Jornal O Globo
A Justiça dos Estados Unidos vai decidir se o ex-CEO da Abercrombie & Fitch, Mike Jeffries, de 81 anos, tem capacidade mental para ser julgado por acusações de tráfico sexual e prostituição em um esquema global. A definição, prevista para maio, determinará se o processo avança e pode levar o ex-executivo à prisão perpétua. Denúncias citam crimes desde 1992: Mais de 40 homens acusam ex-chefão da Abercrombie de abusos 'Abismos entre pobres e ricos': Papa Leão XIV critica desigualdade em visita a Mônaco, país conhecido por concentração de riqueza Jeffries responde ao lado do parceiro Matthew Smith e do intermediário James Jacobson, todos declarados inocentes. Antes do julgamento, o tribunal precisa avaliar se ele compreende as acusações e consegue colaborar com sua defesa. Gravações viram peça central Mais de 22 horas de gravações telefônicas, reunindo 109 ligações, se tornaram um dos principais elementos do caso. Em trechos citados no processo, Jeffries afirma que estaria “ferrados” e em “grandes problemas” se fosse considerado apto a julgamento. Em outro momento, diz: “é melhor você me considerar incompetente”. Para a promotoria, as falas indicam que ele está “incrivelmente focado” em ser considerado incapaz para evitar o julgamento. A defesa, por outro lado, sustenta que ele sofre de demência, incluindo Alzheimer de início tardio. Laudos médicos contraditórios Jeffries passou quatro meses em uma unidade de saúde mental de uma prisão federal na Carolina do Norte. Em maio, foi considerado incapaz, mas, em dezembro, especialistas da mesma instituição concluíram que ele estava apto. Mike Jeffries Reprodução/X Peritos da defesa apontam declínio cognitivo desde 2013, agravado após uma queda em 2018, com episódios psicóticos e alucinações. A psicóloga Jacqueline C. Valdes mencionou exames com “atrofia leve”. O psiquiatra Alexander Bardey afirmou que Jeffries não apresentava “a resposta emocional adequada” e descreveu seu comportamento como “quase como se estivéssemos almoçando em seu clube de campo”. Já especialistas da prisão contestam o diagnóstico. A neuropsicóloga Tracy O’Connor Pennuto disse que os sintomas “não eram consistentes com a doença de Alzheimer” e que ele “ainda é mais inteligente e cognitivamente mais capaz do que provavelmente 95% dos pacientes que avaliamos para competência”. Comportamento e estratégia de defesa Relatos sobre o comportamento de Jeffries também integram o processo. Ele foi descrito por Pennuto como “jovial” e “bastante carismático” e, em uma interação, disse: “Podemos nos casar. Sou gay, mas isso não importa”. Para a acusação, a capacidade de discutir estratégias de defesa, lembrar detalhes da carreira e comentar o caso — como ao afirmar que “essas pessoas eram adultas, não houve força envolvida” — indica preservação cognitiva. Apesar das divergências, especialistas concordam que não há evidência de simulação de sintomas. A decisão caberá à juíza Nusrat J. Choudhury. Caso Jeffries seja considerado apto, a seleção do júri está prevista para 26 de outubro. Mesmo se for considerado incapaz, o processo seguirá contra os outros réus. Paralelamente, a Justiça determinou que a Abercrombie & Fitch custeie sua defesa, com base em acordo firmado após sua saída da empresa em 2014. O caso ex-CEO da Abercrombie & Fitch é alvo de múltiplas ações na Justiça civil que cobram indenizações por supostos abusos cometidos enquanto comandava a empresa. Advogados relataram à rede britânica BBC que ao menos 40 homens acusam Mike Jeffries de agredi-los sexualmente e drogá-los, sob o pretexto de oferecer oportunidades como modelo ou já durante o período em que trabalhavam para a marca. Jeffries, seu parceiro Matthew Smith e um suposto intermediário foram detidos pelas autoridades em outubro de 2024 e liberados, dias depois, mediante o pagamento de fiança. O ex-CEO está hoje está em prisão domiciliar, após se declarar inocente à Justiça. Segundo a BBC, as mais recentes alegações remontam à década de 1990, mais precisamente 1992, quando Jeffries entrou para a companhia. O ex-CEO e seus dois cúmplices já era suspeitos de participar de uma quadrilha de tráfico sexual — entre dezembro de 2008 e março de 2015 — na qual recrutavam aspirantes a modelos masculinos, os atraíam para festas, forneciam-lhes drogas e os forçavam a fazer sexo. As supostas vítimas agora incluem não só ex-modelos, como também funcionários da empresa. As vítimas disseram que já eram contratadas da Abercrombie quando foram vítimas de abusos, o que levantou o debate sobre medidas tomadas pela empresa para proteger seu staff e responsabilizar os acusados. Jeffries atuou como CEO e presidente do conselho, de 1992 a 2014. O caso tem sua origem em uma investigação da BBC de 2023, "The Abercrombie Guys: The Dark Side of Cool", na qual vários homens falaram sobre a assinatura de acordos de confidencialidade para eventos sexuais supostamente dirigidos por Jeffries. A Abercrombie and Fitch disse estar "horrorizada e enojada" com as denúncias sobre o comportamento de Jeffries e que tem "tolerância zero para abuso, assédio ou discriminação de qualquer tipo". A A&F também está sendo processada por negligência, diz a BBC. Jeffries deixou a Abercrombie em 2014 depois de receber US$ 25 milhões (cerca de R$ 66 milhões na cotação da época) em indenização, de acordo com documentos corporativos.
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