Jornal O Globo
Um voo lotado com destino aos Estados Unidos viveu minutos de pavor na noite do último domingo, quando uma explosão atingiu um dos motores do avião segundos após a decolagem, às 23h49, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, e obrigou o piloto a declarar emergência e retornar imediatamente ao solo. Uma bola de fogo foi vista pela janela, levando pânico aos 272 passageiros. 'Espetacular': passageiros elogiam ação do piloto após pouso de emergência em Guarulhos (SP) Pouso de emergência em Guarulhos: mapa animado exibe trajetória de avião; veja vídeo O avião Airbus 330-300 da Delta Airlines seguia para Atlanta, quando apresentou uma falha grave no motor esquerdo e explodiu ainda na fase inicial de subida. Fragmentos em chamas se desprenderam e caíram na área de grama ao lado da pista, provocando um incêndio controlado pelas equipes de resgate do aeroporto. Não houve feridos entre os passageiros e 14 tripulantes da aeronave. A torre de controle alertou os pilotos sobre a presença de fogo na asa. O comandante declarou emergência com o chamado “Mayday”, código internacional que indica risco iminente à vida e garante prioridade absoluta de pouso e mobilização imediata de equipes de emergência. Dados da plataforma Flightradar24 indicam que o voo permaneceu no ar por cerca de nove minutos e 12 segundos antes de aterrissar no aeroporto. Como foi o incidente Reprodução Desespero Vídeos gravados dentro da aeronave por passageiros mostram gritos e reações de desespero logo após a explosão. Em uma das gravações, uma mulher pede: “Desce isso, pelo amor de Deus”. O estudante David Hamoui, que mora em Atlanta, descreveu a sequência de acontecimentos. — Ouvi uma explosão e vi uma luz muito forte. Cheguei a sentir calor vindo do lado do motor. Quando apareceu aquela bola de fogo, só via faíscas e pequenas explosões. Todo mundo entrou em pânico. Tinha gente rezando e gritando. Segundo ele, cerca de cinco minutos se passaram até o primeiro comunicado da tripulação informando que o motor havia sido desligado e que o retorno à pista, em Guarulhos, seria imediato. A passageira Danielle Willig contou que a atuação da equipe ajudou a conter o medo a bordo. — Mandaram a gente baixar a cabeça. Eu só rezei e pensei na minha família. O pouso foi melhor do que eu imaginava — recorda-se. Após falha de turbina, passageiros e crianças entram em pânico durante voo em Guarulhos A condução da emergência foi elogiada pelos passageiros. Em comunicado pelo sistema de som, o comandante afirmou que a aeronave permanecia estável e apta a voar com segurança durante o retorno. O empresário Haroldo Levy disse ter pensado que não sobreviveria: — A primeira coisa que me veio à cabeça foi a morte. Mas a atuação da tripulação foi impecável. Nas redes sociais, moradores de regiões próximas ao aeroporto relataram ter ouvido um estrondo e visto o avião voando em baixa altitude fora da rota habitual. “Passou em cima da minha casa com um barulho enorme. Foi puro milagre”, escreveu uma moradora. Após a aterrissagem, os passageiros permaneceram cerca de uma hora dentro da aeronave enquanto bombeiros atuavam para apagar as chamas. Houve relatos de calor, cheiro de fumaça e até fogo nas rodas. Parte dos viajantes criticou a assistência da companhia no aeroporto. Haroldo Levy afirmou ter aguardado até três horas pela bagagem e disse ter gastado R$ 24 mil para remarcar a viagem da família, com promessa de reembolso posterior. — Não havia orientação clara nem equipe com autonomia no aeroporto — afirmou. Em nota, a companhia informou que a aeronave voltou para Guarulhos “devido a um problema mecânico no motor esquerdo” e pediu desculpas pelo cancelamento da viagem. Possíveis causas A investigação foi iniciada pela Força Aérea Brasileira, por meio do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), com coleta de dados, preservação de vestígios e levantamento preliminar de danos. Especialistas em segurança de voo ouvidos pelo GLOBO apontam alguns cenários que poderiam explicar a explosão ocorrida. O professor James Waterhouse, da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), classifica o episódio como uma “falha catastrófica não contida” — termo usado quando fragmentos do motor ultrapassam a carenagem de proteção e são projetados para fora da turbina. — Quando a falha é contida, os destroços permanecem dentro do motor. Nas imagens, vemos partes sendo expelidas, o que indica uma falha não contida — explica. Segundo ele, há três hipóteses principais para o que causou o acidente: falha estrutural de componentes do motor (como as turbinas giram a altíssimas velocidades, com peças submetidas a enorme esforço mecânico e térmico, a ruptura de qualquer componente pode gerar uma reação em cadeia); o chamado “stall” de compressor, quando ocorre uma inversão momentânea do fluxo de ar dentro do motor, gerando esforços extremos e falha da turbina, e, por último, a ingestão de pássaro ou objeto (“bird strike”), uma das ocorrências mais conhecidas na aviação, especialmente nas fases de decolagem e pouso, quando a aeronave voa em baixa altitude. O professor Kerley Oliveira, especialista em segurança de voo da PUC-MG, afirma que essa é uma hipótese historicamente recorrente. — Pode ter sido “bird strike” ou desprendimento de peça. São eventos raros, mas conhecidos na aviação — afirma. Voo com um motor só Os especialistas ressaltam que aeronaves comerciais são programadas para voar com apenas um motor, por isso o avião conseguiu ficar no ar por mais de nove minutos, mesmo durante a falha. Em teoria, a aeronave poderia permanecer ainda mais tempo no ar. Outro ponto importante é o peso da aeronave. Em voos internacionais, o avião decola com grande quantidade de combustível. Segundo James Waterhouse, o protocolo padrão é queimar combustível para abaixar o peso antes do pouso. Esse tipo de ocorrência, apesar de não ser comum, é amplamente treinada durante as simulações de voo dos pilotos, afirma. — O procedimento padrão seria voar cerca de 40 minutos para reduzir peso. Mas o comandante é a autoridade máxima e pode decidir pousar antes se considerar mais seguro — explica Waterhouse. Para Oliveira, a análise das imagens indica que o avião manteve trajetória estável durante toda a emergência. — Não houve perda de controle. O maior trabalho foi gerenciar o peso e conduzir o pouso com segurança — afirma. Segundo ele, a expectativa é que a investigação não demore, já que a manutenção desse tipo de aeronave é altamente documentada e qualquer falha tende a deixar rastros técnicos claros.
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