Jornal O Globo
Foi o acaso que levou um CD de ópera às mãos de Luis-Felipe Sousa. O jovem tinha entre 12 e 13 anos quando a avó mostrou ao neto, óóóóóó, um jeito diferente de cantar. No rádio da casa da família, em Batatais, no interior de São Paulo, a criança costumava ouvir apenas modões sertanejos, MPB e standards do pop internacional. Ao escutar as árias clássicas, a primeira reação, portanto, foi imitar — quase num gracejo infantil — o tal modo pomposo de projetar a voz. “Olha que você terá um futuro nisso aí, hein”, a avó sugeriu. O adolescente realmente havia se encantado com as canções e levou a sério o vaticínio. Teatro: Montagem de 'O auto da Compadecida' dirigida por Gabriel Villela reforça caráter político e atual da obra de Ariano Suassuna Desabafo: Claudia Leitte diz que evita olhar redes sociais em prol da saúde mental: 'Nessa loucura, é fácil se perder' Pois bem, na última sexta-feira (26) Luis-Felipe se consagrou, aos 28 anos, como o primeiro brasileiro a conquistar o prestigioso prêmio da Associação para a Promoção da Ópera de Paris (AROP). A láurea celebra sua atuação nas temporadas de 2024 e 2025 em espetáculos promovidos pela Academia da Ópera de Paris, a maior instituição na Europa dedicada ao canto lírico — e a segunda maior no mundo, atrás apenas da Metropolitan Opera, em Nova York. Galerias Relacionadas Desde 2023, o rapaz participa, na capital francesa, do programa de residência profissionalizante no instituto, que produz tudo, absolutamente tudo, relacionado aos próprios espetáculos, incluindo cenários e figurinos. Trata-se de uma “fábrica de óperas”, como o edifício de 14 andares é recorrentemente chamado, e com um concorrido processo formativo, que anualmente seleciona pouco mais de uma dezena de cantores entre 500 artistas inscritos de todos os continentes. — Foi aquele CD singelo que direcionou toda a minha vida e me abriu para um universo novo, como um fio que se conectasse ao meu propósito. Hoje, é a ópera que me faz, todos os dias, levantar da cama e ter coragem, com brilho nos olhos, para estar longe da minha família e da minha base — comove-se. — Se não fosse uma coisa tão simples e corriqueira... Um CD! Quando paro para refletir nisso, não tem como não ficar emocionado. O cantor lírico Luis-Felipe Sousa Renato Mangolin/Divulgação/Ópera Nacional de Paris Com modéstia, Luis-Felipe (que adotou o hífen entre o nome composto devido à ortografia do idioma francês) crê que, a rigor, só encontrou a própria vocação por “força da sorte” — ou porque “estava no lugar certo na hora certa”, como diz. Explica-se: em Ribeirão Preto, cidade vizinha a Batatais, encontra-se a sede da companhia de música Minaz, em atividade desde 1990 e com um consolidado projeto de propagação da ópera por meio de corais infantojuvenis. E mais. No mesmo município, há um campus da Universidade de São Paulo (USP), que oferece o curso de música com ênfase em canto e arte lírica. Nesse círculo incomum nos rincões da nação —“sem precisar sair debaixo das asas da mãe e da avó”, como brinca —, Luis-Felipe graduou a própria voz. — Isso é muito raro no Brasil — constata ele, o primeiro artista numa família de professores. — Nosso país tem muito potencial dentro da área do canto lírico. Mas é preciso uma renovação, e não só no sentido de criar novas óperas. A gente tem que encontrar meios de criar um novo público. O cantor lembra a importância de ter visto e ouvido óperas do repertório canônico internacional — encenadas pela Companhia Minaz — em versões traduzidas para o português durante a adolescência e o início da vida adulta. A tradição ocidental prega que as obras sejam entoadas em seus idiomas originais, quase sempre o italiano, o francês ou o alemão. Para grande parte do público, porém, a regra é sinônimo de afastamento. Está aí algo a ser revisto em certas ocasiões, como opina Luis-Felipe. — Para quem não é acostumado a assistir a um espetáculo em outra língua, isso cria uma barreira. E temos que lembrar que uma ópera não é feita só de quem a produz, mas de quem a aprecia — considera o cantor. — É por aí que vejo a necessidade de “renovação”. Se ficarmos insistindo na mesma tradição da Europa, que já é muito forte, daremos murro em ponto de faca no Brasil. Nossa cultura é muito própria e especial. E temos, sim, capacidade de criar algo novo e nosso, sempre bebendo, obviamente, das fontes antigas. Uma década nos palcos Em 2026, completa-se uma década da primeira apresentação do baixo-barítono como solista no pequenino Teatro Minaz, em Ribeirão Preto. A comemoração é simbólica, sobretudo para quem tem se apresentado, nos últimos anos, no palco principal da majestosa Ópera da Bastilha, em Paris —em montagens como “L’enfant et les sortilèges”, de Ravel, e “'Les brigands'”, de Jacques Offenbach. Mas sem deslumbre. — Saí de um teatro de 300 lugares para uma casa de quase três mil assentos. Isso, por si só, é um baita aprendizado. Na imensa máquina de produção de uma ópera, fui entendendo que sou só uma pequena engrenagem — compara ele, às voltas com o encerramento do percurso formativo na Academia da Ópera de Paris. O cantor brasileiro Luis-Felipe Sousa em cena de espetáculo Ana Clara Miranda/Divulgação Em destaque no circuito operístico europeu, Luis-Felipe espera ver um número crescente de colegas brasileiros seguirem caminhos parecidos — apenas três já passaram pela Ópera de Paris. E que a música lírica passe a ressoar com mais força dentro do próprio Brasil, como ele reforça: — Tem muito talento no Brasil, e hoje muitos artistas acabam buscando refúgios e oportunidades fora do país. Faz parte da minha missão não abandonar minhas raízes... Sou filho do interior — afirma. — A gente tem que dar um passo para frente, olhar para trás e estender a mão para trazer mais pessoas, sabe? Por isso também a necessidade de divulgação da ópera. Quanto mais gente conhecer essa arte, mais gente ficará interessada. Foi o meu caso, né? Um simples CD que minha avó ganhou de presente da minha tia, e que eu ouvi e gostei... E hoje é o que me dá fogo de ir atrás de um futuro.
Go to News Site