Jornal O Globo
Dono de uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, o Brasil tem a oportunidade de oferecer soluções de baixo carbono no mercado internacional, nesse momento de crise do petróleo e assim contribuir para a transição energética global. Em debate virtual realizado pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico nesta terça-feira, como parte do projeto "Transição Energética", especialistas destacaram oportunidades e desafios para o país diante da guerra no Irã e discutiram se e como o conflito pode impulsionar a adoção de fontes renováveis de geração de energia no mundo. Com a guerra no Oriente Médio, o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo global, foi bloqueado. O estrangulamento da oferta elevou o preço da commodity para acima de US$ 100, tornando as fontes renováveis mais competitivas. Por outro lado, muitos países não têm acesso fácil à energia limpa e podem acabar sendo empurrados para fontes ainda mais poluentes, como o carvão, na busca por segurança energética. Nesse cenário, o Brasil tem um diferencial, com biocombustíveis e grande disponibilidade de energia renovável. — O Brasil precisa começar a enxergar a questão da transição para uma economia de baixo carbono não como um ônus, mas como uma oportunidade histórica de se reindustrializar, de tornar a economia mais relevante e começar a prover o mundo com moléculas e soluções de baixo carbono, porque o mundo está sem um insumo grande, que é o petróleo. O Brasil passa a ser fornecedor de soluções. Isso não acontece no curto prazo. Mas a hora de começar a traçar esse caminho é agora — afirmou a diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética, Rosana Santos, durante o debate "A guerra no Irã pode impulsionar a transição energética global?". Rosana, que também é membro do Conselho da ONU para Transição Energética, argumenta que o país tem capacidade de fornecer ao mundo não apenas energia limpa, mas também produtos fabricados com menos emissão de carbono, como aço e alumínio. Em sua opinião, é hora de o Brasil escolher setores para desenvolver e garantir mercado internacional para eles. 25% dos combustíveis vêm da biomassa Para a CEO da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV) e professora da FGV Energia, Fernanda Delgado, para o Brasil sair na frente, em meio à crise, deve alinhar políticas pública e ecológica. Ela lembra que, na verdade, isso já foi feito há 50 anos, com o programa Proálcool, de estímulo ao etanol, ainda que o objetivo na época da sua criação, em 1975, não tenha sido o da sustentabilidade. Hoje, 25% dos combustíveis que circulam no país advêm de biomassa, segundo a especialista. — Então, a gente sabe fazer. A gente fez isso com o biodiesel, com o etanol, com a energia eólica, com a energia solar. É um caminho que o Brasil sabe fazer. Mas existem muitas camadas econômicas, geopolíticas, tecnológicas e sociais nesse contexto. A sociedade precisa ser trazida para o debate — disse Fernanda, que também é membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Sustentável da Presidência da República. Muitas nações já estão repensando a narrativa sobre a transição para uma economia de baixo carbono, de acordo com Rosana. Mudanças são observadas na Comunidade Europeia, no Japão e na Coreia do Sul, onde estão sendo criados mecanismos de valoração dos atributos climáticos dos produtos consumidos. No Brasil, está sendo discutido o mercado de carbono. Em sua opinião, sem um esforço econômico, não haverá mudança e a transição energética continuará acontecendo de forma lenta e gradual. Pelas contas do professor do Instituto de Energia da PUC-Rio e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), David Zylbersztajn, ainda que a velocidade da descarbonização mundial seja acelerada quatro vezes, dois terços da matriz energética do planeta ainda vai depender do petróleo e dos seus derivados em 2050. Oportunidade também no petróleo — Há muitos países que ainda vão depender muito do petróleo para a sua prosperidade. E o Brasil pode ocupar papel importante nesse cenário, porque o petróleo brasileiro é o que tem menor teor de CO2 na produção e na qualidade. O petróleo é o vilão com quem a gente tem que dormir. A gente vai ter que conviver com ele por um bom tempo — salientou. Ele lembrou que, nos anos 1990, o mundo tinha uma dependência de 85% dos combustíveis fósseis e que, no ano passado, esse percentual havia recuado apenas para 80%, o que mostra a dificuldade de o planeta se livrar dos combustíveis fósseis. Zylbersztajn frisou ainda que, apesar de a oferta de energia de fontes renováveis ter crescido nos últimos anos, não se verifica uma substituição dos combustíveis fósseis. Há uma adição, pois a demanda energética também cresce. A visão do especialista é que, mais do que o preço do petróleo, a grande questão atual é a segurança energética. Na guerra da Ucrânia e Rússia, o tema da garantia de suprimento de energéticos já havia ganhado evidência. Aqui reside também uma das dificuldades para se fazer a transição energética global, pois enquanto o petróleo pode ser transportado por embarcações de um lado a outro do planeta, a energia renovável é essencialmente doméstica. Daí a resiliência do Brasil em meio {a guerra no Irã. — O Brasil é um país que tem bastante energia fóssil (petróleo e gás natural) e, entre as grandes economias, lidera com a participação das fontes renováveis de energia (em sua matriz energética). A energia renovável é doméstica, de alguma maneira pode ser armazenada e não está sujeita a embargos ou questões externas — disse Zylbersztajn. Democratização do acesso O professor da PUC ressaltou ainda outro desafio da transição energética: o de democratizar o acesso. Ele citou uma pesquisa que mostra que o consumo de energia de 3 bilhões de habitantes corresponde ao de uma geladeira nos Estados Unidos, ou seja, o consumo energético de cada uma dessas pessoas é tão baixo que equivale à energia necessária para manter apenas uma geladeira funcionando. Zylbersztajn reconheceu que ainda há muito trabalho a ser feito para incluir populações mais pobres na matriz energética e defendeu a energia nuclear como opção, além de destacar o papel da eficiência energética no processo de descarbonização global. — Vamos ter que conviver com o que é bom e o que é ruim. Como fazer para mitigar o problema é outro ponto relevante a ser discutido — acrescentou. O projeto Transição Energética é uma iniciativa do GLOBO e do Valor Econômico, com patrocínio da Vale. * Especial para O GLOBO
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