Jornal O Globo
De sucesso de público ao possível reconhecimento como patrimônio cultural brasileiro. O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) vai se reunir nesta terça-feira, em Brasília, e deve tombar o Palacete Linneo de Paula Machado e seus jardins, atual sede da Casa Firjan, localizada na esquina das ruas São Clemente e Guilhermina Guinle, em Botafogo, na Zona Sul do Rio. O imponente casarão, com projeto de 1906, tem mais de 1.100 metros quadrados e 30 cômodos. E os jardins ocupam 7.577 dos 8.202 metros quadrados do terreno do imóvel. Praça Onze Maravilha: temendo aumento de gabarito, moradores do Bairro Peixoto fazem abaixo-assinado para barrar emenda incluída em projeto de lei Propag: governador do Rio diz que vai aderir a novo programa de renegociação de dívidas com a União até o fim do mês — O palacete é extremamente importante em termos urbanísticos, porque tem uma qualidade arquitetônica e paisagística extremamente elevada. É, sobretudo, um exemplar riquíssimo de uma arquitetura eclética do início do século XX, que retrata com muita clareza o que era a paisagem urbana do bairro de Botafogo e da cidade do Rio de Janeiro. Então, para nós, é uma expressão muito importante em termos de arquitetura de época do início do século XX — diz a superintendente regional do Iphan-RJ, Patrícia Corrêa O presidente da Firjan, Luiz Césio Cateano, lembra que o palacete de fachada rosa foi um ponto importante de encontro para os industriários do século passado; — Ele segue conectando, gerando diálogos, emitindo alertas e promovendo a indústria. Foi erguido por Eduardo Pallasim Guinle, patriarca da influente família Guinle no Brasil e fundador da Companhia Docas de Santos. Está, portanto, na veia dessa casa a sua relação com a indústria. A escada em caracol da Casa Firjan, em Botafogo Divulgação/Bernardo Cartolano/Firjan O mar está para baleia: jubartes dão show, com saltos e esguichos no litoral do Rio; veja vídeo Mobiliário: próxima etapa Já a superintendente regional do Iphan destaca alguns detalhes estéticos, que vão além da conhecida escada em caracol do hall central: — A riqueza dos detalhes de azulejos daquela casa é algo impressionante. A família Guinle teve uma importância muito grande na conservação desses azulejos, que datam do final do século XIX e que compõem a maior parte dos ambientes da casa. Os pisos também são todos originais. Então, a casa é um exemplar extremamente importante. E tudo foi muito bem restaurado, bem executado pela Firjan. Por isso, é tão importante que a gente faça o tombamento arquitetônico inicialmente. Segundo Patrícia Corrêa, o tombamento do mobiliário do palacete será proposto numa segunda etapa. O anexo contemporâneo do palacete, construído quando o lugar foi rebatizado como Casa Firjan, em 2018, não será tombado. A entrada do palacete da Casa Firjan Divulgação/Bernardo Cartolano/Firjan Caso o Conselho Consultivo do Iphan aprove transformar em patrimônio nacional definitivamente o palacete, ele passará a ser protegido por três instâncias de poder. Ele já é tombado pelo estado (2006) e pela prefeitura (1987). — A Casa Firjan cumpriu seu papel de ser residência de uma das famílias mais importantes para o desenvolvimento do Rio e do Brasil. O espaço testemunhou a construção e criação de vários projetos que foram importantes para o país. Conservamos, preservamos, restauramos e adaptamos com total respeito à importância desse prédio de carga histórica tão forte. Seguimos todas as orientações e referências de diversos órgãos de patrimônio, conseguindo transformar o palacete em um espaço funcional, que entrega à comunidade serviços e reflexões sobre inovação, futuro, nova economia — afirma a gerente-geral da Casa Firjan, Cristiane Alves. História do imóvel O livro “Casa Firjan - Viva o Futuro Hoje”, de Clóvis Bulcão de Moraes e Carlos Fernando Andrade, conta que o Palacete Linneo de Paula Machado foi um presente de casamento a Celina Guinle e Linneo de Paula Machado. O imóvel ficava em frente à casa dos pais de Celina, Eduardo Guinle e Guilhermina Guinle. A construção dos pais de Celina não chegou aos nossos dias — foi demolida quando da abertura da Rua Guilhermina Guinle. O projeto original do palacete, de 1906, que deu à mansão seu primeiro desenho, foi desenvolvido pelo arquiteto John Oberg. Ao receber a mansão como presente de núpcias, em 1910, Celina decidiu ampliar sua futura residência. Coube ao arquiteto Armando Carlos da Silva Telles detalhar serviços descritos como pintura, forração e decoração interna, demolição e reconstrução da fachada lateral, entre outros. Detalhes do corrimão do palacete da Casa Firjan, em Botafogo Divulgação/Bernardo Cartolano/Firjan “Embora se conheça, por planta, a construção, não foram encontrados registros da estrutura inicial da casa projetada por Oberg, e é com Silva Telles que o espaço toma a forma praticamente idêntica à que hoje se admira no local”, explicam Moraes e Andrade no livro. Ao longo do tempo, acrescentam os autores, pequenas alterações são feitas no imóvel. No ano da morte de Guilhermina Guinle (1925), Celina encomenda um acréscimo no térreo. A nova reforma incluiu alterações no espaço interno, chanceladas pelo arquiteto francês Joseph Gire. Além da disposição dos cômodos, inspirada em suas experiências parisienses, Gire também desenhou a decoração interior e a mobília fixa. É dessa época o chamado banheiro azul, construído seguindo o estilo do século anterior. Detalhes dos azulejos da Casa Firjan, em Botafogo Divulgação/ Bernardo Cartolano/Firjan Da acusação ao perdão: As frases que marcaram o julgamento do caso Henry Transformação em espaço multifuncional Com a restauração e a adaptação para transformar o palacete na Casa Firjan — um espaço multifuncional — foram instalados elevador, novos banheiros, equipamentos de segurança contra incêndio e pânico, além de sistemas de ar-condicionado, automação e informática. Os antigos cômodos foram adaptados para novos usos, preservando os revestimentos de piso e paredes originais. Armários de louça passaram a abrigar livros, e a copa foi transformada em restaurante. Entre os 30 cômodos do casarão, no térreo, por exemplo, foi montada a Sala Lucy e Luiz Carlos Barreto, que recebe eventos e projetos de cinema, e tem exibições de filmes. Nas salas Celina e Guilherme, também no térreo, acontecem exposições recorrentes. Na Sala Firjan, no segundo andar, há uma exposição permanente sobre a história da casa. E, no mesmo pavimento, na Sala Sérgio Rodrigues, dedicada ao designer, é possível encontrar móveis que são mais do que utilitários. O Rio tem cerca de 250 bens considerados patrimônio nacional. O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural realiza sua 113ª reunião nesta terça, a partir de 14h. A reunião prossegue na quarta-feira. O primeiro item da pauta é o tombamento do Palacete Linneo de Paula Machado. O conselheiros do Iphan vão deliberar ainda sobre outros bens culturais brasileiros, entre eles, o Teatro ou Casa da Ópera, em Ouro Preto (MG); o registro do Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado; o registro dos Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte (CE); e a revalidação do registro do Fandango Caiçara (São Paulo e Paraná).
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