Revista Oeste
Por Camila Colpo Koch * Para avançarmos de forma consistente na igualdade de gênero no mercado de trabalho, é fundamental que a representatividade feminina seja visível, sobretudo nas posições de liderança. Esse desafio não é exclusivo do agronegócio, mas no nosso setor ele ainda é mais evidente. + Leia mais notícias de Agronegócio em Oeste Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que as mulheres representam 19% da força de trabalho no meio rural e no agronegócio como um todo. Isso revela um avanço em relação a décadas anteriores, mas ainda expõe a distância que nos separa de um cenário de maior equilíbrio. No que diz respeito à liderança, a presença feminina em posições de comando no campo permanece minoritária, o que reforça a necessidade de ampliar o debate sobre oportunidades, reconhecimento e desenvolvimento de carreira para mulheres no agro. Esse debate tem avançado em diversos setores da economia, e o campo não pode ficar à margem dessa transformação. O agronegócio é um dos pilares do desenvolvimento brasileiro e, por isso mesmo, precisa refletir melhor a diversidade da sociedade que o sustenta. Dados do último Censo Agropecuário, publicado pelo IBGE em 2017, apontam que quase 20% das propriedades rurais brasileiras já estão sob responsabilidade de mulheres. Esse número é expressivo porque revela que não estamos falando apenas de participação na execução do trabalho, mas também de presença feminina na tomada de decisão, na gestão de pessoas, na condução de negócios e na definição de estratégias produtivas. Ainda assim, esse porcentual mostra que a maior parte das propriedades continua sob comando masculino, o que indica o tamanho do caminho que ainda temos que percorrer pela frente. + Governo Lula inviabiliza a produção de morango Na prática, tenho visto como a presença de mulheres em posições de liderança exerce um efeito multiplicador em toda a cadeia. Quando uma mulher ocupa um espaço de comando, ela abre portas simbólicas e concretas para que outras se vejam pertencentes a esse ambiente. Na Boa Safra, empresa que criei ao lado do meu irmão, acompanhamos um crescimento relevante da participação feminina ao longo dos últimos anos, passando de cerca de 213 colaboradoras no ano de 2025 para aproximadamente 250 atualmente. Na liderança, somos 13. Esse movimento acompanha, em parte, uma tendência mais ampla do setor, observada em estudos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, que identificam crescimento da participação feminina no mercado de trabalho ligado ao agro, especialmente nos segmentos de serviços, agroindústria e áreas técnicas. Embora esses avanços não signifiquem que a desigualdade foi superada, eles apontam para uma mudança real em curso. https://www.youtube.com/watch?v=pklyWQktXcI O processo de transformação não é apenas motivo de orgulho: ele é, também, a materialização de uma conquista histórica. Por muito tempo, o trabalho no campo foi associado quase exclusivamente à força física masculina, o que ajudou a construir uma percepção equivocada de que o agronegócio não seria um espaço para mulheres. A realidade mostra o contrário: o setor demanda competências técnicas, capacidade de gestão, visão estratégica, inovação e sensibilidade para lidar com pessoas e processos complexos — habilidades que não têm gênero. Se, no campo, as mulheres já demonstram diariamente sua capacidade de atuar em todas as etapas da produção, no escritório, nos centros de decisão e nos conselhos de administração não deveria ser diferente. Um dos principais desafios que nós, mulheres do agro, ainda enfrentamos é a necessidade de mudar a percepção cultural de que esse é um espaço predominantemente dos homens. O Brasil forma, ano após ano, excelentes profissionais mulheres em áreas ligadas ao agronegócio, da engenharia agronômica à biotecnologia, da gestão à pesquisa científica. Há espaço para muito mais em posições operacionais, técnicas, científicas, gerenciais e estratégicas. Quanto mais esses espaços forem ocupados de forma natural e visível, mais rapidamente os preconceitos tendem a perder força, tanto no ambiente rural quanto no mercado de trabalho como um todo. Leia também: Agro em luto , reportagem de Tauany Cattan publicada na Edição 315 da Revista Oeste aberta a não assinantes O que observo hoje é um setor em transição. Ainda existe desigualdade, ainda há barreiras culturais e estruturais, mas também há um movimento crescente de abertura, de valorização da diversidade e de reconhecimento do talento feminino. A presença de mais mulheres no agronegócio não é apenas uma pauta de equidade: é, também, uma questão de competitividade, inovação e sustentabilidade para o próprio setor. Quanto mais plural ele for, maiores as chances de construirmos um agro mais moderno, mais humano e mais conectado com os desafios do futuro. * Camila Colpo Koch é cofundadora da Boa Safra O post Mulher no agro: o que mudou — e o que ainda precisa mudar apareceu primeiro em Revista Oeste .
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