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Sabores e aromas portugueses: Esporão aposta em vinhos e azeites orgânicos para conquistar os consumidores brasileiros
Jornal O Globo

Sabores e aromas portugueses: Esporão aposta em vinhos e azeites orgânicos para conquistar os consumidores brasileiros

Entre os maiores produtores de vinhos de Portugal, o premiado Esporão tem vinhedos em três regiões de Portugal: Alentejo, onde estão fincadas suas origens; o Douro; e Vinhos Verdes. O Brasil é seu segundo maior marcado, perdendo apenas para o interno. Em visita ao Rio, o CEO José Luis Moreira da Silva conta que a marca espera aumentar das vendas de vinhos para o país, apostando no aumento do consumo. O azeite também ganhou muita importância, e 200 hectares de vinhedos foram arrancados para dar lugar a olivais. Moreira da Silva destaca a opção da marca pela produção orgânica, que só não consegue ser implementada na região de Vinhos Verdes, em razão do clima. E revela que o restaurante da vinícola, na Herdade do Esporão, dono de uma estrela Michelan e uma verde, mudou totalmente a oferta e se tornou mais democrático. Confira a entrevista exclusiva ao Saideira: José Luis Moreira da Silva, CEO do Esporão Divulgação / Esporão Os mais vendidos "O vinho mais vendido do Esporão no Brasil é o Monte Velho, mas o Bico Amarelo está logo atrás. A diferença não é quase nenhuma. É curioso porque são vinhos tão diferentes. Acredito que o Monte Velho é muito vendido pelo reconhecimento da marca. É também a marca que mais vende em valor em Portugal. No mercado português é a marca com mais valor em vendas. E percebo que, no Brasil, é um pouco o que acontece em todo o mundo, e o Monte Velho é uma marca também com uma boa performance. No caso do Bico Amarelo, parece ser o perfil certo para o consumidor brasileiro. Além de ter todo o laço sugestivo da própria marca, as próprias cores do rótulo, o pássaro, enfim, tudo isso acredito também ajude o vinho a performar melhor no país." O vinho Monte Velho, do Esporão Divulgação / Esporão O mercado "O Esporão exporta para 60 países. São quase 15 milhões de garrafas. Nosso maior consumidor é Portugal, que em valor corresponde a 40% das vendas. E o Brasil, a 30%. Em volume, Portugal representa 60%, e o Brasil corresponde a 20%. No entanto, acreditamos que, a curto prazo, irá passar Portugal. A nossa expectativa, que em 2, 3 anos acho que pode acontecer. Temos também um trabalho da Qualimpor, a distribuidora, que pertence ao Esporão. Começamos em 1997, portanto, temos um longo caminho de mercado. E há um reconhecimento da Qualimpor pelo mercado, por um trabalho feito ao longo destes anos todos e que permite olharmos para as oportunidades com maior otimismo." Acordo Mercosul e União Europeia "Não tenho dúvida de que o acordo Mercosul e União Europeia terá um impacto positivo nas vendas de vinhos para o Esporão. Não acredito que seja imediato. A descida das taxas é muito gradual, vai acontecer ao longo dos próximos anos. Este ano, ela é muito pequena, e o câmbio pode até ter um impacto maior. No final de 2028, já começa a ser uma redução que se pode traduzir na ponta, para o consumidor. A taxa de imposto atualmente é 24%. No fim de 2027, vai para 21%. Em 2028, a taxa vai para 18%, estamos a falar em 6 pontos percentuais. Achamos que nosso aumento de vendas será claramente maior no Brasil, já que nós quase não vendemos vinhos para os outros países do Mercosul. O Brasil é nosso segundo maior mercado, perdendo apenas para o interno. O Brasil ainda tem um consumo per capita muito baixo de vinho, e, apesar de haver números que apontam até para uma ligeira estabilização, acreditamos que vai crescer. As pessoas uma vez ou outra vão provando vinho, isso tem um impacto no consumo. Enquanto que Portugal, por ter o consumo muito mais maduro e consumo per capita muito mais elevado, acho que é difícil aumentar. Nós temos um portfólio de inovação que eu diria que é bastante grande, que acredito que vai ajudar a trazer mais vendas. Estou a pensar, por exemplo, em produzir espumantes, que não vendemos no Brasil, além de vinhos com menos teor alcoólico. Não falo de desalcoolizados, mas vinhos naturalmente com menos teor alcoólico." A safra de 2025 "A safra de 2025 foi boa em qualidade, mais do que em volume. Para dizer a verdade, foi uma safra em termos de volume menor que o habitual. Em termos de qualidade, sim, foi boa. No Alentejo foi marcada por um período de verão muito quente. E no Douro também, e isso acabou por ter o impacto no que foi o ciclo de maturação das uvas. E na região dos Vinhos Verdes, acabou por ser um ano com alguma pressão no final, já com chuvas e, portanto, foi uma vindima que acabou por acontecer até um pouco mais cedo, de boa qualidade de certa forma e de menor número. Já temos alguns vinhos dela no mercado. Nomeadamente, o Monte Velho e o Bico Amarelo, por exemplo. Mas temos vinhos que ainda estão a estagiar." Expectativa para a safra 2026 "A expectativa é sempre a melhor. É sempre um lado otimista. A verdade é que o ano arrancou com muita chuva, o que é bom. E repousa a água no solo. Estamos agora a entrar em maio, que é um período mais crítico, a floração, e estamos a ter muita chuva. Pode ter um impacto na quantidade. Vamos ter que esperar que isto passe para ter uma ideia concreta." A sala de barricas da Herdade do Esporão Divulgação / Esporão Produção orgânica "Tudo o que é produzido com as nossas uvas, no Douro e no Alentejo, é orgânico. Nós somos 100% orgânicos no Alentejo desde 2019 e no Douro desde 2021. Nos Vinhos Verdes não, ali será difícil por causa do clima. E das nossas azeitonas, o azeite. Vinho e azeite orgânicos, produzidos com a nossa matéria-prima. Nós temos parceiros que já estão a fazer a conversão; e temos hoje fornecedores que estão a produzir da forma orgânica, que vai dar origem a um vinho particular produzido com as uvas deles. O mesmo se passa com as azeitonas. Portanto, eu diria que esse caminho ainda tem uns que não são, que estão em processo. O vinho orgânico tem mais qualidade. Não tenho dúvida. É muito curioso porque a qualidade e o que é a intensidade de sabor são melhores. Um morango produzido numa horta nossa, parece que sabe muito mais a morango. E o mesmo se passa com as uvas e com as azeitonas. Depois, se os enólogos e os oleólogos forem bons, é uma questão de transformar isso num bom produto. Eu diria que a grande diferença está na qualidade. E ainda que resulta no que é este equilíbrio do ecossistema, ou seja, de ter também as plantas mais resilientes. E acrescentarei aí o ponto das alterações climáticas, ou seja, nós olhamos também para a agricultura orgânica como um caminho para fazer face às alterações climáticas. Por um lado reduzindo o impacto, ou prevenindo, e por outro criando sistemas, ecossistemas mais resilientes. No fundo, quando falo ecossistema, estou a falar no seu todo, não é? Começa no solo, onde existem 90% dos organismos vivos. Estão no solo, no subsolo, portanto. Fazemos agricultura orgânica e regenerativa. Querendo o termo agricultura orgânica responsável e que realmente procure recuperar o equilíbrio do ecossistema. Diria que a agricultura regenerativa é um passo, faz parte do processo. Nós fazemos e é muito importante. Realmente o solo, sendo a base, tem um impacto muito grande. E ligando ao tema das alterações climáticas no que é o sequestro de carbono, realmente tem um impacto muito grande porque o solo pode capturar carbono. Se for um solo com muito produto químico, fertilizantes químicos e tal, vai capturar menos carbono." Esporão: práticas sustentáveis de olho no futuro Divulgação / Esporão Uvas nativas "É um caminho para nós. Hoje, temos plantadas no Esporão 189 variedades diferentes no Esporão. É o que chamamos de um campo ampelográfico. São 10 hectares, com 189 linhas, cada uma delas é uma variedade, uma uva. E cada linha tem três regimes hídricos diferentes: conforto hídrico, estresse e sequeiro. E o objetivo, quando ele foi plantado em 2011, foi estudar e perceber quais destas variedades são mais resistentes e mais resilientes. Passados estes anos todos, o que nos permite concluir é que as castas tradicionais são aquelas que são as mais resilientes. É muito curioso. Portanto, aquilo que estamos a fazer é voltar a plantar estas castas." Vinhedos do Esporão: produção orgânica Divulgação / Esporão O desafio do cultivo orgânico "O desafio de ter plantações tão grandes com cultivo orgânico é não ter ferramentas curativas, temos só ferramentas preventivas. Isso é muito mais exigente. Por outro, obriga a ser uma agricultura mais de precisão, o que é bom. Eu diria que é mais intensiva no ponto de vista do controle vegetativo, da cobertura vegetal. Durante um período do ano nós conseguimos utilizar as ovelhas, por exemplo, mas a partir daí obriga a um controle rigoroso. Tem que estar o tempo inteiro muito perto do vinhedo, isso faz toda a diferença. A chave do sucesso é essa." Dois vinhos e um azeite "Para quem quiser conhecer o que produzimos no Esporão, indico o Esporão Reserva Tinto. Foi o primeiro vinho que produzimos, em 1985. É o nosso vinho mais emblemático. E representa todo o nosso percurso destes 50 anos. O Bico Amarelo representa a região dos Vinhos Verdes. É resultado de uma inovação, é um produto inovador, de certa forma, que dá resposta também ao que é as alterações dos hábitos de consumo. É um vinho mais leve, com menos álcool, sem açúcar e que revela, de certa forma, um espírito inovador no Esporão. O Bico Amarelo era um vinho que existia exclusivamente para o Brasil. Agora não mais, ele é vendido para todo o mundo. Mas começou para o Brasil. E era um vinho muito adaptado ao mercado brasileiro. Nós sempre acreditamos que esse estilo de vinho verde, em particular o estilo do bico amarelo, iria resultar e assim está a ser. De azeite, minha indicação é o Olival dos Arrifes Orgânico. É um azeite de terroir, da Herdade do Esporão. É uma produção pequena, premium, mas que traduz e revela muito bem o que é a nossa ambição no mundo dos azeites." O vinho Bico Amarelo Divulgação / Quinta do Ameal O mercado de azeites "O consumo de azeite mundialmente vai aumentar, não é? E cada vez são mais visíveis todos os benefícios para a saúde. É um negócio que nós vemos como uma oportunidade também de crescer. No fim do ano passado, arrancamos 200 hectares de vinhas para plantar 200 hectares de olivais. Primeiro por uma necessidade de aumentar a área de olival. Nós temos muitos hectares, mas sentimos é que precisávamos nos ajustar ao que é a demanda do vinho. E também garantir que tenhamos uma diversidade de culturas dentro da nossa propriedade no Alentejo. Essa diversidade é, no fundo, uma boa prática antiga de ter várias culturas dentro do mesmo sítio. E temos uma área contígua de vinha muito elevada. Tínhamos quase uma monocultura. O fato de arrancarmos estes 200 hectares e introduzirmos as oliveiras vai trazer uma maior diversidade. Começamos a plantar os olivais este ano. Serão oliveiras de variedades tradicionais portuguesas. E de material policlonal. O que isso significa? Que não é um só clone. Além de termos diferentes variedades, queremos dentro da mesma variedade garantir que temos uma maior diversidade clonal. No fundo, é como nós. Somos todos diferentes, diversos. E isso traz características no limite maior de resiliência e resistência a doenças, a pragas. E tudo isso é orgânico." Olivais na Herdade do Esporão, no Alentejo Divulgação / Esporão Diferentes variedades de oliveiras "Plantar variedades diferentes de oliveiras pode ter algum efeito positivo porque, realmente, com os azeites, há safra e contrassafra. Há um ano em que a oliveira produz bem e no ano seguinte, vai produzir menos bem. É um ciclo normal dentro do que é a produção de azeite. Há variedades em que isso acontece de uma forma mais evidente, há outras, menos. Umas são mais suscetíveis, outras são menos. O que não é habitual é ter dois anos de contrassafras seguidas. Foi o que aconteceu recentemente no mercado. Isso fez reduzir o estoque de azeite e aumentar o preço. A nossa expectativa é que, trazendo mais variedades, vamos conseguir reduzir esse efeito de safra e contrassafra, mesmo sabendo que ela vai existir. Nós vamos plantar cobrançosa, cordovil, galega e picual." Um restaurante mais democrático Prato servido no restaurante da Herdade do Esporão Reprodução / Esporão "Mudamos a experiência no restaurante da Herdade do Esporão. Agora ela é mais intensa e menor. Mantivemos a proposta do ritmo devagar. O mais devagar é ainda mais urgente, e acho que todos sentimos isso. A campanha mais devagar foi pré-Covid. É incrível como o tempo passa e sentimos uma necessidade, uma atualidade, uma urgência de voltar a falar deste tema. É curioso falar disso. Por outro lado, acabamos de mudar a nossa oferta no restaurante. Ao longo destes 30 anos, já com o restaurante, passamos por vários momentos. Houve uma fase de abertura e de expansão, em que realmente procuravam-se muitos visitantes. Houve o momento de querer reduzir a operação, ter um restaurante com estrela Michelin, uma oferta mais fine dining, mais sofisticada, ligada à origem, com produtos que eram do Esporão de forma sustentável. E o que sentimos é que agora precisamos de uma nova fase, que começou em abril deste ano. É mesmo muito recente. Mantivemos a estrela Michelin e a verde também. A estrela foi atribuída apesar de termos comunicado a mudança. Nós queremos avançar, e avançamos. Ou seja, aquilo que é hoje a nossa oferta no restaurante do Esporão não é de fine dining como era no passado. É mais acessível, mais informal, com a mesma qualidade. E com o princípio de sempre, ligado à origem, à sustentabilidade, com desperdício zero. Tínhamos uma oferta muito, eu diria, mais limitada em termos de serviço e passamos a ter uma oferta muito mais acessível. O preço caiu para quase à metade. Podíamos servir 30 refeições por dia, e a nossa missão agora é receber uma média de 50 refeições. Mais importante do que propriamente o número, é a mudança da oferta, ou seja, aquilo que pretendemos. Não esqueça que estamos em Reguengos de Monsaraz, no interior de Portugal. O modelo de fine dining tende a esgotar-se um pouco. E a restauração precisa de se reinventar também, encontrar outros modelos. Nós gostaríamos muito de ser um restaurante de famílias, em que pudéssemos levar as crianças. E uma criança não vai para um restaurante de estrela Michelan. Uma refeição tem muito a ver com o tempo, com essa questão do mais devagar. Queremos perceber de que forma conseguimos aproveitar o tempo da forma que queremos. Hoje em dia, ter 4 horas de refeição ou 3 horas pode ser excessivo. Até pode apetecer e tudo bem, mas pode ser excessivo. Portanto, encontrar aí um modelo mais equilibrado, no sentido de que quem quiser fazer uma refeição de uma hora, pode fazê-la. Com a mesma qualidade, com a mesma oferta quase. Mas quem quiser também fazer uma refeição menos estendida no tempo também pode. É mais democrático, mais acessível, menos formal, o que também está muito associado ao que queremos para o vinho. Esta ideia de o vinho ser mais de nicho, menos acessível, acho que não faz sentido continuar. O próprio vinho deveria se democratizar, tornar-se mais acessível para ser mais bebido por todos." Herdade do Esporão: valorização da identidade portuguesa Divulgação / Esporão Visitantes brasileiros "Os visitantes brasileiros voltaram a aparecer com maior força nesses primeiros meses de 2026. Em 2025, não foi o país com mais visitantes, curiosamente. Foram os americanos ano passado. Mas tradicionalmente eram os brasileiros. Ainda é o início do ano e temos a questão da guerra, tudo está meio virado." Nova experiência com azeites e vinhos "Teremos uma nova oferta de experiência do azeite e do vinho. Ainda não fechamos o que será. Mas será uma experiência diferenciadora, inovadora. É o que nós queremos fazer. Sentimos que é um momento de trazer algo novo também para a operação de turismo. O modelo que existia, que era super valorizado, não contempla mais a nossa visão. Queremos continuar a ser inovadores, temos que procurar estar um pouco à frente. Acreditamos que o próprio consumo de vinho vai passar muito por esse momento de experiências. Então, se queremos, obviamente, proporcionar isso, temos que dar condições, acessibilidade a todos os níveis. Isso passa não só pelo preço, esse exercício de tornar a experiência mais acessível. Nós acreditamos que vai trazer mais pessoas, e trazendo mais pessoas acabam por ter mais contacto com aquilo que nós estamos a fazer. No final do dia, realmente nós queremos comunicar aquilo que fazemos, trazer as pessoas para as nossas origens. Acreditamos que com isso e dessa forma teremos um impacto maior." Initial plugin text

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