Jornal O Globo
Ela é uma das atrizes de maior bilheteria de Hollywood — seus filmes já arrecadaram mais de US$ 15 bilhões ao redor do mundo. Uma estrela que transita entre franquias bilionárias e produções independentes, e que chegou a abrir sua própria produtora para ampliar o controle da carreira. Mas foram necessárias décadas de estrada para que Scarlett Johansson retomasse uma das suas mais antigas ambições, a de dirigir, manifestada ainda na pré-adolescência, e só agora materializada em “A incrível Eleanor”, em cartaz no Brasil. “Não tinha uma paixão insana por atuar quando era adolescente”, confessa a atriz americana de 41 anos, que estreou na tela grande aos 8, em “Anjo da guarda” (1994), de Rob Reiner, ao lado de Bruce Willis. “Hoje, há muito mais bons papéis para os jovens mas, na minha época, era difícil encontrar projetos com os quais eu me envolvesse realmente no processo. Então pensei que acabaria na direção, função que achava fascinante.” Em cartaz no Rio, Malu Galli fala sobre menopausa: 'Não tem essa de ‘pausa’' Entrevista: Paula Lavigne fala sobre desigualdade de gênero, a relação com Caetano Veloso e libido aos 56 anos Violência vicária: ''Minha missão é salvar outras mulheres', diz a delegada Amanda Souza, que teve os filhos mortos pelo próprio pai Foi Robert Redford (1936-2025) quem chamou sua atenção. Scarlett tinha 12 anos quando foi escalada para interpretar a pequena e traumatizada Grace MacLean de “O encantador de cavalos” (1998), seu sétimo longa, dirigido e protagonizado por Redford. A atriz teve a chance de observar a maneira peculiar com a qual ele lidava com os atores, o tempo que dedicava para coordenar as cenas, a forma como criava um conjunto harmônico e um espaço íntimo dentro de uma estrutura tão complexa e pensou: “Esse trabalho parece interessante, quero fazer isso algum dia! Mas eu estava focada em me desafiar de diferentes maneiras e, quando cheguei aos 20, me dediquei mais a entender o meu trabalho como atriz”, explicou, durante o último Festival de Cannes, onde “A incrível Eleanor” teve estreia mundial. Scarlett não ficou sentada esperando o momento ideal. Nesse meio tempo, trabalhou com diretores de prestígio, como Sofia Coppola (“Encontros e desencontros”), Noah Baumbach (“História de um casamento”, com o qual ganhou sua primeira indicação ao Oscar) e Pedro Almodóvar (“Vicky Cristina Barcelona”). Conquistou o papel de Viúva Negra, heroína do Universo Cinematográfico da Marvel, em filmes que lhe garantiram popularidade planetária. Também casou, separou-se e se casou de novo, e teve dois filhos (Rose, de 10 anos, com o ex-marido Romain Dauriac, e Cosmo, de 4 anos, com o atual marido, Colin Jost). Até teve tempo para criar uma linha de produtos para a pele, a The Outset. “Pode parecer o caos, mas é uma questão de saber delegar funções”, ensina. Robert Redford e Scarlett Johansson em "O Encantador de Cavalos" (1998) Divulgação Mas eis que chega àThese Pictures, sua produtora, o roteiro de “A incrível Eleanor”, de Tory Kamen, comédia dramática construída em torno de uma nonagenária solitária que se passa por sobrevivente do Holocausto, como forma de preservar a experiência de sua única amiga, judia, que morreu recentemente. Scarlett se identificou com a trama, pois sua mãe tem ascendência judaica, tinha avós na Polônia e na Rússia e perdeu vários parentes nos campos de concentração. É um projeto que fala de independência feminina, de etarismo e, principalmente, de perdão. “A gente entende o ato de Eleanor como a necessidade de compartilhar uma história que desaparecerá com a amiga que morre”, diz Scarlett, que não quer que o filme seja capturado pelas discussões em torno do conflito entre Israel e Palestina. “É uma questão complexa e seria muito simplista politizar o filme dessa maneira”, acredita. A esperta e divertida Eleanor é interpretada pela veteraníssima June Squibb, atriz de longa ficha de papéis secundários em filmes como “Alice” (1990), de Woody Allen. Conhecida também por trabalhos na televisão e na Broadway, June vê futuro em Scarlett como diretora: “Já trabalhei com diretores maravilhosos antes, mas nenhum tinha o conhecimento de interpretação que Scarlett tem, e isso ajuda muito. Trabalhar com ela foi uma experiência única, porque entendia o meu processo, me permitia ter tempo para chegar onde queríamos”. A atriz Scarlett Johansson e o marido Colin Jost em Cannes AFP Agora à frente da criação artística, tomando decisões e distribuindo tarefas, Scarlett se encontra em uma posição de poder que talvez não tivesse como atriz. Mas ela sempre foi reconhecida por falar o que pensa: já criticou a obsessão pelo corpo perfeito, protestou contra a desigualdade salarial entre homens e mulheres e, recentemente, enfrentou a Walt Disney sobre questões de direitos que envolvem a bilheteria de “Viúva Negra”, chegando a um acordo com o estúdio. Em 2024, quando a OpenAI lançou um assistente virtual com uma voz que se assemelhava assustadoramente à sua, conseguiu que a empresa a retirasse do ar. E promete continuar defendendo o que acha correto e justo. “Sempre fui muito aberta sobre o que penso. Sinto-me bastante confortável sendo eu mesma. Talvez isso seja a melhor parte de envelhecer.”
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