Jornal O Globo
Quando parlamentares alinhados ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentaram no Congresso americano um relatório que citava uma suposta presença secreta do governo chinês no Brasil, não demorou para que bolsonaristas ecoassem a denúncia — o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, chegou a ser convocado a dar explicações na Câmara. As acusações, que não foram acompanhadas de nenhuma prova concreta, também foram rechaçadas de imediato por entidades e empresas envolvidas nas pesquisas científicas listadas pelos republicanos no documento. A despeito do tom conspiratório, o imbróglio jogou luz sobre a relação aeroespecial entre Brasil e China, uma cooperação que existe há quase quatro décadas, por meio de um programa fundamental para o combate, por exemplo, do desmatamento na Amazônia. Um só planeta: Desmatamento na Amazônia cai 11% em 2025 e atinge menor nível em 11 anos; Cerrado também teve queda Entrevista: 'Até o desmatamento legal vai devastar o Cerrado', diz criador de financiamento à soja sem cortar árvore Ao longo dos últimos 40 anos, avaliam especialistas, o avanço do projeto CBERS — sigla em inglês para “China-Brazil Earth Resources Satellite” —, com lançamento de satélites próprios, foi determinante para que o país reduzisse sua dependência da Nasa e de fontes da Europa. Até 2030, o programa vai concluir dois tipos de dispositivos orbitais inéditos no país: um de tecnologia SAR (“synthetic aperture radar” ou “radar de abertura sintética”), capaz de superar o bloqueio de nuvens nas imagens e melhorar o monitoramento de focos de incêndio e inundações, previsto para 2028; e um geoestacionário, ainda em negociações, que ficará a uma altura de 36 mil quilômetros (os atuais chegam a 900 quilômetros), ampliando a previsão de eventos extremos. Embora não façam propriamente parte do CBERS, as iniciativas mencionadas pelo relatório que virou pauta no Comitê do Congresso dos EUA sobre Competição Estratégica entre os Estados Unidos e o Partido Comunista Chinês também envolveriam supostas parcerias do Brasil com a nação asiática. Uma delas é a Estação Terrestre Tucano, na Bahia, criada em conjunto pela startup brasileira Ayla Nanosatellites, de monitoramento de imagens por satélite, e a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology. Os parlamentares mencionaram ainda um memorando de entendimento da mesma companhia com a Força Aérea Brasileira (FAB), o que incluiria treinamento de pessoal e o uso de antenas militares. O documento, intitulado “China no nosso quintal: empurrando a América Latina para a órbita da China”, mencionava suspeitas similares na Venezuela, na Bolívia, no Chile e na Argentina. Diante do alarde, o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), cobrou que Mauro Vieira prestasse esclarecimentos na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara. Na audiência, o chanceler negou a existência de supostas bases militares da China no Brasil: — Não existe estação, nem antena, nem operação chinesa, nem parceria militar. Trata-se de especulações derivadas de notícias de internet cujos conteúdos foram descontextualizados e distorcidos, baseadas em um viés geopolítico que enxerga a América Latina como “quintal” dos Estados Unidos — discorreu Vieira. Assinado em 1988 O programa CBERS, assinado em 1988, não foi alvo direto dos republicanos, mas a elaboração do relatório em um contexto de críticas recorrentes, no espectro bolsonarista, sobre uma dependência tecnológica da China, despertou a preocupação de especialistas, que defendem a cooperação sobretudo no setor aeroespacial. Com o programa, Brasil e China dividem igualmente os custos dos projetos, que costumam durar cerca de quatro anos. O satélite SAR, por exemplo, deve custar cerca de 50 milhões de dólares para cada uma das nações. Além disso, a troca de conhecimento tecnológico é essencial para o desenvolvimento do setor aeroespacial brasileiro. Os lançamentos à órbita são sempre feitos da China, já que o Brasil ainda não possui essa capacidade. Os satélites em operação hoje são essenciais principalmente aos programas Prodes e Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que produz os dados oficiais de desmatamento no país. — A partir do programa CBERS, fomos capazes de desenvolver a câmera hoje utilizada para esse monitoramento, o que dá soberania tecnológica ao país, e faz com que não dependamos das imagens de ninguém para esse tipo de trabalho — explica Claudio Almeida, coordenador do Programa de Monitoramento da Amazônia no Inpe. Almeida acrescenta que existem outros projetos que fazem uso dessas imagens, como um que analisa o crescimento urbano a partir da localização de novas obras. Já o meteorologista Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), pontua que o programa garantiu “autonomia de dados” ao Brasil, dependente das informações de estações dos EUA e da Europa no século passado: — Outro ponto é que você gera capacidade de produção de dados. Não existe outro país que desenvolveu metodologias utilizando satélites para monitorar a Amazônia tão eficientemente. Hoje, toda essa estrutura de monitoramento da Amazônia tem importância internacional. E do ponto de vista orçamentário, o Brasil não teria condições de alcançar esse nível sozinho. Diretor de Gestão de Portfólio da Agência Espacial Brasileira (AEB), Rodrigo Leonardi frisa que todos os dados sobre o CBERS são públicos, com aprovação pelo Congresso dos projetos de construção de satélites, o que garante transparência e evita questionamentos políticos sobre o programa, inclusive de atores internacionais. A cooperação é civil e segue diretrizes da ONU para uso pacífico do espaço. Leonardi destaca que, com o conhecimento adquirido nas últimas décadas, a AEB e o Inpe lançaram, em 2021, o satélite Amazônia 1, totalmente brasileiro, que também contribui para o monitoramento ambiental. Com os próximos dois satélites desenvolvidos pelo programa, além da observação de biomas e desastres ambientais, fortalece-se um cenário crucial até mesmo para o agronegócio. — Não dá para imaginar um negócio tão competitivo, com participação tão importante para o nosso PIB, sem dados meteorológicos de qualidade — afirma. — A gente se beneficia com a cooperação e tem acesso a uma tecnologia que, de outra forma, iria demorar, e seria bem mais oneroso. Se a gente dependesse só de satélites de terceiros e em uma eventualidade os dados deixassem de existir, seria um impacto muito grande. Ao mesmo tempo em que celebra a sinergia com a China, hoje o parceiro mais importante em volume de investimentos, Leonardi diz que não há portas fechadas para cooperações com outros países, inclusive os EUA. O Brasil atualmente usa dados da Nasa para alguns monitoramentos específicos, sem um programa mais amplo em conjunto. — O Brasil é uma nação que trabalha com todo mundo — resume o diretor. — As afirmações do relatório são infundadas e compete a quem as fez se explicar. Observação da terra No documento, os congressistas americanos apontaram que a Beijing Tianlian Space Technology, parceira da startup brasileira na Estação Terrestre Tucano, seria afiliada à Academia Chinesa de Tecnologia Espacial e à Corporação de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da China. A unidade, por ora ainda em fase de pesquisa, vai servir para a constelação de 216 satélites da Ayla, a serem lançados para observação da Terra. Sobre o suposto memorando entre a Beijing Tianlian e a FAB, os republicanos descreveram uma suposta costura, pela China, de “um canal para observar e influenciar a doutrina espacial militar brasileira, ao mesmo tempo em que estabelece uma presença permanente em uma região vital para a segurança nacional dos Estados Unidos”. Procurada, a Força Aérea Brasileira confirmou que houve uma parceria para “atividades de calibração radiométrica de sensores ópticos de imageamento”, entre 2020 e 2022, não renovada posteriormente. O relatório também menciona o Laboratório Conjunto China-Brasil de Tecnologia em Radioastronomia. Trata-se de um acordo entre a China Electric Science and Technology Network Communication Research Institute (CESTNCRI) e as universidades federais da Paraíba (UFPB) e de Campina Grande (UFCG), com o objetivo de avançar em pesquisas sobre radioastronomia e tecnologias de observação do espaço profundo, conhecido como “matéria escura”. De acordo com o comitê americano, “as aplicações tecnológicas mais amplas desses sistemas de observação do espaço profundo podem ter capacidades de uso para inteligência militar”. O laboratório baseia-se no projeto Bayron Acoustic Oscillation in Neutral Gas Observations (Bingo) para construir um telescópio especial para detecção de gás neutro a ser usado na Serra do Urubu, em Pernambuco. Além da China, há contribuições de instituições de África do Sul, Reino Unido, Suíça e França. Procurada, a UFPB disse que “desconhece a existência de bases militares secretas chinesas”, confirmou a “assinatura de acordo e memorandos de entendimento com instituições da China para cooperação científica internacional”. A parceria, esclareceu, está em fase inicial e sequer tem projeto em execução.
Go to News Site