Jornal O Globo
Integrantes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR) ainda não conseguiram chegar a um acordo com a defesa do banqueiro Daniel Vorcaro sobre a proposta de delação premiada, que está sendo negociada desde março, quando ele foi preso preventivamente pela segunda vez. Integrantes da PF consideram que os anexos entregues até agora carecem de fatos novos e meios de provas, condição essencial para uma colaboração. Também há uma percepção entre eles de que o banqueiro não está disposto a cooperar e estaria só tentando ganhar tempo longe de um presídio comum. Após firmar um acordo de confidencialidade, que marcou o início das tratativas, Vorcaro foi autorizado a ficar numa cela especial na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, onde recebe diariamente os advogados das 9h às 17h. Interlocutores da defesa do banqueiro, por sua vez, alegam que o material entregue na semana passada traz um conjunto de histórias inéditas e é consistente. Para eles, há uma avaliação de que os investigadores estão com má vontade em prosseguir com o acordo. Os integrantes da PGR, por sua vez, ainda seguem analisando os novos anexos apresentados por Vorcaro, mas mantém um tom de cautela. Nos bastidores, a avaliação é que ainda não há elementos suficientes para uma definição sobre o futuro da proposta. Segundo eles, a nova proposta precisa ainda demonstrar de forma mais clara a capacidade de entregar fatos inéditos e elementos de corroboração. Um dos pontos observados é a necessidade de que as informações precisam ser confirmadas por documentos, registros ou outros meios de prova independentes. Segundo relatos feitos ao GLOBO, há dúvidas sobre a extensão do material que Vorcaro ainda consegue acessar para sustentar determinadas afirmações. Parte da documentação potencialmente relevante para a apuração já não estaria sob seu controle direto desde a liquidação do Banco Master e a transferência da gestão para um administrador responsável pelo processo. A PF e a PGR têm adotado estratégias distintas nas tratativas com o dono do Banco Master. Em maio, os delegados decidiram se retirar da mesa de negociações e depois retomaram as conversas, enquanto os procuradores continuaram em contato com os advogados. Eles consideram que, apesar da proposta ainda ser insuficiente, um detalhamento maior poderia ser obtido na fase dos depoimentos, o que só deve acontecer se a PGR ou a PF derem sinal verde ao acordo. Comandados pelo criminalista Sérgio Leonardo, os advogados correm contra o tempo para destravar as negociações, uma vez que os investigadores indicaram o mês de julho como prazo máximo para evitar a contaminação com o processo eleitoral. O benefício dado a Vorcaro nas visitas dos defensores em sua cela se encerra nesta sexta-feira. A partir de então, o banqueiro deve ser submetido ao procedimento padrão da superintendência: visitas de até dois advogados com limitação de 30 minutos para cada. Histórico Após uma primeira versão da proposta ser rejeitada em maio, a defesa do banqueiro entregou novos anexos na segunda-feira passada. O conteúdo foi escrutinado por integrantes da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR) ao longo da última semana e durante o feriado de Corpus Christi. A tendência hoje é que, da forma como está, o material seja recusado novamente pelo entendimento de que ele não vai muito além do que já foi descoberto nas oito fases da Operação Compliance Zero, com a apreensão de celulares e documentos. Uma nova reunião entre os advogados e os integrantes da PF e PGR está prevista para ocorrer nesta semana para discutir os próximos passos do acordo. Os investigadores ainda não tomaram uma decisão definitiva se pedirão novos complementos ou se interrompem as negociações. Eles dizem que, apesar da eventual rejeição dos anexos, o investigado sempre terá o direito de fazer uma nova proposta quando achar conveniente. Um acordo de colaboração premiada é um meio de obtenção de provas e prevê, entre outros pontos, a confissão de crimes e o pagamento de multa. Em troca, o investigado obtém benefícios, como redução de pena, progressão de regime etc. Para ter validade jurídica, a delação precisa ser homologada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator do caso Master na Corte. E o ministro já deu indicativos de que não irá concordar com a colaboração se ela não acrescentar fatos novos à apuração. Se o acordo não for adiante, a PF e a PGR ficam impedidas de utilizar o conteúdo dos anexos já entregues.
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