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Brasil tem mais em comum com EUA do que com China e líderes precisam falar mais, diz Nicholas Burns | Collector
Brasil tem mais em comum com EUA do que com China e líderes precisam falar mais, diz Nicholas Burns

Brasil tem mais em comum com EUA do que com China e líderes precisam falar mais, diz Nicholas Burns

Os Estados Unidos tomaram uma decisão equivocada ao impor novas tarifas comerciais, na semana passada, para parceiros comerciais amigos, incluindo o Brasil, país que tem muito mais coisas em comum com os americanos do que com a China. A avaliação é de Nicholas Burns, ex-embaixador dos EUA na China e na OTAN, professor da Universidade de Harvard e um dos mais experientes diplomatas americano. Para Burns, o livre comércio é benéfico para todos e durante a globalização mais de 2 bilhões de pessoas no mundo saíram da pobreza e ascenderam à classe média. Para ele, é preciso reconstruir a relação entre os EUA e o Brasil e seus líderes precisam falar mais. — Pessoalmente, eu não me sinto bem sobre isso (tarifas impostas pelos Estados Unidos a seus parceiros comerciais). Fui educado na cartilha do livre comércio. Eu penso que menos tarifas e livre comércio são benéficos a todos: para o Brasil, grande exportador agrícola, e para meu próprio país. Houve muita prosperidade durante a globalização, talvez perto de 2 bilhões de pessoas saíram da pobreza para a classe média. Eu acho que (taxar) não é inteligente e espero que os Estados Unidos voltem ao livre comércio no futuro. É preciso reconstruir as relações entre os dois países e seus líderes precisam falar mais — disse Bruns, que participou nesta terça-feira de um evento organizado pelo Instituto Diálogos, fundado pela senadora e ex-ministra da agricultura Tereza Cristina (PP-MS) e realizado no Teatro do Shopping Iguatemi, em São Paulo. O encontro discutiu a situação geopolítica mundial e como o Brasil se insere no atual contexto. Participaram empresários, autoridades, diplomatas e representantes do setor produtivo.​ O Instituto Diálogos foi criado com o objetivo de promover o debate com diferentes visões, e difundir conhecimento sobre grandes temas presentes nos cenários nacional e internacional. Burns lembrou que, além do Brasil, outros países taxados pelos EUA são parceiros comerciais amigos dos americanos, como Japão, Coreia do Sul, Índia. — Parceiros comerciais crescem mais próximos uns dos outros e não distantes. Eu não acho que nós fazemos um bom trabalho tratando nossos amigos mal, considerando nosso interesse pessoal, e erguendo barreiras ao redor do mundo — avaliou. O ex-embaixador disse que EUA e Brasil têm muito mais coisas em comum do que Brasil e China. — Nós somos duas democracias. Espero que isso não pareça arrogante, mas somos as duas nações mais importantes no hemisfério ocidental, o Brasil e os Estados Unidos, pela virtude das nossas economias, pela virtude da nossa população, pela virtude da nossa história. Os dois países competem em algumas áreas, mas ambos têm que ser amigos — defendeu ele, que reconhece, entretanto, que os chineses são os grandes competidores global dos americanos. — A China produz 33% de todos os bens manufaturados do mundo. E, em 2030, produzirá 40%. Então temos que admirar o fato de que a China construiu essa economia extraordinária. Mas não é sustentável para o Brasil, os Estados Unidos, a União Europeia, o Japão, a Coreia do Sul e a Índia, que a China tenha 40% de toda a fabricação do mundo — ponderou. Ele defendeu que os Estados Unidos trabalhem em parceria com os chineses, inclusive para reduzir as emissões de CO2, já que a China é responsável por 30% e os EUA por 10%. — Eu acho que não importa quem seja eleito presidente nos EUA em 2028, republicano ou um democrata, homem ou mulher. O eleito nos levará de volta para a cooperação com a China — previu. Burns disse que o mundo passou de uma relativa ordem para o estado de desordem. — Nós tínhamos o Acordo General sobre Terrorismo e Comércio, e nós tínhamos a Organização Mundial de Comércio. Havia disputas de comércio, que são normais e você ganha ou perde. Mas o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) está completamente congelado. EUA, a França, o Reino Unido, vetam tudo o que a China e a Rússia querem, e vice-versa. Precisamos da reforma do Conselho e o Brasil precisa fazer como membro permanente. Não podemos ter instituições multilaterais que não podem funcionar — avaliou Ao mesmo tempo, disse Burns, poderes autoritários como China, Rússia, Irã e Coreia do Norte, estão trabalhando juntos e estão confiantes. — Nós estamos falhando. Não queremos viver em um mundo onde os poderes autoritários estão em ascendência. Ricardo Zúñiga, ex-subsecretário do Gabinete de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado dos EUA, diplomata e ex-cônsul dos EUA em São Paulo, que também participou do evento, concorda que o mundo que existiu antes de janeiro de 2025 (quando o presidente Donald Trump tomou posse) não vai existir mais. Mas é otimista é diz que o mundo atual não vai ser o mesmo em 2030. — Os Estados Unidos vão mudar de novo. Esta administração é muito diferente de qualquer outra dos últimos 100 anos dos Estados Unidos. E o próximo governo provavelmente vai ser um pouco mais ortodoxo, mais alinhado com a política tradicional — observou. Zúñiga também defendeu que EUA e Brasil precisam trabalhar juntos, e lembrou que o Brasil é um dos mais produtores do agro mundial e detentor de reservas importantes de terras raras. — O Brasil pode construir, junto com os Estados Unidos, mas também com a Europa, com a Coreia do Sul, com o Japão, com a Índia uma cadeia da produção de terras raras totalmente independente da China, que domina (o mercado) hoje. O Brasil e os Estados Unidos têm um futuro que precisa ser construído agora e planejado não para os próximos dois anos, mas para 20 ou 30 anos — disse. Marcos Jank, professor e coordenador do centro Insper Agro Global, disse em sua participação no debate que há muitas oportunidades para o Brasil se inserir nessa nova ordem global através das commodities. Para ele, depois do episódio de fechamento do Estreito de Ormuz na guerra entre EUA e Irã o mundo vai ser diferente e os países vão buscar segurança alimentar e de energia em outras geografias. Ele lembrou que poucos países dominam o setor de commodities — e o Brasil é um deles, especialmente nos produtos agropecuários. — É preciso fazer um mapeamento do que está acontecendo no mundo em comodities. Elas são uma grande oportunidades e são poucos os países que dominam petróleo, terras raras, minerais, produto agropecuários. É preciso discutir o valor adicionado que pode ser gerado nas commodities através de parcerias internacionais. Esta poderia ser uma agenda de cooperação entre Estados Unidos e Brasil na questão dos minerais críticos, e não de ataques entre os dois países. É preciso construir valor adicionado nas matérias primas, o Brasil é bom nisso e pode fazer — disse Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco dos Brics, afirmou no debate, que mesmo com 200 anos de relações comerciais com os EUA, os próximos cinco anos serão mais importantes. Isso porque o mundo entrou num módulo de operação das relações políticas, econômicas e internacionais, que é muito perigoso, na avaliação do especialista. — Tem um professor da Universidade de Columbia, o Adam Tooze, que diz que quando você tem uma crise internacional, as pragas vêm uma depois da outra, como se fosse na Bíblia. Veio a Covid, a situação no Oriente Médio, a guerra no coração da Europa, as duas superpotências (China e EUA) numa situação que muita gente chama de Guerra Fria 2. Então, é nessa moldura que o Brasil não apenas tem que se inserir, mas tem que se relacionar também com os Estados Unidos — disse Troyjo.

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