Jornal O Globo
A era da comunicação digital transformou as relações e interações entre quem comunica e a audiência. A disputa pela atenção dos espectadores (e consumidores), contrapondo conteúdo bruto, orgânico, com produções bem lapidadas foi o mote de um dos painéis do Rio Web Summit 2026 hoje. Atualmente, o conteúdo mais assistido na internet é o gravado com celular, iluminação ruim e sem roteiro. A era do feed polido, cuidadosamente selecionado e produzido em estúdio parece que chegou ao fim. Será? É mais difícil fazer as pessoas rirem ou pararem num post por mais de um segundo antes de voltar a rolar sua timeline? Bilionária brasileira: Luana Lopes Lara diz que Kalshi quer chegar ao Brasil e promete diálogo com governo após veto a mercados preditivos Web Summit Rio 2026: Acompanhe a cobertura do GLOBO Sob o tema "O feed perfeito está morto", o debate tentou responder a essas perguntas com a participação do ator e fundador do portal de humor Porta dos Fundos, Fábio Porchat; da cantora Juliette Freire Feitosa, vencedora do BBB 21 e atualmente com 47 milhões de seguidores nas redes sociais; e Rodrigo Moran, líder global de Criação da Meta, responsável pela estratégia criativa para a família de Aplicativos da empresa que é dona de Facebook, Instagram, Threads e WhatsApp. Eles conversaram sobre o tema com a jornalista e criadora de conteúdo especializada em inovação, moda e comportamento Maria Prata. Porchat foi o primeiro a discutir o desafio de reter a atenção nas redes sociais: — Impossível fazer as pessoas pararem de rolar o feed. Até dá para rir com uma desgraça ou outra. Mas pararem com a rolagem do feed está mais complicado. Quando o Porta dos Fundos começou, em 2012, as pessoas diziam, nem parece internet. Parece TV na internet. Fazíamos televisão na internet. Tínhamos equipamento e lançávamos com um tipo de qualidade. Mas, numa época em que não disputávamos atenção com as redes sociais. Disputávamos com a Globo... Não tinha nem Netflix. Hoje disputo atenção com alguém espremendo espinha — disse Porchat, arrancando risos da plateia do Web Summit. Investimento de US$ 550 milhões: Prefeitura anuncia expansão de hub de data centers E complementou, destacando que a maior competição por atenção com mais conteúdo disponível provoca uma tendência de maior fragmentação do conteúdo em blocos curtos: — A gente escreve, produz, edita, passa por uma série de possibilidades, e quando a gente lança a pessoa que está gostando assiste 6 segundos, diz "adorei" e passa reto. Em seguida, já vai para uma mulher ensinando você a cuidar da sua criança. A disputa pela atenção tornou-se impossível. Um vídeo do Porta dos Fundos de 5 minutos que fazíamos em 2012 era a coisa mais rápida que já se tinha visto. Hoje, 5 minutos é a Bíblia narrada pelo Cid Moreira. A coisa tomou outra porção. Rodrigo Moran, da Meta, afirmou que o conteúdo bem produzido funciona desde que haja identificação com o público e é disso que depende o engajamento da audiência. — O conteúdo perfeito funciona desde que o que você crie e tenha uma ideia e as pessoas se identifiquem com ela. Tem o outro lado que é fazer uma coisa autêntica, que funciona e viraliza de um jeito absurdo. Usamos métricas para acompanhar conteúdo. A principal métrica, se você olhar o comportamento humano, quando a pessoa está no celular, ele te dá 3 segundos de atenção. Depois, ou você está fora ou engajou com o conteúdo. Esses 3 segundos iniciais têm que ser super bem feitos — afirmou o executivo. — Se você produz um conteúdo que é super-rápido e superautêntico e as pessoas tendem a se identificar, isso tende a funcionar muito bem. As marcas sofrem com isso porque pararam de entender como funciona. Tem um lado do conteúdo cru que funciona e tem o lado do conteúdo super bem-feito que funciona, mas tem que ter uma ideia e tem que criar algo com o que as pessoas se identifiquem e principalmente nos primeiros momentos que a pessoa vê. Tudo fica velho rapidamente Porchat comentou sobre "Mauro Cesar", um personagem que em feito no Instragram: um gestor de crise, que faz sátiras sobre pautas quentes, notícias do dia de qualquer lugar em que o ator esteja, somente com um celular. — A ideia do Mauro Cesar foi exatamente criar esse resolvedor de crise, e que eu pudesse gravar onde eu estivesse. Gravo onde for, mas tento sempre dar a ele uma cara, um conceito. Ele está sempre em um lugar estranho, com um figurino esquisito. Ele está pelado, só de avental ou nu, ou com uma camisa estranha... Para criar uma identificação no sentido de entender que não é só o Fábio falando. Porchat afirmou que Mauro Cesar foi uma resposta que o Porta dos Fundos encontrou para gravar temas atuais de forma mais rápida. E revelou o lançamento hoje de um novo personagem: — Ontem gravei na minha casa o Alienígena, que vamos lançar hoje à tarde. Botei papel de alumínio na cabeça, peguei um casaco de couro para tentar fazer a coisa mais estranha e fui num lugar com luzes esquisitas lá em casa. Mas o texto é o principal, com um assunto quente. No caso do novo personagem, o texto é de Gabriel Esteves, roteirista do Porta dos Fundos, que deu a ideia do novo quadro., que vai tratar de temas do momento, gravados no mesmo dia. — Mas é tudo tão rápido que o Alienígena já está velho. O tempo de escrever, fazer a redação final e gravar já está velho. Quando a Itália não classificou para a Copa do Mundo, ele escreveu o da Itália, eu não podia gravar no dia, e no dia seguinte ninguém mais falava sobre a Itália. Nem fizemos o texto. Tenho medo de daqui a dois dias ninguém mais falar desse assunto. As coisas estão acontecendo tão rápidas que nem o quente é quente. Arranjamos um jeito de produzir tudo em um dia e quase que está no limite. Para Juliette, Maria Prata perguntou se as pessoas querem ver verdade no feed. E também se isso significa aprisionamento para o criador ou necessidade de exposição da vida pessoal. — Em relação ao feed perfeito, e estética refinada, apurada, isso não é ponto central. É mais a coerência, a verdade, o orgânico, o que tem narrativa com seu público — respondeu uma das mais populares campeãs do BBB. — A verdade é mais importante que o feed estar bem feito. A publicidade entrou na pauta da conversa e este foi um gancho para Juliette trazer a sua história como exemplo. Ele diz ter descoberto que a melhor forma de manter conexão com o público é expressar sua autenticidade: — Meu desafio é o conteúdo produzido. Apesar de ter explodido nas redes sociais, com a verdade com o orgânico, com o não produzido, venho de outras histórias. As pessoas conhecem meu story telling (narrativa). Sou filha de mecânico, nasci dentro de uma oficina. Quando fui embaixadora de uma marca de automóveis as pessoas até estranharam. Foi uma publicidade muito bem organizada. Eu fiz o que pediam e disse que queria também fazer uma peça com a minha linguagem, dizendo o que eu precisava falar. Postei uma foto, simples. E a legenda falava que eu nasci numa oficina, que eu entendia o poder da autonomia, da tecnologia, da liberdade, da autoconfiança e da autoestima. No fim, eu dizia: "Hoje a filha do mecânico é embaixadora de uma das maiores autotechs do mundo". E simplesmente viralizou. Foram milhões e milhões de curtidas em uma foto simples. E conseguimos alcançar o objetivo que é narrativa, verdade e conexão. Para a influenciadora, cada um tem um vasto repertório de histórias que podem ser aproveitados para conectar com outras pessoas via rede sociais. —Temos uma vida de muito repertório, muitas vivências e muitas experiências. A publicidade tem que ter essa sensibilidade. E você tem que ter esse olhar para filtrar coisas que façam sentido na sua trajetória e comuniquem com o seu público. Tenho o prazer e o privilégio de fazer isso com as marcas com que eu trabalho e que façam sentido com a minha história: é um automóvel, uma motocicleta, um produto de beleza, maquiagem. E o público sente essa verdade porque vê coerência. O sucesso da publicidade é essa verdade e coerência com o influenciador, o artista ou a personalidade com quem trabalha. 'Haters' fazem parte do negócio E se falamos em mídias sociais, engajamentos e likes, os haters também foram lembrados na conversa. Segundo Porchat, muitas vezes, o que eles buscam com ofensas e outras ações agressivas é um um pouco de atenção. Juliette deu sua receita par lidar com eles: — Tem horas que estou forte. Busco me fortalecer cada dia mais, me conhecer, para que nem o maior elogio nem a maior crítica me atravesse. Nem sempre é sobre mim. Quando a gente se conhece bem, sabemos o que é que pode acrescentar e o que pode machucar. Estamos em era de muita tecnologia, mas não podemos perder a humanidade e a sensibilidade e a verdade, que é o mais importante. A cobertura do Web Summit Rio 2026 na Editora Globo é apresentada pelo Itaú. (*Cristina Massari, especial para o Globo)
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