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Quando uma Copa começa, é difícil escapar da sintonia mental da torcida, diz neurocientista Tiago Bortolini | Collector
Quando uma Copa começa, é difícil escapar da sintonia mental da torcida, diz neurocientista Tiago Bortolini

Quando uma Copa começa, é difícil escapar da sintonia mental da torcida, diz neurocientista Tiago Bortolini

A Copa pode estar empolgando menos gente que de costume neste ano, mas a ciência mostra que, quando a bola rola, o contágio comportamental e a sensação de pertencimento a um grupo (no caso, a um país) realmente ampliam o entusiasmo da torcida. Essa é a opinião de Tiago Bortolini, neurocientista do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, que há mais de dez anos se dedica a entender o cérebro de uma criatura peculiar: o torcedor. — A gente tem facilidade gigantesca de se identificar com qualquer grupo —, diz o cientista, — mesmo que o critério de separação não faça sentido para você. Ciente de que as emoções do futebol são capazes de despertar o melhor e o pior de cada pessoa, Bortolini (gremista por tradição familiar) já mapeou a mente de torcedores de clubes usando técnicas que vão da ressonância magnética à psicologia experimental. Suas pesquisas ajudam tanto a entender melhor a violência nos estádios quanto o lado positivo da paixão dos torcedores. Em entrevista ao GLOBO, ele compartilha suas reflexões sobre a torcida pela seleção, e o quanto ela é um fenômeno diferente da torcida por clubes. É comum a percepção de que as emoções do futebol despertam o melhor e o pior de cada pessoa. Seu trabalho como cientista é desvendar por que isso acontece? O trabalhos com a torcida que a gente fez mostram o poder que o futebol tem de acentuar a característica humana de colaborar com pessoas de um grupo parecido com o seu, com pessoas do mesmo grupo. Isso serve para futebol, para nacionalidade, para raça, qualquer grupo. O lado bom é que a gente tende a colaborar. O lado ruim é que as pessoas às vezes tendem a rejeitar ou tratar mal quem é de um grupo de fora. Nos nossos estudos com ressonância magnética, a gente não chega a verificar isso diretamente no cérebro. O que nós vimos é que, quando a pessoa colabora, esse comportamento recruta áreas cerebrais semelhantes às da 'filiação interpessoal'. São as mesmas áreas que se ativam quando a gente pensa na nossa mãe, no nosso pai, nos nossos filhos, nas relações interpessoais que são a base da sociabilidade humana. O que a gente mostra é o que nós chamamos de 'apego estendido': a capacidade dos humanos de se apegar a outras pessoas, mas também a outras coisas, inclusive coisas abstratas. O efeito que vocês veem se aplica a quem torce só pela televisão e é espectador eventual que não vai a estádio? Nos nossos estudos a gente considera o quanto a pessoa se declara torcedor só da boca para fora e o quanto ela realmente investe nessa identidade. Nós tentamos separar com alguns critérios os fanáticos dos não fanáticos perguntando quanto a pessoa com que frequência ela vai ao estádio, quantas vezes ela fica vendo jogo em casa etc. Os torcedores fanáticos investem o tempo deles no time e nos nossos estudos os efeitos que a gente verifica sempre são mais fortes nas pessoas que realmente vão ao estádio. A experiência do estádio e o fanatismo são coisas que se alimentam uma a outra. O cara vai ao estádio, onde a identificação dele com o time cresce, e o fato de ele se sentir mais identificado, em contrapartida, faz ele ir para o estádio cada vez mais vezes. O que é o conceito de 'fusão de identidade' que vocês estudam nas torcidas? Ele ajuda a explicar a questão da violência no esporte? A fusão de identidade se refere a quanto o indivíduo considera que a identidade do grupo e identidade dele são a mesma coisa. Nós usamos um questionário para tentar medir isso. A fusão de identidade pode acontecer com a torcida de futebol e com qualquer grupo social, incluindo religiões e nacionalidades. Quando as identidades pessoal e social se 'fundem', a pessoa age como ela e o grupo dela fossem uma coisa só, e a identificação passa a ser um caso extremo. A gente vê isso no caso de alguns integrantes de torcida organizada. Nós temos dois estudos sobre isso. Em um deles explorou exploramos o conceito de fusão de identidade em três grupos sociais diferentes: torcedores, nacionalistas e religiosos. Em todos esses grupos, o que a gente viu é que as pessoas num grau maior de fusão de identidade tendem a responder a ameaças de forma mais agressiva. Quando você ameaça o grupo dela, por ela estar 'fusionada', ela vê aquilo como uma ameaça a si mesma, e isso pode gerar uma resposta de violência. Nos nossos estudos a gente não tinha, obviamente, a violência *per se* sendo perpetrada. Nós usávamos questionários para medir indiretamente o quanto cada pessoa estaria disposta a prejudicar um outro grupo de alguma forma. E nós vimos que nas torcidas organizadas existe mais fusão de identidade, e os torcedores têm mais tendência a responder com a violência quando se sentem ameaçados. Você concorda com a teoria de que os esportes de competição são uma maneira de canalizar a agressividade primitiva dos humanos para uma atividade não destrutiva? Isso é uma hipótese séria? Eu não sei. Existe essa teoria na psicologia evolucionista de que os esportes têm a ver com aquela figura do 'guerreiro', que vem desde a origem da nossa espécie. O esporte seria uma maneira que a sociedade moderna encontrou para acomodar isso em algum lugar. Mas o que a gente vê é que, na verdade, os aspectos de violência no futebol são minoritários. Eles existem, claro, e no Brasil já se viu muitas mortes em conflito de torcida, mas se você for comparar com a grande massa de torcedores, essa violência é obviamente obra de uma minoria. Então, não sei se essa explicação se aplica. Hoje em dia, o futebol tem várias funções sociais. Talvez essa questão de canalizar a violência seja verdade para uma parcela de pessoas, mas não para a maior parte. Seu grupo também já pesquisou o ambiente sensorial do estádio, com coisas como gritos de guerra, coros, bateria, ola... Isso tudo aumenta a sintonia cerebral do torcedor com o time? E a violência? Foi nesse estudo que a gente constatou que a experiência de ir ao estádio é uma viagem de mão dupla. Você fomenta essa sensação de pertencimento e, ao mesmo tempo, a pessoa que já tem essa sensação de pertencimento passa a se identificar ainda mais. Isso aumenta com o estímulo de sincronia: o cântico da torcida 'turbina' esse comportamento contra um grupo externo, contra um rival. A gente mediu isso com uma tarefa econômica ali, não foi com uma situação real. Quando a pessoa tinha a possibilidade de tomar uma decisão contra ou a favor do torcedor de um time rival, aqueles que tinham escutado o cântico sincrônico e possuíam fusão de identidade tinham mais propensão a comportamentos hostis. A violência pode surgir numa situação de oposição, uma situação de percepção de ameaça como a que eu citei. Um exemplo típico é o que acontece com a atuação da polícia. O torcedor pode se sentir encurralado quando está sendo escoltado, vigiado. Basta ter um gatilho ali para o cara ver aquilo como uma ameaça contra o grupo dele, perceber aquilo como uma ameaça pessoal e acabar tendo uma resposta violenta. O estádio certamente tem esse poder, para o bem e para o mal. Ele pode gerar uma identificação muito forte, uma união, mas também pode estimular uma resposta violenta em pessoas que tenham alguns ingredientes psicológicos já de antemão. Como o a mente do torcedor de clube difere da do torcedor de seleção? Por que muita gente fanática por times não dá bola para seleção? Nós não tem dados produzidos sobre isso, mas na época em que estávamos desenvolvendo esses estudos, escolhemos trabalhar com torcedores de clube justamente por causa dessa diferença. Existe essa percepção meio empírica de que, pelo menos no Brasil, a identidade dos torcedores com os clubes é muito mais forte. A nossa interpretação é que isso ocorre em parte pela proximidade. O clube as pessoas escolhem quando ainda são crianças, e acompanham por muito tempo, vendo jogar duas ou três vezes por semana. Se o torcedor puder e quiser, tem como ir no estádio toda semana. Mas com a seleção não dá. Os jogos são muito esporádicos, e a identificação é mais difícil porque os jogadores nem jogam mais em times do Brasil. Eu mesmo nunca fui num jogo da seleção. O clube, além disso, se beneficia de um apego estendido: você cria proximidade porque o clube é da sua cidade, e você aprendeu a torcer com seu pai ou outro familiar. É verdade que a Copa do Mundo tem um papel em gerar algum apego pela seleção, mas é uma competição que só ocorre a cada quatro anos. As pessoas se juntam ali, a Copa vira o assunto do momento, mas não é uma coisa que tem continuidade. O intervalo entre uma copa e outra é muito grande. A Copa do Mundo, por por outro lado, tem o poder de atrair gente que normalmente não segue futebol. Numa escala maior, isso não compensa o desinteresse de alguns torcedores de clube? Esse é um bom ponto, mas é uma teoria que tem vários complicadores, começando por entender o que é a identidade nacional. O que é ser brasileiro? A identificação do brasileiro é em geral muito difusa, e eu nem sei qual é o peso do futebol nela hoje. O uso da camisa da seleção nas manifestações políticas de direita sabotou o uso dela como símbolo nacional? Esse é meu outro ponto. O símbolo da seleção foi mesmo cooptado por um grupo político e criou uma situação complicada. Talvez uma pessoa que até queira usar a camisa da seleção deixe de usar porque aquilo ganhou identificação com outro grupo. Mas isso faz parte da beleza da humanidade: quem quiser entender o ser humano precisa lidar com um nível de complexidade com muitas camadas quando ele se coloca num grupo social. Por isso é tão difícil tentar medir quanto o futebol está relacionado com o nacionalismo. Seus estudos sobre futebol ajudam a explicar o comportamento humano em outros grupos? Sim, e foi por isso que gente escolheu o futebol para essas pesquisas. Isso começou no meu doutorado, há 14 anos. A gente estava muito interessado em entender a neurobiologia da cooperação entre indivíduos de um mesmo grupo social, e estávamos tentando escolher que tipos de grupo usar. A gente cogitou pesquisar grupos religiosos, olhando para católicos e evangélicos, por exemplo. Pensamos também em usar identidade estadual, olhando para os gaúchos, os cariocas etc. Mas a gente acabou indo para o futebol porque ele é um modelo de relações que, pelo menos no Brasil, na maioria das vezes não está relacionado a nenhum dogma. A gente poderia estudar a questão sem tanta carga de moralidade por trás, o que nos estudos de religião não seria possível. Eu sou de Porto Alegre, e sei que você torcer para o Grêmio ou para o Inter não tem nada a ver com você ser ateu ou cristão, rico ou pobre, negro ou branco. Estudando o futebol, seria mais fácil ver isoladamente o fenômeno da identidade de grupo. Claro que o clube às vezes tem relação com a sua família, com o bairro em que você mora, mas ele é um grupo mais 'puro', em certo sentido, e uma vez que você se identifica com um time em geral é para a vida toda. Existe até aquela piada de que a pessoa muda de mulher, muda de marido, muda de sexo, mas não muda de time. Além disso, para nós também era importante escolher um fenômeno que fosse cultural, sem ser definido por biologia, e que fosse em certa medida arbitrário: não tem nada que pré-defina a escolha por um time. É por causa de tudo isso que a gente pode fazer esses estudos sobre o ambiente do futebol tentando extrapolar pra aspectos humanos em geral. Você gosta de futebol? Isso influencia seu trabalho? Eu sempre gostei de futebol, mas nunca fui fanático. Sempre acompanhei, e foi algo que surgiu da minha conexão com meu pai, que me levava nos jogos. Eu sou gremista, e conheço o estádio olímpico desde pequeno. Isso foi uma influência que eu tive, mas ao mesmo tempo uma coisa que sempre me chamou muita atenção foi o fanatismo que eu via frequentando estádio e vendo amigos. Sempre me impressionou muito ver como o futebol mexe com o âmago das pessoas. Você vê gente vendendo a geladeira pra ir para o mundial, sabe? É uma loucura. Foi mais tarde, quando eu estava estudando neurobiologia da cooperação, que eu percebi que as torcidas seriam grupos super interessante para observar. Eu realmente não conseguia entender como essa galera se apega tanto ao time, e essa foi a conexão com minha pesquisa. A Copa neste ano não parece estar empolgando muita gente. Ainda podemos esperar aquele efeito de contágio, de uma pessoa desinteressada parar para ver o jogo porque todo mundo está vendo? Com certeza. Existem dois fenômenos básicos da cabeça humana por trás disso. Um é que a gente tem uma facilidade gigantesca de se identificar com qualquer grupo. Um estudo clássico na psicologia experimental e social é o que e separa aleatoriamente uma turma de alunos em duas cores, grupo azul e o grupo preto. Depois de algum tempo, surge uma identificação. Quem é azul se diz 'azul desde criancinha', mesmo que o critério de separação não tenha nenhum sentido. As pessoas criam vínculo de maneira muito fácil. Isso é algo que gera comoção na Copa. Tem gente que fala 'agora eu sou Brasil até morrer', por mais que tenha passado os quatro anos anteriores sem dar bola para aquilo. O outro aspecto importante é mesmo o do contágio. A gente está sempre influenciado pelo nosso meio. Quando você começa a ver todo mundo falando, todo mundo torcendo por uma coisa, você começa a se engajar naquilo. Você vê que todo mundo à sua volta está interessado, e aquilo passa a ser relevante pra você também.

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