Jornal O Globo
Mais de um mês depois de lançar, ao lado de Israel, a guerra contra o Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump, se vê sem respaldo ao exigir o apoio dos países da Otan, a principal aliança militar do Ocidente, nos bombardeios contra Teerã e em uma força-tarefa para reabrir o Estreito de Ormuz. Em uma série de queixas públicas, chamou seus aliados de “covardes”, os mandou “buscarem o próprio petróleo” e, reciclando uma velha ameaça, disse que considera sair da organização, liderada pelos próprios EUA. — Nunca me deixei influenciar pela Otan. Sempre soube que eles eram um tigre de papel, e [o presidente da Rússia, Vladimir] Putin também sabe disso — afirmou Trump, em entrevista ao jornal britânico The Telegraph, publicada nesta quarta-feira. Insatisfação: 'Não precisamos da ajuda de ninguém', diz Trump após aliados da Otan negarem envio de navios de guerra ao estreito de Ormuz Após pressão de Trump: Alemanha diz que guerra contra o Irã 'não tem nada a ver com a Otan' Apesar de poucos países criticarem abertamente a ofensiva no Oriente Médio — a Espanha foi uma rara exceção — e de todos atacarem as retaliações iranianas, ninguém se voluntariou para bombardear Teerã. Nações como a Itália negaram o acesso de aeronaves envolvidas na "Operação Fúria Épica" às suas bases, e a proposta de uma força-tarefa naval para Ormuz, como quer Trump, segue no campo das ideias. Revoltado, o republicano disse, na terça-feira, que os britânicos “deveriam buscar o próprio petróleo” no Golfo Pérsico. — Eles não foram nossos amigos quando precisamos deles — disse Trump, em entrevista à agência Reuters, nesta quarta-feira. — Nunca pedimos muito a eles, é uma via de mão única. Sede da Otan em Bruxelas Simon Wohlfahrt / AFP O desdém de Trump à Otan não é novo. Em 2018, em seu primeiro mandato, dizia não ver mais sentido na organização, e se queixava do que considerava ser um desequilíbrio nos gastos militares, no qual os EUA seriam os maiores prejudicados. Na ocasião, membros do governo o demoveram da ideia. “Os países da Otan devem pagar MAIS, os Estados Unidos devem pagar MENOS. Muito injusto!”, escreveu Trump em 2018 na rede social X, então Twitter, chamando seus aliados de “inadimplentes” e a aliança de “obsoleta”. Medida 'temporária': Otan afirma que sua missão no Iraque foi transferida para a Europa enquanto a guerra com o Irã se intensifica Em seu retorno à Casa Branca, em 2025, mencionou os bilhões gastos pelos EUA para apoiar a Ucrânia contra a Rússia como pretexto para exigir maiores compromissos financeiros. Empoderado pela vitória nas urnas e diante de uma Europa fragilizada, obteve o compromisso quase unânime dos membros de elevar de 2% para 5% do PIB os investimentos em Defesa. Em uma reunião de cúpula, no ano passado, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, defensor do republicano, o chamou de “papai”. Trump não se incomodou. — [Rutte] gosta de mim. Acho que ele gosta de mim. Se não gostar, eu te aviso. Volto e bato nele com força, tá bom? Ele disse isso de um jeito bem carinhoso: “Papai, você é meu papai" — afirmou o republicano em entrevista coletiva, ao ser perguntado se considerava os demais países da aliança como seus filhos. Análise: Ao usar Groenlândia como arma de guerra comercial, Trump força a Europa a avaliar até onde pode reagir Mas ao contrário da ameaça de saída de 2018, baseada no dinheiro, hoje o republicano parece guiado pela visão de que está sendo injustiçado. Ele com frequência cita o apoio dado à Ucrânia (que sofreu mudanças desde sua posse), a presença americana em solo europeu, incluindo os mísseis nucleares no continente, e os investimentos militares na região. Em janeiro, em meio às ameaças de anexar a Groenlândia, disse que “fez mais pela Otan do que qualquer outra pessoa desde a sua fundação, e a Otan deveria fazer algo pelos Estados Unidos”. A guerra contra o Irã, quando seus apelos por apoio militar não foram atendidos, foi uma nova gota d’água. — Se a Otan se resume a defendermos a Europa de ataques, mas eles nos negam o direito de usar nossas bases quando precisamos delas, então não é um bom acordo — afirmou, em entrevista à rede al-Jazeera, o secretário de Estado, Marco Rubio. — Tudo isso terá que ser reexaminado. Antes de discurso: Trump alega que 'novo presidente' do Irã pediu cessar-fogo, mas chanceler iraniano nega Nos seus dois caóticos mandatos, Trump retirou os EUA de acordos cruciais — como o JCPOA, que estabelecia regras para o programa nuclear iraniano —, organizações internacionais — como a Organização Mundial da Saúde (OMS) — e promoveu mudanças controversas na máquina federal, especialmente ligadas à educação e a programas de ajuda externa. Mas afastar os EUA de uma organização criada na Guerra Fria e que é principal pilar defensivo da Europa e América do Norte é mais complexo e certamente envolverá batalhas políticas e judiciais. Em julho de 2023, o senador democrata Tim Kaine e o então senador republicano Marco Rubio apresentaram um projeto exigindo que uma decisão presidencial de deixar a aliança fosse respaldada por dois terços do Senado, ou por um ato do Congresso, para ser válida. O texto está em vigor desde 2024, mas analistas afirmam que Trump pode passar por cima do Legislativo, alegando ter a palavra final sobre política externa. — Não se trata de uma questão simples, o Congresso está dizendo que eles não podem fazer isso, e se ignorarem o Congresso, terão que enfrentar os tribunais — afirmou ao portal Politico, em novembro de 2024, Scott Anderson, pesquisador do centro de estudo Brookings, acrescentando que, em sua opinião, a legislação tem algumas brechas. — Mas é um terreno jurídico muito controverso e não está 100% claro. Congresso dos EUA, em Washington Kevin Dietsch/Getty Images/AFP Jamais o Congresso acionou a Justiça para contestar a decisão de um presidente de abandonar uma organização internacional ou um tratado, e não está claro como isso aconteceria. — Para que a questão seja levada à Justiça, seria necessário que alguém tivesse legitimidade para processar — disse o professor Curtis Bradley, da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, ao Politico — A única parte que consigo imaginar que teria legitimidade seria o próprio Congresso, mas não está claro se os republicanos apoiariam tal ação. Com Rússia e China no radar: Otan lança operação para reforçar segurança no Ártico Mesmo que consiga o apoio do Legislativo ou dos tribunais, o processo não é imediato. Pelo Artigo 13 do Tratado do Atlântico Norte, que rege a organização, o interessado em deixar a aliança deve enviar uma comunicação legal aos Estados Unidos — Estado depositário do acordo — e esperar um ano até a confirmação. Mesmo que não se concretize, a insistência do presidente é um sinal de que o modelo de compromisso mútuo de defesa, cravado no Artigo 5, já não é mais o mesmo. — O presidente dos Estados Unidos não pode se retirar da Otan. Dito isso, o presidente pode envenenar a aliança. O presidente pode torná-la funcionalmente inoperante se quiser — disse à rede ABC o senador republicano Thom Tillis, em fevereiro. — Seria difícil encontrar um motivo, porque isso acarreta um risco enorme. Vidas americanas foram salvas pela aliança da Otan, e muitas vidas americanas serão perdidas sem ela.
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