g1
O influencer que transformou a Rocinha em 'laboratório criativo' para contar histórias da “Pega a visão”: a trajetória do criador de conteúdo Ruan Juliet, da Rocinha, tem como palco a maior favela do Brasil e reúne temas como desigualdade social, vida na comunidade e o poder da informação como agente de transformação cultural. O que começou por acaso depois de um encontro com um influenciador se tornou em curiosidade de entender melhor o lugar onde vive, através de vídeos que alcançam milhões de pessoas nas redes sociais. Com seu bordão característico, o que começa esta reportagem, Ruan aborda pontos como a geografia e a ocupação da comunidade, custo de vida e pontos turísticos. O sucesso dos vídeos ajudou a família do influencer a enfrentar momentos difíceis. Ruan Juliet é mais um entrevistado da série Influência de Cria, que está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do "Influência de Cria" para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop. Ruan Juliet Arte g1 Ruan começou a trabalhar aos 12 anos na barraca de eletrônicos da família, na Rocinha, depois que o nascimento do irmão, que tinha necessidades especiais, exigiu que a mãe se dedicasse integralmente aos cuidados dele. Hoje, aos 22 anos, Ruan acumula mais de 1,6 milhões de seguidores entre Tiktok e Instagram. Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Ruan Juliet na barraca do pai, na Rocinha Gustavo Wanderley/g1 Ele diz que transformou a Rocinha em seu "laboratório criativo" e se define como um contador de histórias da comunidade. Nesta entrevista, fala sobre a infância marcada pelo trabalho precoce, a perda do irmão, a construção de uma carreira nas redes sociais e o desejo de usar a própria trajetória para abrir caminhos para outros jovens da favela. Leia a entrevista completa: Como foi a sua infância? "Eu costumo dizer que na favela a necessidade vem antes do sonho, né? Porque nos bairros ricos, as crianças estão pensando em estudar. Elas estão pensando quando tiver 18 ou 20 anos virar médico ou ser advogado. E na comunidade, muita das vezes é muito difícil e dificilmente um adolescente consegue ter a sua infância, porque ela é interrompida muito cedo. Eu não tive uma infância. Minha infância foi interrompida com 12 anos. Não porque eu quis, eu não queria trabalhar. Eu queria me dedicar 100% aos estudos, mas eu tinha que trabalhar para poder ajudar meus pais. Então tive que amadurecer muito cedo. Meus pais têm uma barraca de eletrônicos e aí minha mãe trabalhava na barraca e meu pai trabalhava como ambulante na praia. Só que eu ganhei um irmão especial, o Ricardinho, e a minha mãe teve que se dedicar 100% para ele e na época a barraca era só um complemento da nossa renda. A renda vinha mesmo da praia e aí, se fosse colocar alguém na barraca, a gente não ia ter nada, não ia lucrar. E aí ali houve aquela necessidade de poder trabalhar para ajudar meus pais. Então trabalhar vendendo controle, vendendo carregador, vendendo fone de ouvido, essas coisas, carregador de carro. Antes disso, a minha infância, antes de eu começar a trabalhar, foi uma infância muito tranquila. Eu estudava aqui na Rocinha mesmo e minha mãe me levava para barraca para acompanhar ela, porque depois que eu saía da escola não tinha com quem eu ficar, não tinha condição de pagar para eu ficar com ninguém e eu ficava lá na barraca com a minha mãe. Mas dos 12 anos até os meus 18, 19 anos, foi tipo barraca, barraca, barraca, estudo, barracas, tudo barraca." Como foi seu começo na internet? “Quando eu começo a gravar conteúdo é um pouco confuso para mim, porque eu não entendia basicamente absolutamente nada, nada, nada. Não sabia onde que a internet poderia me levar. Na época eu estava no meu último ano do ensino médio e eu fui me desenvolvendo ao longo do tempo, aprendendo a editar vídeo sozinho, aprendendo a escrever roteiro, aprendendo a gravar. Ruan Juliet Gustavo Wanderley/g1 Quando eu tô para terminar a escola, na minha cabeça, eu ia terminar a escola e ia continuar ajudando meus pais na barraca, porque eu comecei a trabalhar com 12 anos, então não tinha nenhuma perspectiva de vida alguma. E a internet, ela vem e ela muda essa perspectiva de vida, minha e da minha família também. A partir daí, eu conheço mais sobre a Rocinha. Eu acho que o mais importante que a internet me deu é que ela fez eu entender mais sobre o meu território. Eu comecei a entender mais sobre a Rocinha através dos meus conteúdos. Porque quando eu ia produzir os conteúdos eu não sabia de nada, então tinha que perguntar para os moradores, tinha que me conectar com as famílias e os moradores. Fui contando mais sobre a favela, entendendo sobre a história da Rocinha mesmo." Como a internet te mudou? "Acho que é muito legal, porque quando eu tinha 12, 13, 14 anos e aí eu falo que a internet ela me transforma muito, porque eu não tinha referência alguma com essa idade. E quando eu começo a gravação de conteúdo e eu começo a entender também mais sobre a história da favela, eu começo a ter mais referências, eu começo a me espelhar e mais pessoas até mesmo para gravar conteúdo, por exemplo, RAP. Ruan Juliet Gustavo Wanderley/g1 Tipo assim, eu não tinha muito contato com o rap, com a música e depois que eu começo a gravar conteúdo, depois que eu começo a conhecer mais pessoas, eu me inspiro muito no Emicida, no Racionais, porque eu vejo eles como uma forma de manifestação cultural, de falar sobre a vida na favela. Eu acho que hoje o meu conteúdo é uma forma de manifestação cultural, de falar como que funciona a vida dentro da comunidade." Como foi o início da produção de conteúdo? "Eu comecei a produzir conteúdo por um acaso. Nunca foi um sonho meu. Eu fazia parte de um projeto social na época e nesse projeto social, um influenciador foi visitar. Na época ele tinha 1 milhão de seguidores. O nome dele é Jacques Vanier, e aí nisso ele gostou muito de mim, começou a me gravar, gostou da minha história e a partir disso ele me marcou e eu ganhei 15 mil seguidores. E a partir dali começa a minha história nas redes sociais. E aí eu começo a me desenvolver, começa a bater muito a cara até eu aprender. Eu começo falando sobre a Rocinha. Só que eu tinha vergonha de sair porque era algo muito novo na época, ninguém pegava o celular e saía gravando, tipo os becos, as ruas ou entrevistando os moradores. Então começa a pegar histórias da Rocinha e começa a pegar fotos e gravar de fundo verde. Só que até certo ponto deu certo. Depois disso parou de dar certo. E aí eu pego um quadro na época e começo a explicar nossas gírias, a forma como a gente dialoga com a galera, a forma como a gente conversa. E aí esses vídeos dão muito certo. Depois eu começo a ir para a rua de novo da Rocinha. Eu falo cara, vou pegar todos os vídeos que eu já produzi no fundo verde e agora eu vou para a rua. E aí foi quando deu o boom, porque eu acho que aí eu começo a contar as histórias reais. A galera começa a ver de perto a favela. Hoje eu vivo 100% só da internet. Eu estou construindo a casa dos meus pais. Hoje, só trabalho com a internet e eu não faço nada além da gravação de conteúdo. Todo dia eu saio para rua e vou caçar alguma história. Eu acho que é parecido com você, o jornalista. Eu sou um caçador de história. Tipo, eu fiz da Rocinha o meu laboratório criativo. Então vou conhecendo as histórias dos moradores, porque hoje o vídeo lá atrás ele começa só com o Ruan e hoje não para só no Ruan ou na família do Ruan. Hoje, tipo assim, ele é a Rocinha. Então se eu conhecer uma história de alguém ali, eu vou contar essa história, porque se não contar essa história, essa história nunca vai ser contada. E tem muitas histórias belas para ser contada dentro da comunidade. Hoje em dia essas histórias muitas vezes chegam até mim. Então hoje está um processo mais fácil. Eu sempre prezo pelo conteúdo informativo. Não é o conteúdo que eu penso só em gerar like, eu sempre penso no conteúdo que possa agregar de alguma forma na vida dessas pessoas que estão vendo. Porque como eu te falei, quando eu comecei na internet, eu não sabia a história da Rocinha. Ruan Juliet Gustavo Wanderley/g1 Eu não sabia, tipo assim, do lugar onde eu vinha. E quando a gente não sabe, muitas vezes a gente sente vergonha, a gente vê um esgoto a céu aberto, a gente não sabe por que a gente mora embaixo de esgoto a céu aberto. A gente não sabe por que a gente não tem água de qualidade. A gente sabe por que a gente não tem uma luz de qualidade. A gente fica com vergonha de falar porque a gente mora na Rocinha ou em uma favela. Então, hoje os meus vídeos também são para devolver a autoestima para o jovem, para ele olhar os vídeos e falar: ‘Eu posso falar que eu moro na Rocinha e posso entender que esse problema não é meu. Esse problema é muito maior, O buraco é muito mais embaixo’." E sobre o Ricardinho, seu irmão? “O meu irmão faleceu em 2021.Quando meu irmão faleceu foi quando foi uma virada de chave muito grande também, porque a minha casa vira de cabeça para baixo. Minha mãe entra numa depressão profunda, meu pai entra na depressão profunda e através das redes sociais também eu consigo devolver a vida para minha mãe. Consigo devolver a vida para os meus pais. Hoje a gente está em outro momento, a gente está construindo a casa. Por muito tempo a minha mãe já não queria mais viver, não queria nem se mudar daquela casa que a gente vive hoje e hoje a internet devolveu essa vida. Minha mãe hoje sorri, meu pai também sorri." Já pensou em sair da comunidade? "Eu nunca pensei em sair da comunidade porque eu acho que eu tenho uma missão de vida aqui. Eu estou ganhando muitas coisas, eu estou ganhando muito reconhecimento e eu estou conseguindo abrir muitas portas para mim e para minha família. Mas eu sinto que eu tenho que trazer isso para minha favela. Eu acho que é um senso de coletividade e eu acho que os meus próximos anos dentro da favela são para tentar diminuir os muros que criaram e conseguir criar mais pontes para dentro da favela. Claro, eu penso em tirar meus pais da favela. Eu penso, mas eu sou muito novo, tenho 22 anos e minha vida só está começando. Eu acho que a minha vida é aqui. Eu quero fazer muito pela minha favela, muito pelos jovens e criar realmente muitas pontes aqui dentro. Você conhece aquele verso do Emicida: ‘Nunca volte para sua quebrada de mente e de mão vazia’." Qual conselho você daria para quem está assistindo? "Um conselho que eu deixaria para quem está assistindo é ‘nunca desista do sonho de vocês’. A gente sabe que é muito difícil, mas que nunca desista. Como eu já tive nesse lugar de necessidade de ter que trabalhar muito cedo, eu sei que não é fácil, né? Não é culpa de vocês. Vocês não tem culpa de nada, né? E cara, escolha o caminho certo. Por mais que seja difícil, escolha o caminho certo, porque no final das contas vai ser melhor para vocês. E como eu falei, eu não quero que eu só eu vença, mas eu quero que outras pessoas vençam também, porque eu acho que não é todo mundo que consegue. É difícil por vários fatores, principalmente dentro da favela. E a corrida não é justa. Muitas vezes a gente não começa na mesma linha. Um começa aqui, o outro começa atrás e principalmente a galera que vem de favela. Então, olho hoje para minha trajetória e por mais que a corrida não tenha sido justa comigo, com outros jovens da favela, eu estou conseguindo alcançar meus objetivos. Tem até um verso do Emicida que fala que muitas das vezes a gente tem um sonho de ter uma casa, e ter uma casa não é um sonho, é dignidade. E agora estou conseguindo ter esse algo básico que é uma casa, o meu quarto pela primeira vez. Então olho para mim, tenho muito orgulho de tudo que eu estou construindo até aqui. E eu tenho até um sonho no futuro que é ensinar também para os jovens da da favela um pouco sobre tudo que eu aprendi, sobre a importância de gravar vídeos, como você produzir seu primeiro conteúdo, quais estratégias você tem que fazer para chegar até as marcas e como você faz para monetizar, para negociar na importância de saber a história do território. É um sonho que eu tenho no futuro próximo, de devolver isso para a favela de alguma outra forma. Eu já tô devolvendo muitas coisas, mas tudo que eu faço hoje, com todo o conhecimento que eu pego através da internet, através dos contatos que eu vou ter, eu quero devolver sempre pra favela, sabe?" Galera, agora eu vou ser o repórter, eu vou perguntar pro meu pai o que o meu pai acha do Ruan Juliet. Ele viu tudo nascer. Fala, pai. Raimundo do Nascimento: "Quando você me ajudou muito aqui na barraca, quando o tempo que eu estava precisando você foi alicerce também aqui comigo, ajudou muito depois, graças a Deus essa internet que eu pensava que não ia pra frente, que eu não tinha muita fé, mas graças a Deus, Deus abençoe que você é um garoto muito esperto, Que Deus abençoe e você está firme lá na internet. Eu falei que isso não ia dar futuro pra ele, mas eu errei, entendeu? Então eu agora eu sei que dá, que dá vantagem pra ele, que Deus abençoou ele tá bem na internet." Ruan Juliet na barraca do pai, na Rocinha Gustavo Wanderley/g1 Ruan: "Um dia eu espero, eu vou dar a casa agora para meus pais, mas eu espero um dia poder tirar meu pai daqui também da barraca na espera de ter uma loja. Um dia vou deixar essa matéria, porque no dia que eu realizar a gente vai postar esse vídeo aqui."
Go to News Site