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'Confio plenamente nessa vacina, é a melhor ferramenta que temos para enfrentar da dengue no Brasil', diz diretor do Instituto Butantan | Collector
'Confio plenamente nessa vacina, é a melhor ferramenta que temos para enfrentar da dengue no Brasil', diz diretor do Instituto Butantan

'Confio plenamente nessa vacina, é a melhor ferramenta que temos para enfrentar da dengue no Brasil', diz diretor do Instituto Butantan

Desenvolvimento inédito no Brasil, a vacina contra dengue criada pelo Instituto Butantan (após uma parceria internacional com o National Institutes of Health, nos Estados Unidos), passa por um momento delicado em sua aplicação no país. Após a chegada aos braços de meio milhão de brasileiros, a aplicação da vacina foi paralisada pelo Ministério da Saúde para que efeitos adversos ocorridos após a aplicação das doses sejam melhores compreendidos. De todos os casos registrados, três inspiram maior preocupação: são casos graves, com dois óbitos, que tiveram quadros assemelhados à dengue. Não é possível determinar, porém, que o uso do antígeno e esses quadros estejam relacionados. A investigação é justamente sobre esse tema. Em um dos braços de trabalho da investigação está o Instituto Butantan, desenvolvedor da vacina e que ainda comanda estudos relacionados à sua aplicação. Ao GLOBO, o diretor da instuição, Esper Kallás, falou em primeira mão sobre os próximos passos envolvendo a Butantan-DV e ratificou sua "confiança" na vacina que ajudou a colocar à disposição do Sistema Único de Saúde (SUS). Quanto tempo deve durar essa análise? Se depender do Butantan, o mínimo possível. Temos que nos debruçar sobre as bases de dados, aprofundar os estudos desses casos onde ocorreram relatos de efeitos adversos ou reações. E tentar esclarecer, um por um, para saber o que, de fato, pode ser relacionado à vacina e o que pode ser somente uma coincidência. Essa análise depende de acesso a todas essas informações, algo que já requisitamos ao Ministério da Saúde. E, também, eventualmente, disponibilidade, até mesmo, de amostras colhidas de algumas dessas pessoas que estejam disponíveis. A gente também vai propor para o Ministério da Saúde algumas outras vacinações piloto sob farmacovigilância ativa. Traduzindo isso, você coloca meios de captura de informações mais sensíveis. Que permitem você verificar se, por exemplo, se está aparecendo algum sinal, e se ele se mantém, ou se aquilo era só um artefato (algo isolado). Isso são ações que quanto antes a gente tomar melhor. Não há prazo específico, então? Exato, mas é evidente que o Instituto Butantan, como também a Saúde Pública Brasileira, gostariam da resposta mais cedo possível. Porque eu tenho a convicção ainda que essa vacina é o melhor instrumento de enfrentamento da dengue que nós temos. O que é possível dizer sobre segurança da Butantan-DV nesse momento, quais informações temos? A vacina foi demonstrada como sendo segura pelos estudos de pesquisa realizados até agora. A segunda coisa é que a vacinação piloto que ocorreu em três cidades brasileiras, que envolveu mais de 80 mil vacinados, que foi em Botucatu, Maranguape e Nova Lima, e nos estados de São Paulo, Ceará e Minas Gerais, respectivamente, não mostraram nenhum sinal que trouxesse preocupação. A gente não teve casos de dengue, nem mesmo sinais de alerta que poderiam lembrar dengue nessas mais de 80 mil pessoas vacinadas. Então a gente tem não só os estudos realizados, fase 2, fase 3, e depois os primeiros 80 mil que não mostraram nada. O que apareceu foi esse sinal de sinais de alerta em pessoas que são profissionais de saúde, que receberam alguma coisa como 300 mil doses de vacina. Então a gente tem que focar nesse grupo, ver quais são as diferenças entre os outros grupos. Mas estávamos convictos até ter essa informação que a vacina tem perfil de segurança. Aí voltamos àquela discussão, o que disso é só um barulho de uma detecção de sinal, que não necessariamente é verdadeira, e o que é de fato um sinal verdadeiro, que devemos levar em consideração. Os três casos graves estão ainda sob investigação, duas pessoas morreram após receberem a vacina, precisamos aprofundar e ter o máximo de informações possíveis para saber o que é causado pela vacina e o que foi coincidência. Quero salientar que ao vacinar meio milhão de pessoas, você vai ter alguém que vai ter algum problema de saúde (em período semelhante) e a gente tem que estabelecer relação causal. O que exatamente o Butantan vai fazer nesse processo? Ontem nós tivemos várias discussões com os colegas do Ministério da Saúde para primeiro ter o acesso completo às bases de dados, para que a gente possa fazer esse aprofundamento de análise. Essa análise costuma ser algo que se faz compartilhado com o Ministério, porque o objetivo é ela ser a mais rigorosa possível para a gente decifrar as informações. A outra coisa que a gente está fazendo é revendo todos os nossos estudos que estão em andamento, para ver de que maneira a gente poderia propor ampliação deles para tentar contribuir com essa base de dados. É uma situção que envolve a análise de risco e benefício... Confio plenamente nessa vacina. Nas avaliações que fizemos de benefício e risco são todas favoráveis (à vacina). Ela tem seu lugar e ainda é a melhor ferramenta que temos para enfrentar a dengue no Brasil. Quem já tomou a vacina precisa tomar alguma precaução? A primeira coisa é que quem tomou a vacina ganhou a proteção prometida por ela, isso é uma coisa boa. Eu tomei a vacina e estou feliz de já ter tomado. Se a pessoa tomou a vacina em menos de 21 dias, tiver algum sintoma, pode reportar à autoridade de saúde, porque aí essa informação vai ser capturada. Então, se você tem até menos de 21 dias, fique atento. A vacina induz algumas reações, mas é fruto da multiplicação do vírus atenuado, que é o que a gente quer (com essa tecnologia). Como toda vacina de vírus atenuado, nós temos uma multiplicação desse vírus vacinal na pessoa para induzir a defesa. Isso acontece com a vacina de febre amarela, vacina de rubéola, vacina de varicela. Então, nós estamos acumulando as experiências de início de vacinações com produtos novos. Se o país quiser navegar dentro da inovação e do desenvolvimento, vai viver momentos como esse. Isso faz parte desses processos. É parte disso ter uma fase, após conclusão de todos os estudos, que temos atenção ao uso inicial na população. O estudo da vacina da dengue em pessoas com mais de 60 anos se mantém? Se mantém. O que eu posso te adiantar do estudo 60+, é que a gente já passou de 75% (do recrutamento) dos participantes. Até agora a gente não detectou nenhum sinal preocupante, estamos em discussão com os centros, mediante essa notícia que acabou saindo (da paralisação). Estamos fazendo uma comunicação com os voluntários, primeiro para tranquilizar todo mundo, e segundo para a gente verificar como que a gente dá continuidade. Qual sua avaliação pessoal para esse cenário para essa paralisação? Eu acho que esse é um assunto onde não cabe torcida. Não cabe time de futebol, não cabe partido político, não cabe nenhum tipo de polarização. Cabe a nós colocar em exercício a evidência baseada em dados com critérios científicos rigorosos. A resposta que virá vai ser a resposta que tem que ser respeitada. Esse é o compromisso que a gente tem. É claro que eu gostaria que a vacina não passasse por isso, é claro que eu gostaria que a gente continuasse vacinando todos os brasileiros, mas a gente acata a decisão que foi tomada pelo Ministério da Saúde, evidentemente, e vamos aprofundar nas informações para dar a melhor resposta possível. O que acha que é um futuro possível para a Butantan-DV? Temos algumas evidências de que a gente vai superar essa fase. Vamos esclarecer, a gente torce por uma retomada da vacinação quanto antes. Em atualização.

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