Jornal O Globo
Luana Lopes Lara nasceu em Belo Horizonte e viveu boa parte de sua vida no Rio. Ex-bailarina do Bolshoi, ela estudou no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), um dos mais importantes centros universitários e de pesquisa dos EUA e do mundo. Ontem, ela voltou ao Rio para a sessão de abertura do Web Summit Rio 2026 como uma das mais bem-sucedidas empresárias do ramo de tecnologia nos EUA, apontada pela Forbes como a mais jovem bilionária do mundo a ter construído uma fortuna sem ser herdeira, mas demonstrou que os desafios de sua trajetória empreendedora ainda estão no começo. Web Summit Rio 2026: Acompanhe a cobertura do GLOBO Investimento de US$ 550 milhões: Prefeitura anuncia expansão de hub de data centers Cofundadora da Kalshi, maior plataforma do crescente mercado de previsões nos EUA, ela admitiu que há uma grande barreira regulatória a ser superada em diferentes países para que sua empresa possa expandir-se a partir dos EUA. No entanto, ela reafirmou a disposição da empresa de dialogar com governos, inclusive no Brasil, e investir em política institucional para defender a tese de que os mercados preditivos são diferentes dos jogos de azar, cassinos on-line e bets esportivas. No mercado preditivo as pessoas podem apostar no desfecho de eventos futuros como o resultado de eleições, previsões sobre economia, vencedores de competições, entre outros. Na prática, os investidores apostam em probabilidades: se o evento ocorrer, o contrato paga. Se não ocorrer, perde valor. Avaliada em US$ 22 bilhões em sua última rodada de investimentos, a Kalshi também movimenta bilhões semanalmente com usuários que "apostam" em cenários de diferentes temas, da economia aos esportes, passando por políticas nacionais e a geopolítica, com consequências para a economia global. Combate a manipulações No primeiro painel da edição carioca deste ano do maior evento de cultura digital do mundo, aberto ontem no Rio, a empreendedora reconheceu que ainda é preciso fazer ajustes na plataforma para coibir movimentos especulativos que possam influenciar eventos fora da plataforma, como a propagação de notícias falsas. Um exemplo foi um episódio recente envolvendo previsões sobre o primeiro-ministro do Irã e sobre o qual a empresa se retratou publicamente. Perguntada sobre isso no palco do Web Summit Rio, numa conversa com Tom Giles, editor executivo sênior de Tecnologia da Bloomberg News, Luana explicou que a empresa tem regras claras com relação a isso, mas reconheceu que precisa avançar ainda na comunicação com seus clientes para evitar especulações capazes de gerar notícias falsas. Luana afirmou que a companhia está atenta ao ano de eleições em muitos países, particularmente as parlamentares nos EUA e as presidenciais no Brasil. Embora a Kalshi ainda não atue no Brasil, há participantes brasileiros atuando em temas ligados ao país diretamente em sua plataforma americana. Luana afirmou que a empresa está reforçando seu time de supervisão do mercado de previsões. — Temos uma linha muito dura de que qualquer mercado associado a guerra, terrorismo e assassinato não é permitido na Kalshi. Em casos de assassinato ou violência, é que, se algo de fato se realiza, anulamos todas as negociações. Todos recebem o dinheiro que colocaram de volta, mas não podem lucrar com isso. Há muitos mercados relevantes e com impacto econômico, que podem ter um componente ou alguma violência ligada a eles, e é assim que avisamos, anulamos e os invalidamos para garantir que não haja lucro com esse tema. Foi exatamente o que aconteceu no caso do Irã. É semelhante à Venezuela, há maneiras de alguém não ser assassinado, mas ser retirado do poder, e há impactos no mercado de petróleo e em muitos mercados de forma ampla. Por isso, decidimos listar aquele mercado. Mas quando aquilo (a deposição e captura do presidente Nicolás Maduro pelos EUA em Caracas) aconteceu, anulamos todas as transações e todos receberam o que colocaram. Mas acho que não fizemos um bom trabalho na educação do cliente e na comunicação do que aconteceria naqueles casos. E no fim das contas, se os clientes ficam confusos, o erro é nosso. Mas estava escrito em nossas regras, embora não estivesse óbvio o suficiente. Daí tiramos aprendizados sobre como tornar as regras mais claras e comunicar aos clientes —afirmou. De boa com o verbo 'apostar' A executiva afirmou que vê o termo "apostar" como uma expressão psicológica usada em vários outros segmentos, como a Bolsa de Valores, e que não se importa de vê-lo associado à Kalshi, mas indicou que a empresa busca se diferenciar de plataformas de apostas esportivas e jogos de azar. E detalhou como são formados os mercados nos quais os usuários formam posições: — Todos os mercados que listamos na Kalshi vêm de sugestões de usuários, que passam por uma extensa revisão de conformidade e revisão legal para garantir que as regras sejam claras e tudo esteja em conformidade com a regulamentação. Temos essa linha dura internamente e vinda dos reguladores sobre mercados proibidos, algo que concorrentes offshore (baseados em outros países) e não- regulamentados não possuem. Muito do comportamento ruim e das notícias negativas em mercados de previsão não está acontecendo em locais regulamentados, são todos offshore, e esse é outro desafio educacional com que temos de lidar. Falando sobre preocupações com a desinformação em um ano eleitoral nos EUA e no Brasil, ela afirmou que a Kalshi está empenhada em evitar que mercados preditivos e pessoas que o promovem usem a plataforma para manipular dados e disseminar desinformação: — Temos normas bem claras para nossos afiliados e influenciadores com os quais trabalhamos. No entanto, é impossível para nós ter certeza de tudo o que estas pessoas fazem ou postam. O que podemos fazer é agir rapidamente e fazer o que fizemos: manter nossa estrutura de normas e pedir que retirem esses posts. Não queremos estar envolvidos ou ter nossos afiliados relacionados a isso. Nosso mercado não é esse. É um aprendizado para nós como ter mais controle sobre isso e manter nossas normas mais rígidas. Mas, é muito difícil ter controle sobre o que todos dizem. Veto no Brasil e em outros países No fim de abril, o governo brasileiro e o Banco Central proibiram o funcionamento de plataformas preditivas no Brasil sobre temas como política e esportes, classificando-as como de “apostas ilegais”. Esse mercado só poderá ficar restrito a temas econômicos. Luana afirmou que a Kalshi vai manter o diálogo institucional com o governo brasileiro, assim como faz em outros países com barreiras regulatórias — como a Índica — e como fez nos EUA até conseguir as autorizações necessárias dos órgãos de controle americanos. Ela insistiu que há uma diferença entre as plataformas de apostas e o mercado preditivo, que seria uma modalidade mais segura. — Nas apostas esportivas ou nos cassinos, o lucro vem quando o usuário perde. No mercado preditivo, é completamente diferente. A diferença é que a Kalshi não ganha quando as pessoas perdem. Faz dinheiro na taxa por transação. Queremos que aqueles que vencem continuem trazendo informações para o mercado e continuem ganhando — afirmou. — Estamos muito esperançosos de que viremos para o Brasil em breve, mas teremos que trabalhar com o governo também. Vamos ver. 'Há risco em todo lugar' Confrontada com a percepção das pessoas em geral de que a Kalshi é só mais uma forma de aposta ou jogo de azar que pode levar pessoas a perder dinheiro e se endividar, ela respondeu que não vê o mercado preditivo como algo que possa viciar pessoas, mas baseado em análises objetivas e expertises das pessoas sobre temas que as interessam. Afirmou que, quando usuários perdem muito, a plataforma pede prova de fundos, de que a pessoa tem condições de continuar na plataforma. O entrevistador perguntou como ela vê estudos que mostram que usuários perdem tanto na Kalshi como em jogos de azar. Ela respondeu: — Obviamente, as pessoas perdem dinheiro na Kalshi, há risco em todo lugar. Mas acho que é preciso olhar para isso no contexto de outros mercados, como o day trade (compra e venda no mesmo dia) de ações, cripto, futuros (derivativos), bets esportivas... Todas as taxas de perdas são significativamente mais altas. As pessoas dizem que a taxa de perda em mercados preditivos é 70%, eu acho que day trade de ações ou futuros é 95%. Então, no fim do dia, há risco em qualquer uma dessas opções, mas acho que o mercado preditivo, por ser mais intuitivo para as pessoas, você ainda está conseguindo um modo mais seguro para as pessoas negociarem. Filho de Trump como consultor Luana destacou ainda que a Kalshi tem um foco importante hoje em expandir sua supervisão do mercado para evitar insider trading (negócios feitos a partir de informação privilegiada) e só cobre temas que são relevantes economicamente, mesmo política e esportes. E por isso ela vê como um grande potencial o uso da plataforma como uma forma de hedge (ferramenta financeira de proteção contra um determinado resultado futuro), a partir de alguns experimentos que têm sido feitos. Ela confirmou que Donald Trump Jr., filho do presidente dos EUA, atua como consultor da Kalshi, mas, ao ser perguntada pelo entrevistador, negou conflito de interesses. Ela afirmou que ele atua junto à empresa por ser um entusiasta do setor e de inovações tecnológicas e afirmou que a família Trump não participou como investidora da última rodada de investimentos da empresa, que a avaliou em US$ 22 bilhões e tornou a brasileira a primeira jovem do país a se tornar bilionária sem ser herdeira. Otimismo brasileiro no sangue No início da conversa, o entrevistador lembrou que Luana é conhecia pela disciplina e persistência, e especulou que isso pode ter a ver com sua formação original como bailarina, o que ela concordou. Ela nasceu em Belo Horizonte, mas contou que passou a maior parte de sua vida no Rio e que estava feliz de retornar à cidade para falar da Kalshi. Ela falou que herdou do Brasil, além de uma educação sólida que a ajudou a aprofundar conhecimentos matemáticos no MIT, o otimismo do brasileiro. A visão de que as coisas sempre acham um jeito para dar certo. Com a valorização da Kalshi, ela se tornou a brasileira a primeira jovem do país a se tornar bilionária sem se herdeira. Estrutura enxuta graças à IA A bilionária brasileira revelou que a empresa tem apenas 170 funcionários e que gosta de mantê-la enxuta para que haja no máximo um intermediário entre a direção e cada um dos empregados. Colabora para isso o fato de a Kalshi estar se desenvolvendo em plena era da inteligência artificial, ela afirmou: — Eu acho que somos muito sortudos de ampliar a empresa agora, no mundo da IA. Cada engenheiro tem cerca de 20 agentes Claude (IA da Anthropic) fazendo muito trabalho e podemos ser muito mais eficientes do eu acredito que são a maioria das empresas. Engenheiros, designers e especialistas em marketing e supervisão do mercado são os profissionais que a empresa busca contratar, mas ela frisou que pretende manter uma equipe enxuta, de no máximo 300 ou 400 empregados no futuro. Luana repetiu seu otimismo em relação ao mercado preditivo, defendendo que os temas tratados na plataforma são mais intuitivos e humanos que ações de empresas. São temas que mobilizam as pessoas em conversas do cotidiano, defendeu. Nesse sentido, ela disse confirmar uma declaração anterior sua prevendo que o mercado de previsões pode superar o de ações no futuro. E afirmou que isso poderia acontecer em cinco ou dez anos, mas admitiu sorrindo no final que pode estar sendo muito otimista dado o seu envolvimento com o negócio. A cobertura do Web Summit Rio 2026 na Editora Globo é apresentada pelo Itaú. *Cristina Massari, especial para O Globo
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