Jornal O Globo
O virologista holandês Vincent Munster, reconhecido internacionalmente por suas contribuições ao desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19, foi acusado pelas autoridades americanas de tentar introduzir ilegalmente materiais biológicos nos Estados Unidos após uma missão científica na República do Congo. AstraZeneca: Farmacêutica britânica conclui estudo com resultados promissores para o 'comprimido de Mounjaro' Entenda: Brasil paralisou a vacinação contra a dengue com o imunizante do Butantan A denúncia criminal, tornada pública na semana passada, também envolve a assistente de pesquisa Claude Kwe, de 38 anos, natural dos Camarões. Os dois foram abordados por agentes da alfândega no aeroporto de Detroit depois de retornarem de uma atuação durante um surto de mpox no país africano. Munster, de 53 anos, chefia a seção de ecologia de vírus dos Laboratórios Rocky Mountain, vinculados aos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), em Montana. Os promotores do Distrito Leste de Michigan afirmam que os pesquisadores conspiraram para transportar ilegalmente materiais biológicos em janeiro deste ano. Caso sejam formalmente denunciados e posteriormente condenados, eles poderão enfrentar penas de até cinco anos de prisão. Com cerca de 400 estudos publicados e aproximadamente 69 mil citações acadêmicas, Munster é considerado uma referência em doenças infecciosas emergentes. Acusação cita mais de 100 frascos com materiais biológicos De acordo com a denúncia, Munster e Kwe informaram às autoridades que transportavam materiais destinados a testes e diagnósticos. Os promotores, porém, afirmam que a bagagem continha mais de 100 frascos com materiais biológicos, incluindo vírus mpox inativado, vírus da catapora e outros agentes. O FBI informou que aproximadamente 20 frascos já foram analisados. Desses, 17 continham vírus mpox inativado. Embora vírus inativados não sejam infecciosos e sejam utilizados em pesquisas científicas, a legislação americana exige que esses materiais sejam declarados às autoridades e acompanhados das certificações necessárias para comprovar que não oferecem riscos biológicos. Na denúncia anexada ao processo, o FBI afirma que os cientistas "não apresentaram a verdadeira identificação dos materiais biológicos que transportavam e não forneceram nem possuíam as certificações necessárias". O procurador interino do Distrito Leste de Michigan, Jerome F. Gorgon Jr., criticou a conduta atribuída aos pesquisadores. "Esses especialistas do NIH aparentemente violaram nossas leis ao transportar ilegalmente patógenos virais em um voo comercial lotado vindo de uma área de surto", afirmou em comunicado. Defesa afirma que episódio está sendo exagerado A defesa de Vincent Munster sustenta que o caso está sendo retratado de maneira desproporcional. Em declaração enviada ao The New York Times, o advogado Mark J. O'Brien afirmou que o episódio "soa muito mais escandaloso do que realmente é". Segundo ele, os materiais estavam relacionados a pesquisas voltadas ao combate à mpox. — Não se trata de um episódio de terrorismo. Isso teria sido feito para promover a pesquisa — declarou. O advogado acrescentou que "o Dr. Munster deposita sua fé e confiança no sistema federal de justiça criminal" e afirmou que "A política não desempenhará nenhum papel neste caso porque este caso não é sobre política". Especialista em doenças infecciosas emergentes, Munster dedica-se ao estudo de como vírus presentes em animais sofrem mutações e passam a infectar seres humanos. Entre suas pesquisas estão trabalhos sobre o papel dos morcegos frugívoros na ecologia do vírus Ebola. Em 2013, ele fundou a Unidade de Ecologia de Vírus dos Laboratórios Rocky Mountain, cuja missão é "elucidar a ecologia dos vírus emergentes e os fatores que impulsionam as zoonoses e a transmissão entre espécies". Caso mobiliza conservadores e parlamentares republicanos A investigação ganhou repercussão política após a influenciadora conservadora Laura Loomer acusar o instituto de tentar minimizar o episódio. Ao lado da organização White Coat Waste Project, grupo que defende os direitos dos animais, Loomer transformou Munster e os Laboratórios Rocky Mountain em alvo de críticas entre setores conservadores. A White Coat Waste Project acusa há anos o pesquisador de conduzir "experimentos imprudentes e cruéis em primatas e morcegos", que, segundo a entidade, representariam "graves riscos à biossegurança e à segurança nacional". Em maio, Loomer e a organização cobraram providências do Congresso e do governo do presidente Donald Trump. Nas redes sociais, a influenciadora questionou por que Munster não havia sido preso e por que o laboratório permanecia em funcionamento. A pressão também chegou ao Senado. O republicano Tim Sheehy, de Montana, afirmou que "as famílias de Montana merecem respostas e responsabilização" e pediu uma investigação sobre os Laboratórios Rocky Mountain ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos. Já o senador Rick Scott, da Flórida, classificou as acusações como "inacreditavelmente perturbadoras" e agradeceu às autoridades "por impedir que esses patógenos fossem liberados em nosso país". Os promotores, no entanto, não acusaram os virologistas de planejar a liberação dos materiais biológicos transportados. NIH reforça protocolos de segurança Os Institutos Nacionais de Saúde informaram que estão colaborando com as investigações e adotaram medidas adicionais de segurança. Em comunicado, a instituição afirmou ter reforçado a proteção dos laboratórios, restringido acessos e realizado um inventário "para verificar que todos os materiais estavam devidamente registrados, documentados e mantidos em conformidade com todas as políticas, exigências e procedimentos relevantes de biossegurança". Munster e Claude Kwe compareceram ao Tribunal Distrital de Missoula, em Montana, entregaram seus passaportes e foram liberados mediante compromisso de comparecimento às próximas etapas do processo. As autoridades americanas deverão apresentar as provas a um grande júri até o próximo mês, em uma tentativa de obter uma acusação formal contra os dois pesquisadores.
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