Jornal O Globo
Durante décadas, a masturbação em aves foi tratada por parte da literatura veterinária como um comportamento associado ao estresse, ao isolamento ou às condições artificiais do cativeiro. Em alguns casos, a recomendação incluía intervenções que iam de mudanças na alimentação a tratamentos hormonais e até procedimentos cirúrgicos. Um novo estudo, porém, sugere que essa interpretação pode estar equivocada. No ar em 'Quem ama cuida', Duda Almeida fala sobre planos para casamento: 'Vai ser um festão' Fotógrafa carioca questiona ‘cromofobia’ e neutralidade em ensaio-manifesto clicado nas areias do Arpoador Publicada na revista científica "Ecology and Evolution", a pesquisa analisou registros de 120 espécies de aves distribuídas em 22 grandes grupos e concluiu que a masturbação é um comportamento natural, amplamente disseminado e parte do repertório sexual normal desses animais. O levantamento reuniu dados da literatura científica, além de informações fornecidas por criadores, tutores e comunidades especializadas em aves. O trabalho foi liderado por Chloe Heys, pesquisadora da Universidade de Lancashire, no Reino Unido, e contou com a participação de cientistas das universidades de Swansea, Oxford e Liverpool. Segundo os autores, a investigação é a primeira a examinar de forma abrangente a ocorrência desse comportamento entre diferentes espécies de aves. Os resultados indicam que a masturbação não está restrita a animais mantidos em cativeiro. Pelo contrário: os registros mostraram que ela é mais frequente entre aves selvagens e também entre indivíduos criados pelos próprios pais, e não por seres humanos. A descoberta contraria uma das hipóteses mais difundidas entre especialistas, que associava o comportamento principalmente às condições artificiais de criação. Os pesquisadores também observaram diferenças entre machos e fêmeas. Entre os registros analisados, 55% dos machos apresentaram comportamento masturbatório, contra 36% das fêmeas. Ainda assim, o estudo conclui que a prática ocorre em ambos os sexos. A idade também parece ter pouca influência: o comportamento foi identificado em praticamente todos os grupos etários avaliados, incluindo aves jovens e adultas. — Apesar da suposição de que a masturbação em aves mantidas em cativeiro, como papagaios, seja resultado de uma vida mais solitária, nosso estudo mostra que ela é natural, saudável e amplamente distribuída entre diferentes espécies e ambientes — afirmou Chloe Heys. A pesquisadora argumenta que a nova evidência pode levar a mudanças na forma como veterinários e tutores interpretam o comportamento. — Ao ampliar nossa compreensão biológica desse traço, mostramos que intervenções destinadas a impedir a masturbação podem, em alguns casos, causar mais prejuízos do que benefícios aos animais. Esperamos que isso contribua para uma revisão das orientações dadas aos proprietários de aves e para melhorias no bem-estar animal — disse. Além de questionar práticas já estabelecidas, o estudo sugere que a masturbação pode ter importância evolutiva. Para os autores, compreender melhor os comportamentos sexuais das aves pode auxiliar programas de reprodução, conservação de espécies e manejo em cativeiro. Ana Basto, professora de Medicina de Animais Silvestres e Exóticos da Universidade de Lancashire, afirmou que o tema historicamente recebeu pouca atenção da comunidade científica, apesar de ser uma questão frequentemente levada aos consultórios veterinários. — Esta pesquisa representa um passo importante para entendermos de forma mais completa por que as aves se comportam da maneira que observamos. Esperamos que os resultados permitam orientações mais precisas por parte dos veterinários, sempre com foco na proteção do bem-estar animal — declarou. A bióloga evolutiva Matilda Brindle, da Universidade de Oxford e uma das autoras do estudo, afirmou que os resultados também se somam a um conjunto crescente de pesquisas que identificam comportamentos sexuais não reprodutivos em diversas espécies animais. Segundo ela, o fato de a masturbação ter sido registrada com maior frequência em aves selvagens do que em indivíduos mantidos em cativeiro reforça a ideia de que a prática não deve ser encarada como uma anormalidade comportamental. — A masturbação não é uma consequência patológica da vida em cativeiro. Ela faz parte de uma gama saudável de comportamentos sexuais observados nas aves — afirmou.
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