Revista Oeste
Em último discurso antes do encerramento final da CPMI do INSS , o presidente da comissão, o senador Carlos Viana (Podemos-MG), criticou a atuação que resultou na finalização prematura das investigações. “A quem interessa encerrar esta CPMI?”, interpelou. “A quem interessa limitar essa investigação? A quem interessa impedir que o Brasil conheça toda a verdade? (...) Houve barreiras. Barreiras que surgiram exatamente quando a verdade começou a se aproximar de níveis mais sensíveis. Fui atacado, assim como o senhor relator, em diversas situações: na minha fé e no meu trabalho.” + Base governista derruba relatório de Gaspar e livra Lulinha Apesar de destacar as diversas blindagens ao curso da investigação, Viana destacou que “essa CPMI não foi pequena”, e mostrou o balanço de atividades ao longo de mais de 200 dias de comissão: 38 reuniões; 2.153 requerimentos aprovados; quase 2 mil documentos oficiais recebidos. O senador ressaltou ainda que, logo no início dos trabalhos, houve medidas concretas contra investigados: “Já no primeiro dia de funcionamento dessa CPMI, nós aprovamos o pedido de prisão de 21 envolvidos nesse crime escandaloso”. A base governista rejeitou o parecer do relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), com 19 votos | Foto: Geraldo Magela/tAgência Senado Viana também lembrou que houve prisão em flagrante durante depoimento, além de casos que acabaram posteriormente alcançados por ações da Polícia Federal (PF). Apesar dos resultados, o senador afirmou que a comissão enfrentou obstáculos institucionais relevantes, sobretudo no âmbito judicial: “Das 72 pessoas efetivamente chamadas, metade não compareceu”. “E mais grave: 45 dessas oitivas tiveram decisões do Supremo Tribunal Federal.” + Fachin rejeita recurso da CPI do Crime Organizado e mantém sigilo de empresa de Toffoli Segundo ele, as decisões permitiram “o silêncio ou até mesmo que eles não comparecessem”, além da concessão de habeas corpus : “Essa investigação poderia ter ido além mas não permitiram avançar como deveríamos”. “Nós encontramos indícios graves, nós cruzamos informações, nós chegamos perto de estruturas muito maiores”, disse. “Quando o dinheiro do aposentado é roubado, não é só crime financeiro, é um rompimento moral. (...) A verdade foi entregue. Agora cabe ao Brasil decidir o que fará com ela.” O presidente da CPMI do INSS, Carlos Viana, durante coletiva de imprensa - 23/2/2026 | Foto: Wilton Júnior/Estadão Conteúdo Leia a íntegra do discurso na CPMI do INSS: “Senhores, como de costume, gosto sempre de deixar também as minhas falas. “Não afligireis a nenhuma viúva nem órfão. Se de algum modo os afligires e eles clamarem a mim, Eu certamente ouvirei o seu clamor.” Está em Êxodo 22, versículo 22. Senhores parlamentares, servidores desta Casa, imprensa e, principalmente, os aposentados, as viúvas de todo o Brasil, hoje é um dos dias mais importantes da minha trajetória como parlamentar e talvez um dos discursos mais importantes, se não o mais importante, que já fiz nesta Casa. Hoje é, acima de tudo, um dia de respeito aos aposentados brasileiros. Um dia de respeito a quem trabalhou a vida inteira e foi roubado neste país. Hoje é o dia da verdade, senhores. Eu preciso, primeiramente, agradecer a todos aqueles que não descansaram nem por um segundo, que entenderam a importância desse trabalho e entregaram tudo de si para proteger os aposentados, as viúvas e os pensionistas do nosso país. E aqui, apesar de todas as diferenças ideológicas e partidárias, eu quero dizer aos parlamentares que participaram das sessões que os senhores fizeram um grande trabalho. Faço aqui também um agradecimento público à imprensa séria deste país, que deu voz aos aposentados quando ninguém ouvia, que mostrou ao Brasil que o nosso trabalho é sério, que isso aqui não foi espetáculo, mas investigação, coragem e resultado. Faço um agradecimento especial ao meu irmão de coração, o deputado Alfredo Gaspar, relator desta CPMI, um homem que acompanhei de perto, que entregou sua vida a essa investigação, que virou noites, que abriu mão da sua família para cumprir essa missão e que tem todo o meu respeito. O que V. Exª foi vítima hoje mostra claramente o quanto o seu brilho incomoda aqueles que vivem nas trevas. Faço aqui também um agradecimento a todos os servidores desta Casa. Homens e mulheres que dedicaram horas das suas vidas ao longo desses seis meses para que esta CPMI pudesse funcionar. Trabalharam nos bastidores, muitas vezes sem reconhecimento público, mas com compromisso, seriedade e profissionalismo, garantindo que cada sessão, cada documento e cada etapa dessa investigação acontecesse. Sem vocês, nosso trabalho ficaria muito prejudicado. Muito obrigado a todos os servidores desta Casa, aos advogados, aos nossos garçons, que o tempo todo, com muita gentileza, nos atenderam aqui com muita paciência. Senhoras e senhores, essa CPMI não foi pequena. Foram 38 reuniões realizadas, 122 parlamentares envolvidos, 2.153 requerimentos aprovados e apenas 91 rejeitados. Recebemos 1.996 documentos oficiais, enviados por 180 instituições diferentes, com destaque para órgãos como COAF, Receita Federal, INSS, Polícia Federal e até o Supremo Tribunal Federal. Também aprovamos 649 alvos com requerimentos de quebra de sigilo. Estamos falando de uma das maiores apurações já feitas pelo Congresso Nacional. E é importante que o Brasil saiba: já no primeiro dia de funcionamento dessa CPMI, nós aprovamos o pedido de prisão de 21 envolvidos nesse crime escandaloso. Quando ouço alguns críticos dizerem que esta CPMI não teve resultados, fico pensando o quanto as pessoas não gostam da verdade. Nós demos voz de prisão aqui ao presidente da Conafer, que naquele momento saiu liberado pela Justiça mediante pagamento de fiança. Meses depois, a Polícia Federal foi obrigada a agir novamente para prendê-lo, e hoje ele se encontra foragido. Requerimentos barrados, convocações dificultadas, tentativas claras de limitar o alcance da investigação. E nós enfrentamos também limitações institucionais. Das 72 pessoas efetivamente chamadas, metade não compareceu. E mais grave: 45 dessas oitivas tiveram decisões do Supremo Tribunal Federal, muitas delas permitindo o silêncio ou até mesmo que eles não comparecessem a esta comissão. Houve concessões de habeas corpus, houve interrupções de caminhos. Isso precisa ser dito com clareza, não como confronto, mas como registro, porque faz parte da história dessa investigação. O Parlamento precisa defender as prerrogativas que nós temos constitucionalmente. E aqui está o ponto mais importante de tudo: essa investigação poderia ter ido além, especialmente no sistema financeiro e nos empréstimos consignados, mas não permitiram avançar como deveríamos. 649 alvos tiveram sigilos aprovados, senhores. Isso é muito. E, mesmo assim, dezenas dessas medidas foram suspensas por decisões judiciais. Isso mostra uma coisa muito clara: essa CPMI esteve à frente das investigações desde o primeiro dia. Nós apontamos, nós identificamos, nós avançamos. E aqui eu faço justiça: parabéns a todos aqueles que dedicaram suas vidas, seu tempo, sua energia para que a verdade viesse à tona. Parabéns, parlamentares. O Brasil se orgulha de cada um dos senhores. Cada um fala para o seu público, mas saem daqui de cabeça erguida e, eu tenho certeza, com a sensação do dever cumprido. Permitam-me um registro pessoal. Eu fui orientado a parar, mas havia uma missão. E eu permaneci, não por teimosia, mas por convicção. Porque sair daqui, virar as costas para quem mais precisava, eu não poderia admitir. Hoje estamos todos juntos porque a causa era maior do que o medo. Meu pai era caminhoneiro. Eu cresci vendo esforço, sacrifício e dignidade. E todas as vezes que um aposentado me para na rua — e não são poucos — para agradecer o nosso trabalho, eu relembro meu pai. Mas agora eu preciso dizer com muita clareza o que, em muitos momentos, eu não pude dizer. Nós encontramos indícios graves, nós cruzamos informações, nós chegamos perto de estruturas muito maiores. E, em diversos momentos, nós fomos impedidos de avançar. Houve barreiras — barreiras que surgiram exatamente quando a verdade começou a se aproximar de níveis mais sensíveis. Fui atacado, assim como o senhor relator, em diversas situações — na minha fé, no meu trabalho. E o relatório é a demonstração clara de que o discurso que foi feito aqui foi totalmente desmentido por sua decisão. Nós não blindamos ninguém. Questionaram, inclusive, sobre o meu trabalho. E eu quero dizer com clareza: eu nunca tive medo de carteira de trabalho. Eu trabalho desde os 12 anos de idade. Tudo o que conquistei foi com muito esforço e sacrifício. A quem interessa encerrar esta CPMI? A quem interessa limitar essa investigação? A quem interessa impedir que o Brasil conheça toda a verdade, senhores? E, mais grave, a quem interessa proteger quem participou desse escândalo? São perguntas que cada um dos senhores deve responder na sua própria consciência. Este país precisa decidir uma coisa: se vai proteger quem trabalhou a vida inteira ou permitir que roubem exatamente as pessoas mais vulneráveis. Porque, quando o dinheiro do aposentado é roubado, não é só crime financeiro — é um rompimento moral. É o momento em que o Estado falha com quem mais confiou nele. Não há estabilidade institucional possível em um país que não protege seus aposentados. Destaque-se que, entre todos os membros, o relator foi o condutor desse inquérito e não poupou ninguém da investigação. Ninguém. Nomes de todos os espectros políticos estão indiciados no relatório. Foi sob orientação dele que trabalharam por meses, incansavelmente, consultores legislativos, advogados, policiais legislativos, promotores, delegados, auditores da CGU e do TCU. Esta presidência deposita plena confiança no seu trabalho, Alfredo Gaspar. As mais de 4 mil páginas não são vazias, mas o resultado de uma investigação minuciosa de todo o esquema. O relatório final pertence ao povo brasileiro. As pessoas que nos assistiram — e não foram poucas, foram milhares — sabem do que aconteceu e da nossa responsabilidade. Consequentemente, encaminhar todo o vasto acervo probatório aos órgãos competentes é o que nós faremos, Excelência. Nós vamos encaminhar a todos uma cópia do que fizemos aqui. Cada parlamentar é responsável pelo seu voto, mas esta presidência, dentro do regimento, agirá como fez desde o início para proteger aqueles mais vulneráveis. Agora, no momento final, há o risco, naturalmente, de rejeição do relatório. E o Brasil vai perceber: não foi falta de prova. Quando o sistema protege quem rouba o aposentado, ele passa a ser parte do problema. Esta Casa, senhores parlamentares, não pode se omitir. Eu faço um apelo a cada um: nós não fomos eleitos para assistir, não fomos eleitos para recuar. A omissão também é uma escolha — e a história não absolve os omissos. Nós fizemos a nossa parte com coragem, com responsabilidade, sem blindar ninguém — mas ninguém mesmo. Apesar de todos os discursos levantados aqui e republicados em redes sociais, muitas vezes mentindo sobre nomes que estavam aqui, nós fomos impedidos. E há uma diferença enorme nisso. A verdade foi entregue. Agora cabe ao Brasil decidir o que fará com ela. Se vai ignorar, se vai aceitar ou se vai mudar. O que está sendo escrito aqui hoje não é apenas o encerramento de uma comissão — é uma página da história do nosso país. E cada um de nós será lembrado pela forma como se posicionou diante dessa história. Porque, no fim, senhores, nenhum sistema resiste a um povo que decide enxergar. O Brasil não pode ser um país onde o aposentado é roubado e quem investiga é impedido de chegar às conclusões e à responsabilização daqueles que têm de responder na Justiça.” O post Em último discurso, Viana reflete: ‘A quem interessa encerrar a CPMI do INSS?’ apareceu primeiro em Revista Oeste .
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