Jornal O Globo
Entre as décadas de 1980 e 1990 houve no Rio uma livraria que extrapolou em muito a nobre função de servir ao comércio de obras literárias. Nascida em um pequeno espaço, em Ipanema, a Dazibao logo se transformou em ponto de convivência, terreno fértil para aqueles interessados em cultivar o amor aos livros, ao debate e à construção de amizades. Um retrato bastante fiel da personalidade de seus fundadores, entre os quais Francisco e Graça Neiva. Um só planeta: Projeto reúne especialistas no Rio para formular agenda ambiental voltada a candidatos 'Dança das cadeiras': pelo menos 11 secretários deixam os cargos na na Prefeitura do Rio para disputar as eleições 2026 O sucesso da pequena casa, com duas portas abertas diretamente para a calçada da Visconde de Pirajá, “sem café, sem mesinha, sem sanduíche, apertada, entulhada, mas sensacional” — como definiu uma amiga do casal em texto recente — logo levou à abertura de filiais no Centro (na histórica Travessa do Ouvidor), em Botafogo, no Catete e no Paço Imperial. Chico e Graça Neiva: vida dedica aos livros Álbum de Família O nome Dazibao surge com inspiração na tradição chinesa dos jornais murais fixados nas ruas, espaço de livre expressão e troca de ideias, traduzia o espírito original da casa e logo se transformou em marca fortemente ligada à produção cultural e intelectual no Rio durante o período da redemocratização. A Dazibao não resistiu às muitas mudanças do mercado editorial e fechou. Mas deu frutos. O antigo endereço do Centro se viu transformado na Livraria da Travessa, outro bastião do circuito literário carioca. A livraria Folha Seca, na Rua do Ouvidor, outro ponto de referência fundamental da cultura e dos livros no Rio, foi fundada por Rodrigo Ferrari, o Digão, que teve suas primeiras experiências como livreiro na Dazibao. Chico Neiva — também chamado por alguns dos muitos amigos de “Chico Dazibao” — seguiu sua vocação original e, sempre junto a Graça, abriu o sebo Luzes da Cidade, que marcou época com endereços em Ipanema e dentro de um dos cinemas do Grupo Estação, em Botafogo, onde funcionou até 2018. Aposentado, Chico Neiva foi viver com Graça em Saquarema, na Região dos Lagos. Mergulhar nas águas da praia de Itaúna e assistir a jogos de futebol — de qualquer time — eram atividades que adorava fazer. Há menos de vinte dias, passou mal em casa e descobriu um câncer com metástase. Chico “Dazibao” Neiva morreu domingo à tarde, aos 80 anos, em uma clínica de cuidados paliativos em Botafogo. Economista de formação, nasceu em Curitiba, mas escolheu o Rio, onde passou a maior parte da vida, como a sua cidade. “Sentiremos sua falta, Chico! Se hoje temos a Folha Seca devemos a você e à Graça com sua inesquecível Dazibao. A história das livrarias de rua do Rio de Janeiro deve muito a vocês dois. Vai em paz, querido”, escreveu o livreiro Rodrigo Ferrari. O sepultamento aconteceu na tarde desta segunda-feira no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Chico deixa a companheira Graça Neiva, jornalista e sócia em todas as livrarias, e a filha Maria Neiva e uma legião de amigos inseparáveis de toda a vida.
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