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Jornalista transforma dor de luto gestacional em livro infantil: “Talvez ela tenha me salvado” | Collector
Jornalista transforma dor de luto gestacional em livro infantil: “Talvez ela tenha me salvado”

Jornalista transforma dor de luto gestacional em livro infantil: “Talvez ela tenha me salvado”

"Me tornei mãe em 2018 de um menino chamado Jonas. Durante a pandemia, meu marido, Rafael, e eu passamos muito tempo dentro de um apartamento pequeno com ele e começamos a pensar em aumentar a família. Queríamos que ele tivesse um irmão, mais parceria, e mais infância dentro de casa. Numa noite, sonhei que estava grávida. Acordei de madrugada e fiz o teste: deu positivo. Para ser bem honesta, chorei. Tive muito medo. A gente tinha uma criança pequena e um mundo que já não era mais o mesmo. No primeiro exame não conseguimos ouvir o coração do bebê. Me disseram para voltar em uma semana. Ali eu já tive um sentimento ruim. Mas quando retornei, os batimentos estavam normais, estava tudo bem. O tempo passou e descobrimos que era uma menina. Escolhemos o nome Lila, uma homenagem às minhas avós, Lilia e Lili, e porque eu adoro a personagem Lila, da tetralogia da Elena Ferrante. Contamos ao Jonas que ele seria irmão mais velho. Ele ainda era muito pequeno, mas já repetia o nome dela. Quando eu perguntava quem estava na barriga da mamãe, ele respondia: “Lila”. Com 15 semanas de gestação, numa noite comum em casa, percebi um sangramento. Minha médica mandou que eu fosse imediatamente ao hospital. Rafael ficou com o Jonas no carro e eu entrei sozinha. Lembro de caminhar pensando que aquele poderia ser o pior dia da minha vida. Saiba mais No ultrassom, o médico procurava os batimentos em silêncio. Parecia que ele não tinha coragem de me falar, só continuava procurando. Pedi que me falasse. Foi quando ouvi que não estavam conseguindo encontrar o coração da minha filha. “Perdemos a Lila”, escrevi ao meu marido. Nessa hora, o chão desmorona e você não consegue entender. A vinda dessa filha já era um projeto de vida, um futuro, sonhos. A história dela vai junto com sua confiança e sua alegria. Tudo ruiu. Como já havíamos passado dos três primeiros meses, não foi possível fazer curetagem, teríamos que fazer um parto. Quando recebi essa notícia, urrei de medo. “Não, não, meu Deus, não acredito que eu vou passar por isso”. Fui muito acolhida pela equipe médica e pelo meu marido, que permaneceu ao meu lado o tempo inteiro. Aliás, ninguém perguntou como ele estava. Era como se eu estivesse passando por algo totalmente físico, e não emocional. Sendo assim, a dor dele não foi vista ou validada. Depois de algumas horas, pari a Lila. Ela cabia na palma da minha mão. Pedi que tirassem uma foto. Eu queria guardar uma lembrança da minha filha. Anos depois, ao assistir ao documentário Incompatível com a Vida, da Eliza Capai, no qual ela mostra o filho após perda gestacional, me entendi ainda mais. Você tenta guardar a materialidade daquilo que passou muito rápido. No fim, foi muito bom ter passado por esse parto e de alguma forma ter encontrado com a Lila. Quando contamos ao Jonas que a irmã tinha morrido, que ela não vinha mais, ele falou: "Cabou Lila". Foi sua única frase. Os meses seguintes foram muito difíceis. Tirei uma licença do trabalho e percebi que não conseguiria simplesmente retomar a vida de onde ela havia parado. Na época, eu presidia o Think Olga e fazia parte da sociedade do Think Eva. Acabei deixando essas funções. A perda da Lila me fez revisar prioridades, questionar a maneira como eu vivia e repensar a relação que tinha com o trabalho. Também saímos de São Paulo e fomos para o litoral. Eu não conseguia mais olhar para a minha casa com as lembranças, as coisas do quarto dela. Saindo das organizações que fundei e entendia como filhas, tive mais tempo para estar com o meu filho de verdade. Fui reorganizando a minha vida a partir não de uma persona criada, mas da quebra desse ego, partindo de um lugar muito mais autêntico, diria até mais cuidadoso comigo mesma. Mas o luto continuava sendo muito solitário. Eu não tinha referências próximas de quem tivesse passado por uma perda gestacional. Existe um silêncio enorme em torno desse tema. Muitas mulheres são orientadas a não contar sobre a gravidez antes dos três meses e, quando uma perda acontece, acabam atravessando a dor praticamente sozinhas. Eu me sentia assim. Além da tristeza, havia culpa, vergonha e uma sensação constante de isolamento. Pesquisando na internet, encontrei o Instituto do Luto Parental. Escrevi sem expectativa e recebi uma resposta acolhedora quase imediatamente. Pela primeira vez conversei com pessoas que entendiam exatamente o que eu estava vivendo. Aquilo foi como um bote salva-vidas. Não eliminou a dor, mas me mostrou que eu não estava sozinha e que existiam caminhos para aprender a lidar com ela, sem vergonha, culpa ou comparação. Sou jornalista e escritora, e a escrita sempre foi uma forma de processar meus sentimentos. Tive a experiência de escrever alguns livros infantis e eu queria muito falar sobre isso por essa linguagem, que é acessível, criativa e curiosa. Achei que escrever um livro infantil seria uma forma gentil de falar sobre o luto. “Ela passou rapidinho para deixar um beijinho” (Ed. Quelônio) Divulgação “Ela passou rapidinho para deixar um beijinho” (Ed. Quelônio) nasceu de uma conversa que eu tive com o meu filho ao explicar o que estava acontecendo. Transpus para o livro uma criança de 5 anos fazendo perguntas e a mãe e o pai tentando responder. As pessoas acreditam em coisas muito diferentes ("virou uma estrelinha", "foi para o céu", "a vida acabou") e eu queria que o livro falasse com todas elas. Mais do que explicar o que acontece depois da morte, queria falar sobre o que permanece. Depois do fim tem a continuidade, porque nós estamos vivos. Metade do livro é da Bruna Ximenes, que fez as ilustrações de forma tão delicada e acessível para não revitimizar ou machucar alguém. O livro é um abraço. Em 2021 nasceu o Léo. Durante nove meses convivi com o medo de perder outro bebê e, ao mesmo tempo, com a culpa de sentir que estava substituindo a Lila. Só depois do nascimento dele fui entendendo que cada filho ocupa um lugar único. Ninguém substitui ninguém. Jules com os filhos Jonas e Léo Divulgação O Léo nasceu de um parto normal lindíssimo. Sua chegada organizou muitas coisas dentro de mim. Aos poucos compreendi que existe espaço para os três: Jonas, Lila e Léo. Revistas Newsletter Até hoje agradeço muito a Lila. Ela mudou a minha vida. Saí de São Paulo sendo uma pessoa workaholic para morar na praia, fundei com minha sócia a agência Aquilo Que Importa, onde 90% dos nossos clientes são mulheres, pessoas visionárias e sonhadoras. Comecei a surfar, lutar taekwondo junto com o Jonas e fazer aula de skate com Léo. Virei uma pessoa do mar, do sol, dos bichos e da natureza. Às vezes eu penso que talvez ela tenha me salvado. Sinto muita gratidão por tudo que ela me trouxe, por mais que ela tenha passado muito rapidinho. Ela deixou um superbeijinho mesmo. A mensagem principal que gostaria que as pessoas entendessem é que depois do fim tem sempre uma continuidade. Não estou falando sobre continuar existindo no meio do sofrimento, mas achar formas de fazer com que esse momento valha a pena. A Lila está viva nas nossas memórias e nas pessoas que ainda carregam ela. Vamos continuar vivendo a nossa vida e honrando sua memória. A vida sempre persevera."

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