Jornal O Globo
Poucas afirmações podem ser mais injustas e preconceituosas do que "Nova Jersey é a Niterói de Nova York", piadinha sem graça para descrever a guerreira comunidade do outro lado do rio Hudson em relação à cidade que nunca dorme, que abriga a seleção brasileira na preparação para a Copa do Mundo. Nova Jersey, também chamada apenas de Jersey (ou "Jâzi", no dialeto local) é um estado de verdade, talvez sem o encantamento de Nova York, mas com seus próprios méritos, notadamente na cultura, interesse deste blog. Antes deles, alguns dados interessantes: Nova Jersey é um estado; a cidade que fica do outro lado da baía em relação a Nova York é Jersey City; a capital do estado é Trenton (seguindo a norma americana de que as maiores cidades raramente são as capitais dos estados), e a principal cidade é Newark, onde fica o concorrido aeroporto internacional onde o Brasil desembarcou. É comum descer em Newark para se ir a Nova York: numa googlada, descobre-se que são 35 minutos de viagem, contra 46 do badalado JFK (o aeroporto John Fitzgerald Kennedy) até Manhattan. Nova Jersey tem uma população de cerca de 9,5 milhões de habitantes (contra 20 milhões do vizinho Nova York) e uma das maiores rendas per capita dos Estados Unidos. Lá fica a universidade de Princeton, uma das mais tradicionais do país, na cidade que lhe empresta o nome. COLUNAS: Romário, Ana Thaís, Paulo André e um time de colunistas para contar a Copa do Mundo no GLOBO CORO DOS DESCONTENTES: Ian Wright, ex-atacante da seleção inglesa, critica Mundial de 2026: 'Copa do Mundo do caos' A fama de trabalhadores do povo do Garden State ("o estado-jardim"; todos têm um apelido fofo-brega) o levou a ser cantado em verso e prosa por um de seus principais garotos-propaganda. Bruce Springsteen, hoje com 76 anos, nascido em 1949 na pequena Long Branch, construiu uma carreira contando as histórias da classe trabalhadora (chamada de "blue collar") e seus esforços para botar comida na mesa, sem esquecer o romance (como diria Chico Buarque, sem um carinho, ninguém segura esse rojão). Mais conhecido no Brasil por "Born in the USA", de 1985 (que não é uma louvação ao país, como já se pensou, mas uma crítica à Guerra do Vietnã, contada a partir de um veterano), Bruce já confessou que nunca viu o interior de uma fábrica (embora seu pai tenha trabalhado em uma), mas que a vida em Jersey lhe permitiu ser o cronista de sua gente. Herdeiro direto e confesso de Springsteen, o grupo Bon Jovi (formado em 1983 em Sayreville, subúrbio de Nova York, mas em terras de Nova Jersey) segue a linha das agruras e pequenas alegrias da classe trabalhadora, em músicas como "Livin' on a prayer" (seu maior sucesso, que conta a história do casal Tommy e Gina, um trabalhador do porto e uma garçonete), além de, assim como Bruce, investir pesado e açucarado no rock romântico. Um dos discos de maior sucesso do Bon Jovi se chama "New Jersey", de 1988. E não é só o rock: gêneros como o hip-hop (com a Sugar Hill Gang), r'n'b (Kool & The Gang) e outros também têm firmes raízes no estado. O grupo The Four Seasons é tão identificado que ganhou um musical de sucesso chamado "Jersey boys", ou "os meninos de Jersey". A banda de horror punk The Misfits, um nome de peso do gênero, é mais uma da região, da cidade de Lodi. Mas o maior nome saído de terras jerseyanas nasceu em Hoboken, no dia 12 de dezembro de 1915: Francis Albert Sinatra levou "New York, New York" para o mundo, mas suas raízes estavam lá -- inclusive nas supostas amizades perigosas. Sam Giancana, Carlo Gambino e Willie Moretti eram três dos cappi amigos do Blue Eyes, que negava tudo. Mas, como os Sopranos mostraram brilhantemente na série veiculada entre 1999 e 2007, que hay mafiosos em New Jersey, hay. Sopranos: série faz 25 anos em janeiro de 2024 HBO
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