Jornal O Globo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou destruir a ilha de Kharg caso não seja alcançado um acordo para abrir o Estreito de Ormuz e pôr fim à guerra. Qual a importância da ilha de Kharg? Segundo Augusto Teixeira, professor de Relações Internacionais (UFPB) e pesquisador do INCT Observatório de Capacidades Militares e Políticas de Defesa, a ofensiva americana contra ilhas estratégicas do Irã, incluindo Kharg, poderia ser usada como forma de pressionar o país, impactando a navegação no estreito e gerando prejuízo econômico significativo. A região é responsável por 80% a 90% da capacidade de refino iraniana. Segundo Teixeira, a tomada de Kharg teria impacto estratégico e econômico não apenas para o Irã, mas também para países consumidores de petróleo iraniano, como China, Paquistão e Índia. — A China seria afetada, mas tem diversificação de fontes. Já a Índia, que é estratégica para os EUA, também seria impactada, o que torna a decisão ainda mais delicada. Ao ver sua exportação reduzida, o Irã poderia atacar mais fortemente as infraestruturas energéticas dos países do Golfo. Entenda em 5 pontos: Por que é tão difícil reabrir o Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte global de 20% do petróleo? Sobre a parte terrestre, ele considera que manter a operação em uma ilha seria difícil. Os Estados Unidos já realizaram ataques preventivos contra defesas locais. Ainda assim, o Irã provavelmente mantém estruturas subterrâneas, bunkers com artilharia, defesa aérea, suprimentos e pessoal protegidos. — Uma operação americana provavelmente envolveria bombardeio intenso inicial, interdição naval para impedir reforços e, depois, a criação de uma cabeça de ponte, seja por desembarque anfíbio ou por assalto aerotransportado, para estabelecer presença militar na ilha. Depois disso, haveria o envio de equipamentos pesados e a criação de uma estrutura militar permanente. Isso também exigiria um cordão de segurança para proteger as tropas, já que a ilha está próxima ao território iraniano e vulnerável a ataques de artilharia. Para o Irã, atacar essas tropas também é arriscado, porque poderia danificar sua própria infraestrutura petrolífera, explica o professor. — Mas há um ponto central: para o Irã e Israel, essa é uma guerra existencial. Para os Estados Unidos, não. Isso muda completamente o nível de risco que cada um está disposto a aceitar. No fim, é um cálculo geopolítico extremamente complexo. Militarmente, os Estados Unidos têm capacidade de tomar essas posições. A questão é o custo político, econômico e estratégico de manter essa ocupação. A estratégia iraniana, nesse cenário, seria aumentar o custo dessa presença, como a Ucrânia fez na Ilha da Serpente contra a Rússia, tornando a ocupação insustentável. Um fim rápido da guerra é difícil de prever, explica ele. Ou o Irã se renderia, o que ele considera improvável, ou os Estados Unidos declarariam vitória e sairiam. Mas ainda há Israel, que tem interesse na continuidade do conflito, especialmente por causa do programa nuclear iraniano. — Há relatos de que o Irã acumulou mais de 400 quilos de urânio enriquecido a 60%, o que levanta o risco de avanço para armas nucleares , algo controverso, mas central na justificativa de Israel. Isso abre outra possibilidade: operações especiais para tentar capturar esse material, o que seria ainda mais complexo do que a tomada de ilhas.
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