Jornal O Globo
Em um pronunciamento na noite de quarta-feira, o primeiro desde o início da guerra contra o Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump, esperava vender aos americanos a sua lógica para o conflito, e talvez aumentar seus níveis de aprovação, afetados pela alta dos preços dos combustíveis e pela pouca disposição do país para uma nova aventura militar. O resultado não poderia ser pior: o republicano reciclou argumentos, deu prazos estimados para o fim dos bombardeios e falou em vitórias no campo de batalha, sem explicar a motivação da guerra, tampouco o que espera dela. — Nossas Forças Armadas obtiveram vitórias rápidas, decisivas e esmagadoras no campo de batalha [...] Nunca na história da guerra um inimigo sofreu perdas tão claras e devastadoras em larga escala em questão de semanas — declarou. — Vamos atacá-los com extrema força nas próximas duas ou três semanas. Saída negociada: Papa faz apelo direto a Trump por fim da guerra e critica líderes que 'alimentam violência' 'Sem Reis': Protestos contra o governo Trump reúnem oito milhões de pessoas nos EUA; veja fotos Desde o início da “Operação Fúria Épica” Trump aposta em declarações hiperbólicas, sem muitos detalhes e na maior parte dos casos divulgadas em suas redes sociais, indo na contramão da comunicação de lideranças em tempos de guerra. Não raro, suas falas (e a de seus subordinados) soam como propaganda e nem sempre dialogam com a realidade Alegações de que o regime em Teerã estaria devastado após a morte de lideranças, como o aiatolá Ali Khamenei, deparam-se com um sistema abalado, mas ainda funcional. Os anúncios, por vezes em letras garrafais, de que o país não tem mais a mesma capacidade de lançar mísseis são confrontados por ataques violentos contra as monarquias do Golfo e Israel (parceiro nos bombardeios ao Irã). As declarações de que venceu a guerra se assemelham ao discurso do presidente George W. Bush do dia 1º de maio de 2003, quando afirmou que a missão no Iraque "estava cumprida". O conflito se estendeu até 2011, deixando centenas de milhares de mortos e uma nação à beira do colapso. Presidente dos EUA, George W. Bush, anuncia o fim das operações militares de grande porte no Iraque, em maio de 2003 Stephen JAFFE/AFP Não se sabe exatamente os argumentos que convenceram o presidente a optar pela guerra. Talvez sejam conhecidos em alguns anos, quando seus ex-funcionários firmarem acordos milionários para livros sobre os bastidores do governo. Mas os impactos da “Operação Fúria Épica” são difíceis de esconder. O apoio dos americanos é baixo: na última pesquisa Ipsos/Reuters, de 27 a 29/3, só 35% queriam a guerra, e mesmo entre os republicanos, os índices caíram para 74%. No Congresso, a base governista promete retaliar caso ele decida por uma invasão terrestre (o que parece iminente). Nos postos de gasolina, as bombas foram reajustadas algumas vezes, elevando a inflação a poucos meses de uma eleição que tem no custo de vida um tema central. Initial plugin text A doutrina maximalista não é seguida só por Trump. O Pentágono, comandado pelo ex-apresentador da Fox News Pete Hegseth, aposta em falas confusas, ameaças aos críticos e em um ideário religioso. Na Casa Branca, a porta-voz de Trump, Karoline Leavitt, não economiza nos adjetivos pomposos ao chefe. Não raro, evoca em alguns jornalistas veteranos a lembrança de outro notório porta-voz, Mohammad Said al-Sahhaf, representante do regime de Saddam Hussein no Iraque, que repetia frases que só encontravam respaldo dentro dos muros de Bagdá. Confira algumas declarações de Trump e seus subordinados em pouco mais de um mês de guerra O mito dos 90% No dia 5 de março, o chefe do Comando Central dos EUA, Brad Cooper, afirmou que o número de ataques com mísseis iranianos caíra 90% desde o início da guerra, e que o de drones fora 83% menor. A contagem foi repetida por Trump no dia 13 de março e acompanhada por outra fala recorrente: a de que a ofensiva “avançava mais rapidamente do que o previsto”. No dia 19 de março, 14 dias depois da primeira estimativa, Hegseth citou, mais uma vez, os 90%, e Trump escreveu na rede Truth Social que “o Irã foi, essencialmente, dizimado”. Embora reflita a escala dos danos à capacidade ofensiva do Irã, a estatística esconde uma mudança de estratégia em Teerã. Em vez de ataques com centenas de projéteis de uma só vez, os militares passaram a escolher melhor seus alvos, com mísseis menos numerosos, mas com maior poder de destruição. Segundo a agência Reuters, os EUA só conseguem confirmar a destruição de um terço do arsenal balístico iraniano, citando fontes da Inteligência local. Nas recentes declarações à imprensa, o percentual de 90% não foi atualizado. Irã anuncia novos ataques a Tel Aviv sob o lema 'Atendemos ao chamado, ó Khamenei' ‘Nós temos estoques ilimitados’ No quarto dia da guerra, em 3 de março, Trump disse que o Irã estava ficando sem lançadores de mísseis, citando o Pentágono, e declarou que os Estados Unidos “têm estoques ilimitados”. Quase um mês depois, analistas apontam para uma redução crítica nos arsenais de bombas de precisão e, especialmente, mísseis de interceptação, usados em sistemas antiaéreos. Os Patriots, usados por aliados na região, foram empregados à exaustão, e a escassa disponibilidade global pode afetar outras guerras, como na Ucrânia, onde Kiev depende do sistema. Há duas semanas, a Casa Branca pediu ao Congresso mais US$ 200 bilhões em verbas para o setor militar, especialmente para recuperar os estoques de munições, mísseis e bombas. ‘Essa guerra já foi vencida’ No dia 11 de março, em um comício no Kentucky, Trump cantou vitória pela primeira vez: "Deixem-me dizer, nós vencemos". Em 20 de março, afirmou nos jardins da Casa Branca que “acha que vencemos”. Quatro dias depois, quando declarou que o Irã “foi varrido militarmente”, voltou a dizer que “essa guerra foi vencida”. Hoje, nenhum dos lados envolvidos — Irã, Israel e, especialmente, EUA — considera que o conflito está encerrado, ainda em meio a bombardeios, retaliações e do fechamento do Estreito de Ormuz, que estrangulou a oferta global de petróleo e gás. O presidente americano não ofereceu um caminho claro para o cessar-fogo e deu sinais de que poderá aprovar uma ofensiva terrestre. Ao mesmo tempo, tenta obter um acordo com Teerã (o que não deve ser simples) e se mostra inquieto com a extensão das hostilidades e seus impactos dentro dos EUA. Irã aperta controle sobre Estreito de Ormuz e impõe vitória estratégica no conflito contra os EUA e Israel Editoria de Arte/O Globo ‘COVARDES, e nós nos LEMBRAREMOS!’ Se Trump não conseguiu apoio para a guerra em casa, a adesão foi ainda menor entre os aliados da Otan, a principal aliança militar do Ocidente. Ninguém atendeu aos apelos para se juntar aos bombardeios ou à coalizão para liberar Ormuz, que estava aberto antes da “Operação Fúria Épica”. Alguns dizem que a guerra é ilegal e negaram às forças americanas o acesso às suas bases. Se os arroubos trumpistas, como o do dia 20 de março, quando chamou seus aliados de “covardes”, refletem sua conhecida aversão à Otan, a resistência europeia (e de outras nações) demonstra a fragilidade dos argumentos dos EUA e faz com que alguns repensem as próprias políticas de Defesa. ‘Eles estão implorando por um acordo’ Dias antes da guerra, Trump esteve perto de obter um acordo do Irã com concessões ainda mais amplas do que o plano de 2015, rasgado por ele tem 2018. Depois das bombas, o republicano insiste em uma plano maximalista, de 15 pontos, já rejeitado pelos iranianos. No dia 26 de março, sem dar detalhes, disse que Teerã estava “implorando por um acordo” e que as conversas estavam bem encaminhadas, mesmo que de forma indireta. Além de adiar um ultimato para que Ormuz fosse reaberto, sob ameaça de ataques contra instalações de energia, ele declarou que a permissão para que dez navios paquistaneses cruzassem o estreito era "um presente a Washington", quando na verdade foi uma concessão a Islamabad, que atua como mediador. O presidente dos EUA, Donald Trump: em busca de saída para guerra contra o Irã Nathan Howard/AFP ‘Nós já conseguimos a mudança do regime’ Derrubar a República Islâmica era uma das metas de Trump, mas a falta de sinais de que o governo rival está prestes a ruir fez com que redefinisse a expressão “mudança de regime”. Ao contrário de uma quebra brusca, como a queda de Saddam Hussein no Iraque, em 2003, ou do xá Reza Pahlevi no Irã, em 1979, o republicano declarou no domingo que, uma vez que as principais lideranças foram eliminadas, ele considera que há um novo regime em Teerã. Na terça-feira, Hegseth usou o mesmo conceito em entrevista coletiva. Apesar das mortes na cúpula do poder, os principais cargos estão ocupados por nomes leais à cartilha da Revolução Islâmica, inclusive o de líder supremo — à Fox News, no dia 27 de março, Trump disse ter sido informado pela inteligência americana que Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, é homossexual, sem dizer como isso influencia na estratégia de guerra. 'O Irã acaba de pedir um CESSAR-FOGO' Horas antes do pronunciamento na TV, Trump foi às redes sociais dizer que "o novo presidente do regime iraniano, menos radicalizado e mais inteligentes do que seus antecessores", havia pedido aos EUA um cessar-fogo. O republicano acrescentou que só aceitaria a proposta caso Ormuz fosse reaberto — caso contrário, seguiria bombardeando o Irã "até que voltem à Idade da Pedra". As declarações foram prontamente rejeitadas pelos iranianos, e não se sabe exatamente de quem Trump estava falando. O atual presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, no poder desde 2024, não mencionou a demanda em uma publicação na rede social X, mas perguntou se "os interesses do povo americano estão sendo verdadeiramente atendidos por esta guerra". ‘Estamos fazendo isso em nome no mundo livre’ Na terça-feira, Hegseth disse que uma das melhores formas de obter um acordo era atingir repetidamente quem está do outro lado da mesa, e que os EUA atacaram o Irã “em nome do mundo livre”, reciclando um conceito dos tempos da Guerra Fria. Tal como Trump, queixou-se que nenhum governo o parabenizou pelo conflito que lançou todo o planeta em uma crise energética, acrescentando que, “quando pedimos ajuda adicional recebemos perguntas, encontramos obstáculos ou hesitações”. Os lamentos não mudaram opiniões entre aliados.
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