fatos e atentos aos desvios da mídia — como o HonestReporting, a UN Watch e a NGO Monitor. É uma prova de que o jornalismo honesto não desapareceu, mesmo que tenha sido empurrado para as margens do sistema. Sua salvação depende, definitivamente, do leitor. Leia também: "Conflito longe dos holofotes" , artigo publicado na Edição 321 da Revista Oeste O post O jornalismo na UTI apareceu primeiro em Revista Oeste .

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