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Formigas por até R$ 1 mil: tráfico global transforma insetos em itens de colecionador e preocupa autoridades no Quênia | Collector
Formigas por até R$ 1 mil: tráfico global transforma insetos em itens de colecionador e preocupa autoridades no Quênia
Jornal O Globo

Formigas por até R$ 1 mil: tráfico global transforma insetos em itens de colecionador e preocupa autoridades no Quênia

Uma única formiga pode custar até US$ 220 (mais de R$ 1,1 mil, na cotação atual) no mercado ilegal internacional, e a venda de rainhas da espécie Messor cephalotes transformou regiões do Quênia em ponto de origem de um comércio clandestino em expansão. A demanda vem de colecionadores que criam colônias em formicários, elevando o valor dessas formigas capazes de fundar colônias inteiras e viver por décadas. Agressão sexual, paraplegia e impedimento familiar: Quem é Noelia Castillo, jovem que obteve autorização para eutanásia aos 25 anos na Espanha Vídeo: Caiaque vira em meio a ventos fortes, mulher morre e cachorro sobrevive agarrado à embarcação nos EUA O período mais favorável para captura ocorre na estação chuvosa, quando machos e rainhas alados deixam os ninhos para acasalamento. Esse comportamento facilita a coleta das rainhas, consideradas o ativo mais valioso desse mercado. A atividade envolve coletores, intermediários e compradores estrangeiros. — No começo, eu nem sabia que era ilegal — afirmou um ex-intermediário. O transporte é simples: as formigas são acondicionadas em tubos ou seringas com algodão úmido, podendo sobreviver por até dois meses, o que facilita o envio por correio para Europa e Ásia. Casos recentes indicam a escala do problema. No ano passado, 5 mil rainhas foram encontradas em uma pousada em Naivasha, em operação que levou a condenações por biopirataria. Mais recentemente, um cidadão chinês foi preso no aeroporto de Nairóbi com 2 mil formigas. Impacto ambiental e risco de invasão Especialistas alertam que a retirada de rainhas compromete diretamente os ecossistemas. — A coleta insustentável, especialmente a remoção de rainhas, pode levar ao colapso das colônias, perturbando os ecossistemas e ameaçando a biodiversidade — disse cientista sênior do Instituto de Investigação e Formação em Vida Selvagem do Quênia, Mukonyi Watai. Há também preocupação com espécies invasoras. Caso escapem de formicários, podem se estabelecer em novos ambientes. Um estudo citado indica que a espécie “poderia potencialmente prejudicar a agricultura baseada em grãos no sudeste da China”. No próprio Quênia, essas formigas têm papel ecológico relevante, como a dispersão de sementes. Segundo o biólogo e entomologista Dino Martins, elas “criam uma pastagem mais saudável e dinâmica”. Mercado cresce sem regulação internacional Apesar da ilegalidade, a coleta pode ser autorizada mediante licença, com exigência de transparência e repartição de benefícios — mas nenhum pedido foi registrado. A ausência de regras globais amplia o desafio. Nenhuma espécie de formiga está listada na Convenção Cites. “Sem tratados internacionais que monitorem esses movimentos, a escala do comércio permanece amplamente invisível”, afirmou Sérgio Henriques. A fiscalização também é limitada. — Provavelmente apenas uma fração das formigas comercializadas está sendo detectada — explica o biólogo Dino Martins. Diante do avanço do mercado, o Quênia discute endurecer o combate ou criar um modelo regulado. — As diretrizes buscam promover o uso sustentável e o comércio de espécies selvagens como formigas para gerar empregos, riqueza e meios de subsistência comunitários — afirma Watai. Para alguns analistas, o potencial econômico ainda é subestimado. — As formigas não são itens finitos como ouro ou diamantes. São ativos biológicos que podem ser criados e cultivados — diz o jornalista Charles Onyango-Obbo. O impasse permanece entre a oportunidade econômica e os riscos ambientais de um comércio que segue fora de controle.

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