Jornal O Globo
Fabiano Alves andava de moto pelas ruas de Belo Horizonte quando viu passar uma mulher bonita. Acompanhou-a com os olhos, até que se incomodou com o próprio comportamento. Desde que “se formou” na Escola de Masculinidades da Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG), passou a se policiar. IBGE: Número de meninas que relatam tristeza e acham que a vida não vale a pena é o dobro do de meninos Crime inafiançável e pena maior: Entenda o projeto que equipara misoginia ao racismo, defendido por especialistas — Olhar, eu olhei, porque estou vivo, mas logo pensei: “Se ela puder se sentir desconfortável de alguma forma, não posso mais cair nessa”. Às vezes você acha que algo não é inconveniente e é, sim, invasivo — explica. Aos 39 anos, o motorista soube do projeto durante um samba e até esqueceu que havia feito a inscrição. Primeiro, veio a descrença: nem deveria estar ali, nunca havia agredido ninguém. Com as palestras e debates, porém, foi tomando consciência da dificuldade de lidar com a “selva de sentimentos” de crescer numa família disfuncional, com mãe, avó, tia e irmã vítimas de violência doméstica. Repensou relatos de amigos sobre namoradas “loucas” e até suas próprias condutas com uma ex. — Percebi que eu também já fui agressor. Não fisicamente, mas com palavras, porque queria que ela sentisse a tristeza, a raiva que eu estava sentindo. Mandei mensagem pedindo perdão — diz Fabiano, que agora pretende fazer cursos para mediar debates. — Ainda tem muita cabeça fechada. Misoginia em alta O aumento de ataques misóginos e casos de violência contra mulheres no Brasil tem impulsionado iniciativas voltadas a discutir o papel masculino na sociedade. Os projetos, conhecidos informalmente como “escolas de masculinidade”, reúnem homens para discutir gênero, relações de poder e até divisão de tarefas. Os organizadores convivem com um questionamento frequente: “E isso lá funciona?” Ouvidos pelo GLOBO, eles sustentam que as oficinas e rodas de conversa não são “bala de prata”, mas, sim, uma “semente” capaz de contribuir para transformações estruturais mais complexas. Coordenadora estadual dos Centros de Conciliação e Mediação da DPMG, Paula Regina Fonte Boa Pinto descreve a escola do órgão como um “círculo de construção de paz”. Ao longo de dez encontros, primeiro um especialista discorre sobre temas como “o que é ser homem?”, abusos e vícios. Em seguida, os participantes se revezam com o “bastão da fala”. O público da edição de 2025 foi variado, de 25 a 82 anos, incluindo homens em processo de divórcio e acusados de violência atendidos pela DPMG (o certificado pode ser mostrado à Justiça como indício de que estão dispostos a mudar). — Nosso objetivo não é que saiam daqui ativistas feministas, mas oportunizar reflexões e ferramentas que o homem poderá acessar para se portar e reagir. Pode não mudar de ideia sobre o papel da mulher, mas percebe que precisa ser um pai mais presente. No dia sobre autocuidado, pode tirar dúvidas sobre saúde, sexo, sabendo que não será julgado — ressalta. A DPMG estuda realizar uma edição voltada para adolescentes, em meio à difusão de ideias misóginas nessa faixa etária. No ano passado, o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) e a startup New School lançaram o projeto “Boyzinho de Respeito: saúde mental, cuidado e proteção às mulheres”, com palestras, quiz e atividades interativas para esse público. Com um app e premiações por desempenho e frequência, a iniciativa já “formou” 365 jovens, e outros 2,3 mil estão cursando neste momento. — No Judiciário, cuidar da mulher é cuidar do efeito, e trabalhar com homem é trabalhar a causa. Não é a droga, a bebida, o futebol. É essa visão de masculinidade que perpassa gerações. A gente quer que esse jovem não seja reprodutor contumaz nem vítima dessa violência — explica a desembargadora e diretora-geral da Escola Judicial, Daisy Andrade Pereira. ‘Porta de proteção’ O “Boyzinho” será replicado na rede estadual de ensino. É mais uma “porta de proteção”, diz Daisy, para além dos Grupos Reflexivos existentes em Pernambuco e outros estados do país. Neste caso, a iniciativa se ampara na Lei Maria da Penha, que recomenda a criação de espaços de “reabilitação” de agressores. No Distrito Federal, desde 2016, acusados são encaminhados a oito encontros para discutir, entre outros temas, gênero, violência e “habilidades relacionais”. A participação é coercitiva. Supervisora substituta da Coordenadoria da Mulher do TJDFT, Renata Bevilaqua explica que a ideia é que os homens se autorresponsabilizem e entendam seus atos e a lei. De modo geral, eles chegam com estereótipos de gênero “inflexíveis”. “Falei para ela não sair, e ela saiu” e “Quem ela pensa que é para falar assim comigo?” são relatos comuns. Além disso, nos últimos anos, Bevilaqua percebeu ainda um incremento no discurso misógino, impulsionado pela internet. Nesse contexto coletivo, a interação entre homens é produtiva. — Em pares, um se abre, e os outros vão respondendo e se abrindo também. Ele escutar de um homem, isso ajuda. Uns dizem que nunca haviam chorado, que ficaram incomodados ao ouvir falar de mulher “como pedaço de carne”, que não querem mais os mesmos amigos, que a relação com a nova parceira melhorou, que conseguiram reagir de forma diferente durante um conflito. Isso nos motiva — frisa. A sociedade civil também se mobiliza. Pedro de Figueiredo fundou o MEMOH — homem ao contrário — depois de perceber, há cerca de dez anos, que não era “tão maneiro” quanto pensava. Em meio ao boom dos movimentos antiassédio #MeToo e “Não é Não”, estudou sobre masculinidades e fez um laboratório no próprio apartamento com amigos. Foi uma “catarse coletiva”, lembra. Com metodologia autoral, o MEMOH reúne “homens incomodados” que buscam espontaneamente essas reflexões. Um “líder da rodada” expõe alguma vivência — sobre se separar, sentir ciúme, divergir do feminismo —, e daí a conversa engata: — Ninguém está ali para dizer o que é ser homem de verdade, ganhar selo de “desconstruído”. É ganhar repertório e buscar contribuir para a transformação social capitaneada há anos pelas mulheres. Não é só mudar linguagem, chorar e achar que “fez a sua parte”. Ser um cara melhor é parte de se introduzir numa luta política. Figueiredo conta que a metologia inclui o estímulo a práticas que gerem debates no dia a dia, para além da divisão de tarefas, como no “sábado sem álcool”. O principal obstáculo, segundo ele, ainda é mobilizar os homens, sobretudo com a polarização política pós-2018. Outro desafio é levar as reflexões para as empresas: — Nosso trabalho é aproximar os funcionários das discussões sobre metas de mulheres na liderança, políticas contra o assédio. Muitos se omitem ou até boicotam. Ele pode falar que é uma injustiça, mas aí pode ouvir um contraponto. É melhor do que ficar na cabeça dele ou na rádio corredor. Se eu vejo que o colega é “incomodado” como eu, na próxima piadinha machista do diretor, nós dois não vamos rir. ‘Como leão nas presas’ Haroldo Radeck, de 65 anos, é “repetente” da Escola de Masculinidades: não por ter sido reprovado, mas por considerar que sempre há o que aprender. Criado numa família tradicional, de “patriarcas”, sempre “engoliu” o choro e começou cedo a vida sexual. Eram padrões de “macho” que reproduzia, diz, embora também sofresse com comentários maldosos pelo trato sensível. — A molecada chegava nas meninas como leão nas presas. Eu ia devagarzinho, e diziam: “Você é mulherzinha”. Depois, coordenei um dos maiores programas de formação esportiva do estado, e era chamado de “bichinha do vôlei” — recorda. Como terapeuta floral, educador e voluntário em hospital, Haroldo sempre viu que homens resistem a procurar ajuda. Na escola da DPMG, o grupo compartilha emoções: — A confidencialidade é extrema. O auditório se transforma em um consultório, em um local seguro onde os homens sentem juntos alegria e tristeza. O curso me ensina a recapitular a condição de ouvir. Não sou perfeito, mas estou no caminho certo.
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