Jornal O Globo
Poucos setores têm impacto tão imediato sobre a rotina dos brasileiros quanto a distribuição de combustíveis. Quando o abastecimento é interrompido, os efeitos rapidamente se espalham pela economia, afetando desde o transporte de cargas, até hospitais, aeroportos e o fornecimento de alimentos. Foi exatamente isso que o país vivenciou em maio de 2018, durante a greve dos caminhoneiros. O movimento teve início na Rodovia Presidente Dutra (BR-116), o principal eixo logístico e rodoviário nacional, e rapidamente se espalhou para 25 unidades da federação. A ação provocou desabastecimento generalizado. Com postos sem combustível e voos cancelados por falta de querosene de aviação, a mobilidade urbana foi comprometida, assim como o transporte de cargas e a distribuição de alimentos e medicamentos. As atividades foram retomadas, mas demorou para a economia se recuperar: de acordo com o Ministério da Fazenda, a paralisação retirou 1,2 ponto porcentual do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) daquele ano. A paralisação também chamou atenção para dimensão de uma atividade que costuma passar despercebida pela maior parte da população. O setor de distribuição de combustíveis movimenta o equivalente a 7,3% do PIB do comércio brasileiro, além de gerar 447 mil empregos diretos e indiretos, com uma massa salarial de R$ 18,6 bilhões que chega a todos os 5.569 municípios. A cada hora, são abastecidos 200 mil veículos em todo o território nacional, numa operação que garante o consumo de 137 bilhões de litros por ano. Os dados constam de um levantamento recente realizado pela LCA Consultoria Econômica, uma das maiores empresas de consultoria do país, com 30 anos de atuação no mercado. Se o país voltasse a enfrentar um cenário de desabastecimento, essa cadeia seria profundamente impactada, com efeitos diretos sobre toda a economia. As perdas são estimadas em R$ 9,1 bilhões por dia. — A manifestação de 2018 foi a experiência mais próxima de desabastecimento que experimentamos no Brasil recentemente. Em poucos dias, instaurou-se um cenário de grande insegurança, com filas nos postos e grandes impactos para toda a economia — lembra Gustavo Madi, diretor da LCA Consultoria. A cadeia por trás do abastecimento Para evitar que episódios como o de 2018 se repitam, as companhias do setor mantêm uma operação contínua que garante o abastecimento de combustíveis em todo o território nacional. Lideradas pelo Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), elas atuam de forma consistente para garantir que o combustível chegue às bombas de todos os pontos do país, como lembra David Zylbersztajn, presidente do conselho de administração Sindicom e ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). — Quando abastecem seus carros, os motoristas raramente percebem a complexidade da cadeia que garante a chegada do combustível aos postos. Ela envolve combustíveis fósseis, como a gasolina e o diesel, assim como as opções renováveis, de mistura obrigatória. É uma operação extremamente complexa, que garante o acesso do consumidor ao combustível em todo o país. O setor cumpre sua missão e sustenta o fornecimento do produto, com regularidade, mesmo em cenários adversos, como o atual. As distribuidoras trabalham, portanto, para garantir continuidade operacional, segurança energética e funcionamento da economia em um país de dimensões continentais. Atuam desde a importação do diesel — cerca de 30% do volume consumido no país vem do exterior — até a entrega aos postos. O momento externo gera complexidades adicionais, como avalia Marcio Lago, professor de estratégia e precificação, pesquisador da FGV Energia e ex-superintendente de Estudos Econômicos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. — O preço da molécula sofre os efeitos da volatilidade internacional. A logística tem peso muito grande, não apenas na distribuição do produto ao consumidor, mas também nas etapas anteriores, incluindo o processo de mistura. Participação na economia Ainda assim, as distribuidoras têm participação baixa na composição do preço final dos combustíveis: de acordo com uma análise realizada pela LCA com base em dados da ANP, o maior peso está nos custos de produção e importação, que representam 61% do total. Tributos respondem por 16%, e a mistura obrigatória de biocombustíveis, por 10%. Distribuição e revenda somam os 13% restantes e, dentro dessa parcela, a participação das distribuidoras é inferior à metade. — As distribuidoras precisam desenvolver uma série de atividades com o pequeno percentual que fica para elas. Essas empresas não representam um grande impacto no preço, apesar de assumirem desafios logísticos grandes e apresentarem custos operacionais elevados, que garantem que o produto atenda às normas da ANP antes da comercialização — diz o diretor da LCA Consultoria. — Quando funciona bem, a distribuição passa despercebida. Mas basta uma interrupção para que sua importância para a economia e para a vida cotidiana fique evidente — finaliza o presidente do conselho de administração do Sindicom.
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