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O lado bom de uma má notícia | Collector
O lado bom de uma má notícia

O lado bom de uma má notícia

A suspensão temporária da vacina contra a dengue do Instituto Butantan é uma notícia que preocupa e entristece. O Ministério da Saúde interrompeu a aplicação após a identificação de 42 eventos adversos possivelmente relacionados ao imunizante, entre cerca de 500 mil doses aplicadas. Três casos foram graves, incluindo dois óbitos ainda em investigação. Até agora, não há conclusão de que a vacina tenha causado essas mortes. A medida é dura, mas correta. Vacinas continuam sendo monitoradas depois da aprovação, quando passam a ser usadas em larga escala. Eventos muito raros podem aparecer nessa fase. Quando surge um sinal de alerta, o sistema precisa parar, investigar e decidir com base em dados. Isso não é fracasso da ciência. É farmacovigilância funcionando. E isso precisa ser valorizado: toda a cadeia de eventos funcionou e as decisões foram tomadas em tempo e corretamente. Isso é digno de reconhecimento e elogios. Também é importante evitar confusão. A suspensão se refere à vacina do Butantan, aplicada principalmente em profissionais da atenção primária e em projetos-piloto. A Qdenga, vacina da Takeda já oferecida pelo SUS para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos em municípios selecionados, e no setor privado para pessoas entre 4 e 60 anos, não foi afetada pela decisão e segue recomendada conforme as orientações oficiais. Para quem recebeu a vacina do Butantan, a orientação é observar sintomas nos 21 dias seguintes à aplicação. Febre persistente, dor abdominal intensa, vômitos repetidos, sangramentos, tontura, sonolência importante, manchas na pele ou piora do estado geral exigem avaliação médica. Quem foi vacinado há mais de 21 dias e está bem não precisa tomar nenhuma providência especial. Tudo vem sendo esclarecido e divulgado com clareza e transparência, o que é também elogiável. Agora é preciso impedir que grupos antivacina transformem uma decisão aplicada a uma vacina específica, que ainda está sob investigação, em “prova” para suas teorias conspiratórias e negacionismo vacinal. Dengue é uma doença grave. O Brasil conhece suas epidemias, internações e mortes. Precisamos de vacinas seguras e eficazes, mas também de controle do mosquito, saneamento, vigilância, educação para prevenção, ação coletiva, diagnóstico precoce e atendimento rápido aos sinais de alarme. Nenhuma medida substitui a outra. O Butantan tem enorme importância para a ciência brasileira. O SUS e o Programa Nacional de Imunizações são patrimônios do país. Justamente por isso, precisam ser defendidos com transparência, como foi o caso. A suspensão da vacina do Butantan é uma má notícia. Mas colocou um sistema à prova e ele passou no teste. Detectou eventos adversos, interrompeu a aplicação da vacina por precaução, está investigando com rigor - e assim está protegendo a população. Isso deve gerar confiança em nossa saúde pública, no SUS. Nossas autoridades demonstraram vigilância, responsabilidade e transparência na prestação de contas à população.

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