Vogue Brasil
Júlia Del Bianco dança ballet clássico desde os 3 anos. Durante décadas, ouviu que seu corpo não pertencia aos palcos que mais amava. Hoje, aos 38, ela transformou essa experiência em arte, pesquisa acadêmica e ativismo contra a gordofobia. Por acaso, um vídeo de Júlia dançando apareceu no meu Instagram. E fiquei hipnotizada pela beleza da sua dança. Diferentemente de bailarinas que me impressionam pela técnica, Júlia me impactou porque, ao dançar, desmonta preconceitos e estigmas associados ao corpo feminino. Imediatamente, enviei uma mensagem para ela. Conversamos durante mais de duas horas sobre o que significa ter um corpo fora do padrão no mundo da dança. Júlia fez faculdade de dança, é professora de ballet, modelo e está concluindo sua dissertação de mestrado na Unicamp. Ela tem 1.65 m e veste número 50 ou 52. “Não sei meu peso, não subo na balança para preservar minha saúde mental. Não quero ficar paranoica .” Ela sofreu muito com os preconceitos e estigmas de ter um corpo diferente em um mundo que exige uma magreza extrema. No ballet clássico, isso é celebrado. A diversidade dos corpos, nem sempre. “Dançar faz parte da minha vida. Nunca tive o corpo padrão do ballet clássico, o que me provocou muitos questionamentos e angústias. Passei muito tempo achando que meu corpo era errado, que minha arte era menor. A primeira vez que me senti gorda foi aos 6 anos, quando, na minha primeira apresentação, as meninas ficaram comparando quem tinha barriga. Eu tinha. Aí percebi que era gorda.” Como seu sonho era ser bailarina, a mãe disse: “Se você quer dançar, precisa emagrecer”. E aí começaram anos e anos de grupos de emagrecimento, médicos, nutricionistas e dietas muito restritivas. “Eu digo que sou uma pessoa gorda, não tenho problema com isso. Gorda não significa sedentária, feia ou doente. Tenho uma dieta saudável, danço quase todos os dias, faço yoga e exercícios físicos diariamente.” Para Júlia, o pior foram os preconceitos velados, a exclusão de determinados ambientes e os olhares críticos das outras bailarinas. “É aquela menina extremamente magra que critica o próprio corpo: ‘Nossa, estou gorda, enorme, preciso emagrecer’. Ou a mãe de uma aluna que me elogia: ‘Você é mais fofinha, achava que não ia dar conta. Mas você dá uma ótima aula. Minha filha ama suas aulas’. E ainda uma diretora de escola que me falou: ‘A gente ficou na dúvida de te contratar, mas resolvemos dar uma chance. E gostamos muito'.” Júlia Del Bianco Foto: Divulgação Até os 29 anos, Júlia sofreu muito com esses preconceitos. Ela queria dançar, mas tinha vergonha, não encontrava roupas adequadas, não se arriscava. “Eu nunca estava pronta. Acabei me tornando uma pessoa muito tímida, de não falar, não me arriscar, não me expor. Eu fui me diminuindo de várias maneiras ao longo da infância e juventude.” Por não conseguir diminuir o corpo, diminuiu a si mesma. Por não conseguir diminuir seu peso, Júlia acabou diminuindo sua voz, seu lugar, sua dança. Mas quando seu único irmão morreu após uma parada cardíaca, aos 32 anos, ela decidiu viver. “Foi uma virada na minha vida. Parei de pensar que só iria ser feliz quando emagrecesse. Vou viver, vou ser feliz, vou usar a roupa que quiser, vou tirar fotos. A morte do meu irmão me fez refletir. Como ele queria que eu vivesse? Ele ia gostar de me ver me diminuindo? Foi o que realmente me fez mudar de atitude. Deixei de me colocar como coadjuvante e passei a ser protagonista. Aí comecei a mostrar minha arte, que é possível dançar com qualquer corpo.” No dia 22 de maio, Júlia apresentou no Sesc de Piracicaba o primeiro resultado da sua dissertação de mestrado: o espetáculo “Não cabe”. O título não poderia ser mais simbólico. Durante anos, disseram a Júlia que ela não cabia no figurino, no palco, na profissão, no sonho. Hoje, ela prova que o problema nunca foi o seu corpo, mas uma cultura gordofóbica que exclui corpos diferentes. Seu sonho agora é rodar o Brasil inteiro para mostrar que, ao contrário do que muitos pensam, seu corpo não é sinal de desleixo, de preguiça ou de falta de controle. “Gosto da proporção do meu corpo, do meu rosto. Tenho um corpo que dança, que se movimenta. Estou aqui viva. E isso é bonito. O corpo pesado pode ter leveza, beleza, fluidez. Quero tirar o estigma de ser gordo, especialmente no ballet. Meu corpo simboliza a liberdade. Quero mostrar que todos os corpos podem ser poéticos.” Ao ver Júlia dançar, é impossível não se encantar. A beleza da sua dança não está centrada em um padrão que aprisiona, mas em um corpo que é livre para voar.
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