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Tarô da era digital tem abordagem bem-humorada nas redes e consulta on-line com 'troca energética' | Collector
Tarô da era digital tem abordagem bem-humorada nas redes e consulta on-line com 'troca energética'
Jornal O Globo

Tarô da era digital tem abordagem bem-humorada nas redes e consulta on-line com 'troca energética'

De segunda a sexta-feira, às 19h, a taróloga gaúcha Cíntia Loureiro entra ao vivo em seu canal no YouTube. Com a ajuda de seu coapresentador, um pen drive falante animado digitalmente, ela mistura humor e leitura de cartas em um talk show interativo e leve, em que o destino dos ouvintes é revelado entre piadas e improvisos. '2026 é o novo 2016': trend reflete nostalgia de uma vida mais leve e cansaço com performance nas redes Menos estímulo, mais prazer: cafés especiais impulsionam nova cultura e estilo de vida no consumo da bebida Cabelo roxo moderninho, fones azuis no estilo lofi girl nos ouvidos, Cíntia, de 41 anos, escapa do antigo estereótipo do místico profissional. Seu estúdio é sóbrio, com um desenho esotérico projetado numa tela preta atrás dela. A própria taróloga se apressa em desmistificar o cenário, enumerando no início da live os objetos que se encontram fora do quadro: uma boneca Barbie, um disco do Paul McCartney, uma estátua da Deusa Tríplice e uma foto do seu gato Show de Bola. — O programa não tem nenhuma obrigação de ser sério — explica a youtuber, apresentada pelo mascote como “a Ana Maria Braga do tarô”. — Quando você transforma o tarô em conteúdo, ele vira também uma experiência coletiva de diversão, que vai além do lado filosófico. Ao longo do programa, os espectadores pedem que a taróloga tire dúvidas sobre dilemas sérios, triviais ou inusitados, como escolher entre comprar cerveja ou pão para o jantar. — O tarólogo contemporâneo não precisa mais ter uma grande ligação mística ou espiritual para ler cartas — diz Cíntia. —Até porque é uma atividade muito mais relacionada à intuição e ao autoconhecimento. TaroTok O programa de Cíntia é um exemplo de como a internet não apenas ampliou, mas transformou o modo como o tarô circula e é consumido hoje. De um lado, cursos on-line ajudam a formar mais tarólogos. Do outro, o farto conteúdo produzido nas redes difundiu a prática para além de círculos restritos. Tarólogos que atuam como influenciadores se multiplicaram nas plataformas digitais. No TikTok, a prática virou trend e ganhou até uma comunidade própria, o TaroTok, que reúne mais de 1,2 milhão de publicações. A consulta, que antes exigia deslocamento e acontecia em meio a rituais, agora cabe na tela do celular. Pode surgir em uma live, em um vídeo curto ou em dinâmicas interativas. — Não há mais aquela reverência e solenidade com o tarólogo, porque a atividade está mais banalizada, no bom sentido da palavra — observa a atriz e taróloga Yasmin Gomlevsky, que além de suas performances nos palcos e nas telas mantém uma página no Instagram (@chamaacesatarot) dedicada à leitura das cartas. — Hoje, o tarólogo pode ser seu vizinho, seu amigo, seu colega de faculdade. A atriz e taróloga Yasmin Go,levsky Guito Moreto / Agência O Globo Outra percepção No ambiente concorrido do algoritmo, postagens bem-humoradas ajudam a capturar a atenção para o seu trabalho, mas também a mudar a percepção sobre o tarólogo, que continua oferecendo consultas particulares, mas agora de forma remota para seus seguidores espalhados pelo país. — Por muito tempo, tarólogos eram vistos como figuras distantes, quase intocáveis, cercadas de medo e julgamento — diz a taróloga e produtora de conteúdo brasiliense Victoria Bertolli, conhecida como @abruxatarot no TikTok. — Quando você usa humor, mostra que existe uma pessoa real ali e ajuda a quebrar esse estereótipo. Para a carioca Mirra Mattos, uma taróloga com mais de 17 mil seguidores no Tiktok e 114 mil no Instagram, as redes sociais estão “desmarginalizando” a profissão. — Hoje não existe mais aquela a imagem nebulosa de uma pessoa que trabalhava quase que em segredo em um fundo de quintal, e divulgava seu trabalho em lambe-lambe nos postes espalhados pela cidade — diz Mattos. Initial plugin text A abordagem moderna de Mattos, porém, encontra resistência entre a ala mais conservadora do tarô. Há três anos, a influencer criou o movimento "Tarot Livre" para se opor a "onda de hate" que estava recebendo. Em seu perfil no Tiktok, ela grava vídeos confrontando tabus como "não pode jogar tarô de biquíni". Polêmicas à parte, Mattos explica que seus seguidores buscam no tarô um resultado mais terapêutico do que adivinhatório. As cartas são vistas como uma ferramenta de bem-estar, orientação e consciência. — A prática segue presente entre as pessoas místicas e esotéricas, mas hoje vemos pessoas de todos os tipos utilizando o tarô como uma ferramenta de autoconhecimento — diz Mattos. — Os clientes de hoje em dia vêm muito mais preparados com relação ao que esperar de um atendimento. Tudo é energia? No mundo do tarô, nem todo mundo vê de forma positiva a transição para o on-line. Como a atividade envolve “energia”, parte da velha guarda se mantém fiel às consultas presenciais e crítica a exploração digital. — A energia não está limitada ao físico — contrapõe Victoria Bertolli. — A conexão acontece na intenção, independentemente da distância. As pessoas associavam ao presencial porque estavam focadas no corpo físico. O espiritualista Pedro Baldansa Guito Moreto / Agência O Globo Por muito tempo, o vidente, cartomante, astrólogo e numerólogo Pedro Baldansa fez parte do time dos céticos. Quando veio a pandemia, passou a testar atendimentos e conteúdos on-line e mudou de lado. Hoje, aos 28 anos, tem um canal de YouTube com mais de três mil vídeos e quase 140 mil inscritos. Sua projeção nacional foi em 2024, quando teria previsto a morte de Silvio Santos em um de seus vídeos. Suas consultas particulares também são quase todas remotas. — Apesar de trabalhar com espiritualidade, sou muito cético, preciso ver para crer — diz Baldansa, que lançou o livro “Os caminhos da prosperidade” (VR Editora), no qual reúne práticas energéticas, simpatias, orações, rituais e exercícios para “alinhar o pensamento”. — O virtual dá certo, porque é uma troca, mesmo à distância. Quando você passa seu telefone para alguém, já é uma troca energética. Tem gente que me procura às vezes para fazer previsão de ator de novela turca ou sul-coreana. Eu respondo e o negócio acontece! Visão realista No YouTube, Baldansa dá conselhos semanais, faz lives com perguntas e dá previsões sobre todos os assuntos, de celebridades à política internacional. Estudante de Ciências Políticas, ele já gravou vídeos indicando como prevê os próximos passos do ataque de Donald Trump ao Irã, o futuro do ministro Alexandre de Moraes no STF e os desafios do governo Lula. — As pessoas estão desesperadas por informação — diz o vidente, que trabalha com espiritualidade desde os 14 anos. — Às vezes, você tropeça na rua e acha que é o fim do mundo. As pessoas estão muito assim, acham que uma coisa pequena leva a um efeito em cadeia gigante. Tento trazer uma visão realista das coisas, tranquilizar, tirar o medo. Como profissional da área da espiritualidade, é meio que a minha missão trazer um pouco de alento, de serenidade. A popularidade do tarô também se reflete na cultura pop. O universo está presente em dois lançamentos recentes: a fantasia “Torneios do Tarot” (Seguinte) e a romantasia “Academia Arcana” (Arqueiro). As cartas inspiram o sistema de magia que organiza as histórias. Capa do livro "Academia Arcana" Divulgação — O tarô é um sistema muito interessante para construir mundos porque oferece algo familiar ao leitor — diz a americana Elise Kova, autora de “Academia Arcana” . — Quando a pessoa reconhece um elemento, o universo da história se torna mais acessível. Meu livro tem dois tipos de leitores: os que já gostam de tarô e os que não conhecem. O melhor retorno é quando ambos dizem que a história é divertida. Se a democratização digital abriu portas, criou um terreno fértil para a desinformação e golpes, ligando o sinal de alerta entre os próprios tarólogos. Nas redes de visualização rápida, como o TikTok, influencers tentam usar o “acaso” do algoritmo (que na prática nada tem de aleatório) como oráculo, com o feed determinando o destino. Com isso, sugerem que, se determinado vídeo chegou ao usuário, é porque há um recado importante nele. Leitura com carta de UNO Em um de seus vídeos recentes, Mirra Mattos lamentou que plataformas estejam enquadrando o conteúdo de tarô na mesma categoria de cassinos virtuais. — Acredito que essa movimentação seja devido ao número crescente de golpes de atendimento no TikTok — diz a taróloga. — Contas inocentes foram derrubadas pela plataforma. Não concordo com o enquadramento como jogo de azar, é uma prática de autoconhecimento. Outra preocupação é a falta de preparo. Com a facilidade de criar um perfil, uma onda de tarólogos, cartomantes e outros oraculistas improvisados teria tomado conta das plataformas. — É uma coisa boa que as pessoas jovens tenham conhecido? É, mas acaba sendo preocupante também — diz uma cartomante paulista de 17 anos, conhecida no Tiktok pelo perfil @axeletisia. — Sei que também sou jovem e por isso suspeita para falar, mas é um problema ver pessoas de 12 e 13 anos com pouco conhecimento se dizendo cartomantes, porque isso afeta a vida de quem se consulta. Tem gente usando o ChatGPT para ler carta ou aprendendo em PDFs suspeitos e aleatórios. Já vi até quem use baralho de UNO para fazer leitura.

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