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Brasil já tem mais festivais do que dias no ano | Collector
Brasil já tem mais festivais do que dias no ano

Brasil já tem mais festivais do que dias no ano

O Brasil tem festival o ano inteiro, mas nem todos chegam à segunda edição. Foram 366 eventos em 2025, de acordo com a pesquisa Panorama Mapa dos Festivais, lançada no mês de março, que catalogou ainda mais de 3,7 mil artistas e 958 marcas patrocinadoras e foi discutida durante o Rio2C 2026. O número de eventos cresceu cerca de 20% em relação a 2023, embora tenha se estabilizado na comparação com 2024. Mas toda essa estabilidade engana. Por trás dela, a cena fervilha e se desfaz no mesmo passo: 174 festivais realizados em 2024 não voltaram no ano seguinte, enquanto 58 marcas novas surgiram para ocupar o vazio. A conta que derruba a maioria foi resumida por Juli Baldi, diretora criativa do Mapa dos Festivais, na mesa “A Tendência dos Festivais no Brasil”. — A maioria deixa de acontecer por falta de patrocínio ou por não conseguir montar um line-up forte o suficiente para justificar a venda de ingresso. Sabor local Os grandes eventos, destacou Juli, são minoria: 56% recebem até 15 mil pessoas e apenas 8% se enquadram no maior porte. O país dos festivais é, sobretudo, um país de festivais pequenos. A expansão fora do eixo Sudeste, que hoje responde por cerca de 40% da cena, paga caro pela descentralização. Gabriela Parente, sócia-fundadora e diretora criativa do Festival Zepelim, de Fortaleza, lembrou que levar artistas e equipes para o Ceará pode custar tanto quanto uma viagem à Europa. — Às vezes uma banda local precisa fazer sucesso primeiro em São Paulo para depois fazer sucesso no Ceará. O diferencial dos festivais fora do eixo acaba sendo também uma dificuldade financeira e logística — disse Gabriela. Gerson Dias, diretor do Festival Psica, de Belém, tenta inverter a lógica: coloca os artistas locais no centro da grade, não como atração de abertura. O resultado é um evento que virou destino para o público de fora do Pará, atraído pela imersão na cultura amazônica, do tecnobrega às aparelhagens. — O regional é o novo nacional — resumiu Dias, antes de adiantar que o Psica prepara uma edição gratuita em julho, no Marajó, parte de uma expansão pelo estado. Risco da repetição Se a sobrevivência é um problema, a semelhança é outro. À medida que a oferta cresce, as grades se repetem, pautadas pelos algoritmos de sites e aplicativos. Em outra mesa do Rio2C, “A estafa algorítmica e as marcas: como ajudar os consumidores a furar suas bolhas”, curadores e executivos atacaram a ideia de que número de seguidores se converte em plateia. A métrica que enche um feed, argumentaram, não é a mesma que enche a frente de um palco. Apostar só nela cobra seu preço na bilheteria. — Uma agência estava trabalhando a carreira de uma tiktoker que virou artista de música — contou o curador Lucio Ribeiro, da Popload. — A jovem tem milhões de seguidores no TikTok, mas não leva 20 pessoas ao festival. Como uma menina com um canhão de comunicação não consegue encher um show? A efetividade da comunicação vem do entendimento do que é a sua comunidade. Para Alexandra Pain, CMO do C6 Bank, patrocinador do C6 Fest, em São Paulo, o programador que “não transita por lugares variados sempre fica igual e não descobre o diferente”. A saída, defende, é a pesquisa de campo em festivais mundo afora, não o ranking gerado por Spotify ou YouTube. A resposta mais radical a esse “excesso de palcos” abre mão justamente daquilo que a pesquisa do Mapa dos Festivais aponta como decisivo para a venda de ingresso: a lista de atrações. Para o No Line-Up Festival, o público compra a entrada sem saber quem vai tocar. — Este é o primeiro festival que ninguém sabe quem vai se apresentar — disse Guilherme Bailão, diretor de experiência de marcas e patrocínio da cervejaria Heineken. — A gente vê uma grande padronização dos festivais, e o No Line-Up nasce dessa reflexão. Todo brasileiro hoje, além de técnico de futebol, virou também curador artístico. Não tem mais line-up para ser discutido: as pessoas descobrem, na hora, o que vai tocar. E vai ter bandas que o público não gosta, nunca ouviu falar. A beleza está aí. O elo entre as duas conversas é a descoberta, ou a falta dela. Para Melina Leal Hickson, diretora da Fina Produção e criadora do Porto Musical, que mediou a mesa sobre tendências, os festivais independentes nasceram como espaços de revelação, mas parte deles parou de apostar em nomes novos depois da pandemia. — É urgente que os festivais e as curadorias voltem a olhar para os novos artistas. Esse é o DNA dos festivais independentes — afirmou. Juli Baldi prefere falar em “personalidade” a “regionalismo”. Segundo a pesquisa, 30% do público viaja para festivais de música e costuma repetir a viagem de duas a seis vezes por ano. Um sinal de que o evento deixou de ser uma grade de shows para virar motivo de deslocamento, turismo e descoberta cultural. A curadoria, no fim, decide quem sobrevive. Gabriela Parente contou como precisou recalcular a rota do Zepelim ao perceber que envelhecia junto com o público. — Cheguei à conclusão de que meu público principal tinha de 25 a 35 anos, e o festival vai fazer cinco anos — disse a diretora criativa. — Pensei: “o mais novo já está com 30, o outro com 35 e já tem filho. Me lasquei, vai acabar o festival!” Tive que reestruturar o line-up para baixar a faixa etária, e consegui: para 18 anos.

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