Jornal O Globo
O Newcastle United realizou uma manobra financeira incomum ao vender o estádio St James’ Park e terrenos adjacentes para uma empresa pertencente ao próprio grupo controlador, permitindo ao clube registrar seu primeiro lucro desde a aquisição pelo fundo soberano saudita Public Investment Fund (PIF), em 2021. A operação, realizada no fim de junho de 2025, três dias antes do encerramento do exercício contábil, transferiu os ativos para a PZ Newco Holdings Limited, entidade também controlada pelo grupo. O negócio gerou receitas contábeis de £176,2 milhões e um lucro de £133,1 milhões, levando o Newcastle a fechar a temporada 2024-25 com lucro antes de impostos de £34,7 milhões. Sem a transação, o clube teria registrado prejuízo recorde de £98,4 milhões. A venda incluiu melhorias no estádio avaliadas em £172,1 milhões e também uma subsidiária ligada a terrenos próximos ao estádio. Embora o clube ainda opere o local e mantenha receitas associadas — como as do fan park instalado na área —, o St James’ Park passou a ser formalmente controlado por outra empresa do mesmo grupo, e não mais diretamente pelo Newcastle. Em comunicado a jornalistas, o diretor financeiro Simon Capper afirmou que a medida teve como objetivo “reorganizar nossos ativos imobiliários e colocá-los nas estruturas legais corretas para permitir avançar com possíveis projetos de desenvolvimento, seja no St James’ Park ou em um novo estádio, e facilitar isso com financiamento e itens semelhantes”. Ele admitiu, contudo, que as operações “criam um lucro contábil muito significativo”. A transação também teve impacto nas regras financeiras da Premier League. Sem a venda, o clube poderia ter ultrapassado os limites de perdas permitidos. No entanto, internamente, o Newcastle evitou comentar se a operação foi determinante para cumprir essas exigências. Movimentos semelhantes já foram realizados por outros clubes ingleses, como o Chelsea, que também vendeu ativos para empresas do próprio grupo nos últimos anos. Ainda assim, essas operações não representam entrada imediata de caixa — os valores permanecem como créditos internos. No cenário europeu, porém, o impacto é mais limitado. A UEFA não considera esse tipo de venda nas suas regras financeiras, e o Newcastle pode ter registrado prejuízos próximos de £98 milhões em sua última submissão ao órgão. Estimativas indicam que o clube ultrapassou o limite permitido de perdas em três anos, fixado em €60 milhões. Apesar das manobras, o clube segue em crescimento. A receita atingiu £335,3 milhões em 2024-25, impulsionada principalmente por acordos comerciais — incluindo um novo contrato com a Adidas — e receitas de dias de jogo. A expectativa é que o faturamento supere £400 milhões na temporada seguinte, com o retorno à Liga dos Campeões. Ainda assim, os custos também aumentaram. O prejuízo operacional chegou a £109,4 milhões, reflexo de despesas elevadas, especialmente com salários, que somaram £243,5 milhões. Desde a aquisição pelo PIF, o Newcastle já recebeu quase £500 milhões em aportes diretos dos proprietários, além de investimentos pesados em contratações — incluindo a venda recorde do atacante Alexander Isak, que ajudou a equilibrar as contas recentes. A reestruturação envolvendo o estádio reacende o debate sobre o futuro da casa do clube, entre uma possível expansão ou a construção de uma nova arena. Enquanto isso, o Newcastle segue navegando entre crescimento esportivo, ambição financeira e os limites cada vez mais rigorosos do fair play financeiro no futebol europeu.
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