Jornal O Globo
Aos 28 anos, Mariana Spinelli se prepara para cobrir sua primeira Copa do Mundo masculina. Ela acaba de desembarcar nos EUA, onde fará parte da equipe da Ge TV: Entrevista: Marcella Rica fala dos projetos como diretora e da possibilidade de voltar atuar Leia também: João Guilherme protagoniza filme 'O Rei da Internet' e reflete sobre exposição, fama e saúde mental: 'Aprendi a me resguardar' — Faltando poucos dias, é difícil não separar o pessoal do profissional. Você vira a chavinha no modo Copa, lendo e estudando diariamente. São tantas responsabilidades, mas, ao mesmo tempo, a parte legal é desfrutar dessa conquista também pessoalmente. É a minha primeira vez. Estou tentando deixar as duas Marianas coexistirem. É a ansiedade da torcedora apaixonada por futebol e também a profissional sabendo da responsabilidade e do estudo, porque sou bem nerd nesse sentido. Ela, que integra um grupo de mulheres que participarão da cobertura pelo Grupo Globo, fala da responsabilidade de ocupar seu espaço em um lugar ainda dominado por homens: — Enquanto mulher, acabamos sempre nos cobrando mais, porque não respondemos só por nós mesmas. O homem tem o privilégio de, caso fale uma besteira, responder só por ele. Se eu falo uma besteira, “as mulheres erraram” e “falaram besteira sobre futebol”. Temos esse senso de responsabilidade coletiva pelas que estão e pelas que estão vindo. Ao mesmo tempo, eu já vivi tanta coisa, mesmo ainda no início da carreira, que eu tenho uma certa serenidade. O que está ao meu alcance eu estou fazendo. Estudo, me preparo, gosto do meu trabalho, sei que vou curtir. Então é deitar a cabeça no travesseiro e saber que o que precisa ser feito está sendo feito. O resto é a graça do futebol, que é deixar o inesperado acontecer. Nos preparamos, mas o jogo é vivo e temos que estar ali sabendo jogar esse jogo. A jornalista é conhecida no meio do jornalismo esportivo pela irreverência, pelos memes e por referências à cultura pop. Recentemente, ela deu o que falar ao entrar no ar usando uma camiseta estampada com uma imagem da cantora Taylor Swift misturada com a figura de Jesus. O episódio rendeu críticas e uma moção de repúdio contra Mariana na Câmara Municipal de Uberlândia, em Minas Gerais, que não foi à frente. Ela conta como lidou com o momento: — Eu sabia que era uma coisa que o tempo iria tratar, e que eram só visões de mundo diferentes. Isso é uma coisa nova para os jornalistas em geral. Eu cresci já com a internet, com a linguagem das redes sociais, as referências, os memes, o lado bom e o ruim. Então lidar com a internet, para mim, é surpreendentemente tranquilo. Eu me divirto. Tem hora que você se estressa com uma coisa ou outra, mas entender a montanha-russa que é a internet não me assusta. É claro que com a Globo tudo tem uma repercussão maior e a gente tem que ter mais cuidado, porque eu não respondo só pela Mariana pessoa física, eu tenho um CNPJ e uma marca a zelar. Mas, por ser uma rata de internet, para mim é tranquilo. A minha mãe sempre fala que eu não sou uma palhaça bem informada, e sim uma jornalista bem-humorada. E tem uma diferença muito grande. A mineira iniciou a carreira no jornalismo na ESPN, onde, com apenas 23 anos, começou a apresentar programas da emissora. Em agosto do ano passado, ela aceitou uma proposta para trabalhar no Grupo Globo: — Fiquei muito nervosa para tomar essa decisão. Eu saí da casa dos meus pais em Belo Horizonte para ir trabalhar na ESPN em São Paulo, e eu não conhecia ninguém, não tinha parente nem amigo. A ESPN era como se fosse minha casa, ia além do trabalho. Todas as minhas amizades e relações eu construí ali. Foi como cortar um cordão umbilical, como se eu estivesse saindo da casa dos meus pais pela segunda vez. Mas sentimos quando as coisas têm que acontecer. Eu senti que minha história tinha sido bem amarrada e aproveitei tudo o que eu podia na ESPN, e acho que eles também aproveitaram tudo o que podiam de mim. E senti que era a hora da mudança. Acho que todo mundo tem uma curiosidade de entender como é trabalhar na Globo. Todo jornalista precisa ter um “check” de trabalhar na Globo, assim como é para um jogador jogar no Barcelona e no Real Madrid. Mariana é filha de Adriana Spinelli e Paulo César Jardim, jornalistas muito reconhecidos em Minas Gerais. Ela comenta sobre ser tachada de nepo baby por isso: — Eu mesma já usei esse termo, porque é uma realidade. Meus pais e meu irmão mais novo são jornalistas. Nós somos quatro em casa. Eu lido com isso com muita tranquilidade e falo com leveza. Tenho muito orgulho dos meus pais e de como eles me apresentaram a profissão, sem forçar nada. Eles falam do jornalismo com muita paixão no olhar, e quando eu tenho que falar deles eu falo com o mesmo carinho. E entendendo, sim, que eu tive meus privilégios. Quem tem um professor de VT, de CG e de reportagem em casa? Eu tinha dois. Reconheço isso. Eu entendi o privilégio e potencializei ele, e não sentei nele. Nas redes sociais, a jornalista costuma fazer declarações públicas de amor para a namorada, Thamara, com quem está há quatro anos. Ela fala sobre a repercussão das postagens: — Isso acaba sendo muito de rede social. Surpreendentemente, eu consegui construir uma bolha muito saudável. Mas houve um momento, quando eu comecei a namorar com a Thamara, em que eu fazia uma postagem com ela e recebia três, quatro mil unfollows. Mas eu não via isso como uma coisa negativa. Eu pensava: “Que bom que essas pessoas estão saindo. Se elas não compactuam com o que eu sou, não têm que me seguir mesmo”. É uma seleção natural. Consegui fazer uma limpeza muito boa nas minhas redes. A homofobia comigo é muito pouca perto do que poderia ser. Acho que a mulher no esporte ainda tem minimamente mais aceitação do que um homem gay, porque isso bate na masculinidade do homem. Mas, uma vez ou outra, alguém comenta “macho” ou “sapatona”. E eu falo: “Sim, gente, eu sou sapatona mesmo”. Eu não vejo o ato de me chamar pela minha sexualidade como uma agressão. Eu sou quem eu sou. Se a pessoa vê dessa forma, é muito mais problema dela do que meu. Não me atinge. Eu sou muito segura de quem eu sou. Há pouco mais de um ano, Mariana e Thamara ficaram noivas. Ela fala dos planos do casal para o casamento e para construir uma família: — Nós queremos curtir com os nossos amigos. Temos muitos, então não vai ser uma coisa minimalista. Mas a gente também não tem essa coisa da extravagância. Acho que é mais estar perto de quem a gente gosta, de quem celebrou e viveu esse processo até agora. E eu sempre tive muita vontade de ser mãe. Imaginava que isso ia acontecer de alguma maneira. Mas quando conheci a Thamara as coisas aconteceram de uma forma muito natural e rápida. Gosto muito de criança, então essa coisa de constituir família sempre esteve muito presente. A jornalista Mariana Spinelli com a noiva, Thamara Reprodução/Instagram A repórter e apresentadora Mariana Spinelli viaja para cobrir a Copa do Mundo pela getv Reprodução/Instagram Galerias Relacionadas Initial plugin text
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