Jornal O Globo
O Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciaram a suspensão temporária do uso da vacina contra a dengue do Instituto Butantan em coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira. A decisão foi tomada devido ao registro de 42 reações adversas com sinais de alerta, incluindo duas mortes, que serão investigadas para entender se há uma relação de causa com o imunizante. Pausar a aplicação é o correto e o esperado quando ocorrem casos suspeitos de reações adversas severas por vacina ou medicamento, explica o virologista Mauricio Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP). Isso não significa que a vacina é insegura, diz ele. Mas, sim, que se deve seguir os protocolos de testes e avaliar o que de fato aconteceu. Nogueira participou dos testes das vacinas do Butantan e da Takeda (Qdenga) e destaca que ambas tiveram a eficácia e a segurança bem avaliadas. Por que foi tomada a decisão de suspender a aplicação da vacina? É salutar que o Ministério da Saúde e o Instituto Butantan tenham tomado essa decisão. É o que se deve fazer. É uma medida de cautela e faz parte do processo de avaliação de uma vacina. Na verdade, não apenas de imunizantes, mas também de qualquer medicamento. Ela está em fase 4 de testes. Isso significa que um número muito maior de pessoas recebeu a vacina e, dessa forma, efeitos que não foram observados nas fases anteriores podem aparecer. É o correto e o esperado. E esse é o processo pelo qual passa qualquer remédio ou imunizante. E isso significa que a vacina não é segura? Não. Significa que foram identificadas reações adversas, que embora sejam raras, precisam ser investigadas. A identificação dos casos e a pausa mostram como o processo de vacinação tem sido bem feito, com rigor e critério. Tudo em vacina diz respeito a risco e benefício. A aplicação é pausada para se investigar se os efeitos adversos foram causados realmente pela vacina ou se houve uma associação temporal, isto é, uma coincidência entre as reações adversas e a aplicação da vacina. E depois? Se avalia a relação de risco-benefício. Ou seja, quantas pessoas adoecerão gravemente ou morrerão de dengue e quantas podem sofrer reações adversas da vacina. E que medidas se pode tomar? Se pode, por exemplo, restringir o uso em grupos específicos da população, que corram maior risco e tenham sido identificados pelos estudos. Diferenças genéticas podem influenciar na resposta de uma pessoa a um imunizante, por exemplo. As reações severas associadas à vacina se assemelham àquelas provocadas pela dengue grave, como choque e sintomas neurológicos. A vacina é feita com vírus atenuados. Ela poderia ter provocado a doença? Tudo precisa ser investigado. Mas acompanhei os testes clínicos tanto da vacina do Butantan quanto dos da Takeda e ambas se mostraram muito seguras e com taxa de eficácia superiores a 80%. Eu mesmo apliquei e tomei a vacina do Butantan. Minha mulher e minha filha também a receberam. Acredito que é uma boa vacina e não deixará de ser usada. Pode ser que não seja para todas as pessoas e que se descubra que alguns grupos, como imunossuprimidos, não devam recebe-la. Como é a composição da vacina do Butantan? Ela é composta por vírus da dengue 1, 3 e 4 inteiros e atenuados por meio de deleções dos mecanismos que usam para se multiplicar e de vírus 2 quimérico (80% do vírus 4 e o restante, partes que causam resposta do sistema imune humano do vírus 2). Isso significa que a vacina faz o sistema imune produzir defesas, mas não há vírus capazes de adoecer a pessoa como na dengue. É por isso que os efeitos colaterais comuns se assemelham aos da dengue branda, como dores e febre leves e passageiras. É semelhante ao que ocorre com a vacina da Takeda, também feita de vírus atenuado. Qual a diferença? A da Takeda o vírus do tipo 2 é atenuado por meio de várias mutações e os vírus 1, 3 e 4 são quiméricos. O uso de vírus quiméricos (criados em laboratório por meio da “mistura” de vírus diferentes) é frequente em imunizantes atenuados, justamente para aumentar a segurança e a resposta imune. Os dois imunizantes são, de certa forma, equivalentes. A maior diferença é que o do Butantan precisa de uma dose e o do Takeda, de duas. Uma dose facilita a adesão da população. A vacina do Butantan é derivada de uma tecnologia de imunizante originalmente desenvolvida nos EUA. Qual a diferença? A vacina do Butantan é liofilizada. Isto é, foi desidratada a frio. Isso não tem implicação em segurança. Na liofilização, ela perde vírus e se torna até um pouco mais fraca. E que outro risco pode haver? O de contaminação política. Este deve ser evitado porque faz mal a todo mundo. E espero que não ocorra porque essa é uma vacina de consenso entre os governos do estado de São Paulo (o Butantan é um instituto estadual) e federal. No dia da aprovação da aplicação das doses estavam presentes o governador Tarcísio de Freitas e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Isso diz muito sobre o consenso em relação à importância de uma vacina contra a dengue para a saúde da população. Haver discussão política não tem qualquer lógica e é um desserviço à saúde pública. O critério deve ser a avaliação científica.
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