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"Copan": documentário de Carine Wallauer revela o prédio de Niemeyer por dentro | Collector

"Copan": documentário de Carine Wallauer revela o prédio de Niemeyer por dentro

Uma ligação de um número desconhecido foi o ponto de virada. Carine Wallauer tinha voltado da Berlinale doente, na primeira semana de 2020, e se trancou em casa por precaução. Depois de dois ou três dias sem sair do apartamento, o telefone tocou. Era seu Affonso, síndico do Copan, querendo saber como ela estava: Zé Roberto, o porteiro do bloco, a vira chegar mal e ficara preocupado. "Ali ficou claro pra mim que se num prédio de 5 mil pessoas um porteiro e o síndico encontravam espaço no meio das inúmeras demandas pra se preocupar com uma única moradora doente, esse prédio de fato era muito especial", conta a diretora à Vogue. A cena nunca entrou no filme, mas ajudou o olhar dele. O resultado é "Copan", documentário em cartaz em salas de cinemas selecionadas pelo Brasil, vencedor do É Tudo Verdade 2025 como Melhor Filme Brasileiro e único representante latino-americano na competição oficial do CPH:DOX, na Dinamarca. Wallauer escreveu, dirigiu e fotografou o longa, uma coprodução Brasil/França distribuída pela Vitrine Filmes. Selecionar uma imagem Carine Wallauer Divulgação O fio que costura o filme é uma eleição. Não a do país, embora ela também esteja ali. Enquanto o Brasil decide o segundo turno de 2022 entre Lula e Bolsonaro, o Copan vive sua própria disputa interna pela administração do condomínio, com um síndico no cargo há mais de três décadas tentando se manter no poder. As duas votações correm em paralelo, e a estrutura não é acaso. "Para administrar um edifício do tamanho de uma cidade, é preciso uma estrutura política complexa", diz Wallauer. Os cinco mil moradores e mais de cem funcionários, segundo ela, revelam "contrastes e desigualdades estruturais do Brasil". O prédio de Oscar Niemeyer, inaugurado em 1966 e às voltas com seus 60 anos em 2026, vira assim uma versão reduzida do país, das assembleias aos corredores. A escolha de quem aparece em cena diz muito sobre de onde a diretora olha. Para a maioria dos moradores e visitantes, lembra ela, o Copan é passagem; para os trabalhadores, é vínculo de longo prazo. Wallauer cresceu na periferia de Novo Hamburgo, filha de mãe babá e empregada doméstica e de pai açougueiro, vendedor e, no fim da vida, motorista de aplicativo. Ela mesma trabalhou sete anos num shopping. "Esse filme é um exercício de navegar pela subjetividade, sensibilidade e posicionamento crítico de quem muitas vezes não é visto ou ouvido", afirma. O recorte recai sobre quem sustenta o edifício, e essa decisão tem raiz biográfica. Corredores do Copan Divulgação Há ainda uma terceira camada, a autoral. Antes de assinar a direção, Wallauer construiu uma trajetória como fotógrafa e diretora de fotografia, com trabalho em coleções como a de Joaquim Paiva e nos acervos do MAM Rio e do IMS. Esse olhar atravessa cada plano, e rendeu a ela o prêmio de Melhor Fotografia de Longa Documentário 2026 da Associação Brasileira de Cinematografia. Dirigir algo em que estava tão dentro, conta, não foi escolha deliberada. "Desde muito jovem eu me expresso através dessa linguagem", diz. "Com esse filme, eu pude compartilhar com as pessoas como é o Copan pelo meu ponto de vista, como eu sinto, absorvo e vivo esse lugar dentro de mim." A trilha sonora vem de dentro do próprio prédio. Assinada por KL Jay, fundador dos Racionais MC's e morador do Copan, ao lado dos filhos DJ Will e DJ Kalfani, ela nasceu de um desejo antigo da diretora. Wallauer já cruzava com ele pelo edifício, mas foi preciso a mediação de funcionários para o primeiro contato, seguido de mais de um ano de conversas. "A confiança dele em mim e no meu projeto foi muito importante", fala, "e a atmosfera que a música dele traz contribui imensamente para as sensações que eu quis trazer para o filme." Lançar o trabalho agora, em 2026, com o país ainda dividido, dá ao registro um peso que ele não tinha quando foi filmado. Há o detalhe de que seu Affonso, o síndico daquela ligação e figura central da disputa, morreu em dezembro de 2025, aos 86 anos, o que transforma boa parte do material em testemunho de uma era encerrada. Wallauer prefere não fechar sentidos. "O filme abre possibilidades para reflexões acerca de como nossas escolhas individuais repercutem no todo", diz. E encerra com a imagem que vale para o prédio e para quem o assiste: "O Copan é um prédio em constante transformação. Assim também somos nós." Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

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