Jornal O Globo
Os morcegos conhecidos como “flying foxes”, ou raposas-voadoras, têm sido amplamente subestimados, segundo cientistas. Um novo estudo mostra que esses animais, frequentemente associados a doenças e vistos como pragas, desempenham papel crucial na regeneração de florestas e na economia da Austrália. Entenda: Mistério astronômico de 50 anos é resolvido por missão japonesa ‘Super-família’ das profundezas: Pesquisadores descobrem 24 novas espécies de animais a 6 mil km de profundidade na costa do México; veja A espécie “grey-headed flying fox”, uma das maiores do mundo, pode pesar mais de 900 gramas e atingir envergadura superior a 1,5 metro. Ao migrar pela costa leste australiana, esses morcegos espalham sementes enquanto voam — processo apelidado por pesquisadores de “chuva de sementes”, já que defecam em pleno voo sem interromper o deslocamento. Apesar da má reputação — reforçada pela associação com vírus como Ebola e Covid-19 —, os morcegos são fundamentais para os ecossistemas. No passado, autoridades australianas chegaram a tratá-los como pragas, utilizando até napalm (substância inflamável) para eliminar colônias que podem reunir centenas de milhares de indivíduos. Publicado na revista científica Scientific Reports, o novo estudo quantificou pela primeira vez na Austrália os benefícios econômicos desses morcegos. A pesquisa analisou dados de mais de 1.200 locais de descanso coletados pela agência científica nacional do país. Os resultados indicam que os morcegos contribuíram para o surgimento de mais de 91 milhões de árvores, principalmente eucaliptos. Esse impacto representa entre US$ 195 milhões (R$ 1 bilhão) e US$ 673 milhões (R$ 3,5 bilhões) por ano para a economia australiana, especialmente para a indústria madeireira. Este é apenas o terceiro estudo no mundo a medir economicamente os benefícios dos cerca de 1, mil tipos de morcegos existentes. Pesquisas anteriores já haviam demonstrado impactos positivos na proteção de plantações nos Estados Unidos e na produção de tequila no México. Galerias Relacionadas Os "flying foxes" atuam tanto como polinizadores quanto como dispersores de sementes, funções essenciais para a manutenção da biodiversidade. Muitas espécies de árvores australianas passaram a depender desses morcegos ao longo de um processo de coevolução com plantas específicas. Pesquisadores destacam que esses animais percorrem distâncias maiores do que outros polinizadores, como aves e abelhas, além de conseguirem transportar sementes maiores. Esse comportamento levou à criação do termo “efeito cascata dos morcegos”, que descreve o impacto dos flying foxes em múltiplos ecossistemas ao longo de centenas de quilômetros em poucos dias. Especialistas apontam que esse papel é ainda mais relevante diante do aumento de incêndios florestais e da ação humana sobre o meio ambiente na Austrália. Segundo eles, os morcegos ajudam a manter a integridade genética das florestas e a recuperar áreas degradadas. Apesar disso, os morcegos seguem ameaçados pela perda de habitat, incêndios e ondas de calor extremo. Um único dia de temperaturas elevadas pode provocar a morte de dezenas de milhares de indivíduos. Para cientistas, a preocupação com a conservação desses morcegos deveria ser comparável à dedicada às abelhas, também sob forte pressão ambiental. Sem os "flying foxes", alertam, os impactos na natureza seriam progressivos, podendo chegar ao ponto de inviabilizar a reprodução de determinadas espécies de árvores. — Fomos ensinados desde cedo a temer os morcegos, mas até os animais mais desprezados têm um papel essencial — afirmam especialistas.
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