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A iniquidade como exigência revolucionária: Flávio Dino e a CPMI do INSS | Collector
A iniquidade como exigência revolucionária: Flávio Dino e a CPMI do INSS
Revista Oeste

A iniquidade como exigência revolucionária: Flávio Dino e a CPMI do INSS

A história está registrada no livro World Communism , do marxista austríaco e também membro da Escola de Frankfurt Franz Borkenau. Perguntado certa vez sobre moralidade, György Lukács, um dos pais fundadores do marxismo cultural, teria respondido: “A ética comunista tem como seu maior dever aceitar a necessidade de agir com iniquidade . Esse é o maior sacrifício que a revolução requer de nós”. + Leia mais notícias de Política em Oeste Diante do registro, uma objeção óbvia poderia ser levantada: “Bem, mas é só uma anedota. Não serve de prova do pensamento ético de Lukács”. Seria uma ponderação válida, caso o marxista húngaro não tivesse reafirmado o mesmo numa de suas obras mais conhecidas. E, nesse caso, ele não se restringe apenas à seara da moralidade, não hesitando em adentrar o terreno da legalidade: “A questão da legalidade ou ilegalidade se reduz [...], para o Partido Comunista, a mera questão de tática ”, escreveu ele em História e Consciência de Classe , acrescentando que “nessa solução totalmente sem princípios reside a única rejeição prática e dotada de princípios ao sistema legal burguês”. Lukács foi, possivelmente, o maior ideólogo do comunismo no período pós-stalinista. Militantes comunistas do mundo inteiro — na época em que essa turma lia alguma coisa — tinha História e Consciência de Classe na mesinha de cabeceira. Quando, portanto, um sujeito desses pontifica sobre a ética comunista, ele fala com autoridade e representatividade. Ele fala, em suma, por todos os comunistas — presentes, passados e futuros; de leste a oeste e de norte a sul. Flávio Dino foi ministro de Lula e filiado do PCdoB | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil Ele fala, por exemplo, por Flávio Dino — o rocambolesco comunista maranhense que já está virando protagonista desta coluna. Com efeito, numa das minhas recentes colunas aqui na Oeste , mostrei como, muito provavelmente, esse militante em situação de toga enxerga o STF como uma “arma organizacional” nos moldes leninistas. Hoje, queria destacar um trecho de seu voto na sessão da corte que decidiu pela não prorrogação da CPMI do INSS. O leitor desta coluna, provavelmente uma pessoa comum, dotada de bom senso e discernimento ético dentro do normal, decerto julgará cínica a fala de Dino. Isso porque, a certa altura do seu voto, ele disse que a prorrogação indefinida do prazo — não obstante a solicitação fosse para o aumento bem definido de mais 120 dias apenas — arriscava transformar a CPMI num “inquérito geral de investigação de regimes autoritários, em que se faz, aí sim, autêntica pescaria probatória de modo indefinido”. No X, o jornalista Marcos Petrucelli notou que , no instante em que menciona o “inquérito geral de investigação de regimes autoritários”, o sujeito dá uma coçadinha na cabeça. Como bem observou Petrucelli, é nesse momento que, sentado a uma cadeira de distância de Alexandre de Moraes, Dino deve ter se dado conta de que estava para condenar a prorrogação de quatro meses numa investigação de ladrões de aposentados do alto de uma corte em que um inquérito sigiloso, ademais instaurado de maneira ilegal, já dura sete anos , no decorrer dos quais o que mais se praticou foi a pesca probatória e o assédio judicial contra inocentes. Mas a coisa é pior. Momentos antes desse trecho, o comunista maranhense havia observado que, conquanto a Casa parlamentar, por sua natureza política, não tivesse a obrigação de ser coerente, o Supremo Tribunal Federal (STF) a tinha. Sim — o homem falou em “coerência” da Corte pouco antes de vociferar a mais sublime das incoerências. De fato, a coçada de cabeça foi uma interessante manifestação não verbal, que ao analista político não pode passar despercebida. Mais do que apenas sinalizar a consciência de que se estava para incorrer no mais assombroso cinismo, o gesto pareceu traduzir o cumprimento convicto de um ato tático revolucionário. Sim, naquele instante, Flávio Dino deve ter recuperado mentalmente o seu Lukács (que, se não leu em primeira mão, certamente assimilou de tutores e professores marxista-leninistas). “Estou para agir com iniquidade” — é o que possivelmente lhe passou pela cabeça logo antes da conclusão gloriosa, à la Lukács: “E esse é o maior sacrifício que a revolução requer de nós”. Leia também: A insolência do chefe da turma , artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 315 da Revista Oeste O post A iniquidade como exigência revolucionária: Flávio Dino e a CPMI do INSS apareceu primeiro em Revista Oeste .

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