Revista Oeste
O dia estava ensolarado e de clima fresco em Brasília quando o representante de Taiwan no Brasil, Benito Liao, recebeu a reportagem de Oeste para uma entrevista. Diplomata de longa carreira, ele fala de forma pausada e demonstra domínio do inglês ao responder às perguntas com tranquilidade. Gentil no trato e preciso nas respostas, Liao discorreu sobre temas que vão do comércio bilateral entre Brasil e Taiwan às oportunidades de cooperação em tecnologia, indústria e agricultura. Ao longo da conversa, destacou o caráter complementar das economias dos dois países e defendeu o fortalecimento dos intercâmbios econômicos e institucionais. Quando o assunto se volta para as tensões com a China, porém, o tom ganha contornos mais firmes. Segundo Liao, preservar a paz em Taiwan não é apenas uma questão regional. “Preservar a paz em Taiwan é crucial para a economia global”, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista. Como Taiwan vê sua relação com o Brasil, diante do reconhecimento oficial brasileiro à República Popular da China? Embora Brasil e Taiwan não mantenham relações diplomáticas formais, Taiwan estabeleceu dois escritórios de representação: um em Brasília e outro em São Paulo. O objetivo dessas representações é ampliar intercâmbios entre os dois países em diversas áreas, como economia, comércio e cultura. O comércio entre Brasil e Taiwan é muito importante, porque os produtos dos dois países são altamente complementares. O comércio bilateral tem projeção de alcançar US$ 3,2 bilhões até o fim deste ano. Além disso, há muitos investimentos relevantes de empresas privadas taiwanesas no Brasil, que vão de Manaus, no Norte, até São Paulo, no Sudeste. Quais são atualmente as principais áreas de cooperação econômica entre Taiwan e Brasil? Há setores prioritários para expansão nos próximos anos? O governo brasileiro valoriza muito o desenvolvimento industrial e o país é uma grande potência industrial. Com as mudanças ao longo do tempo, muitas empresas de tecnologia de Taiwan passaram a investir no Brasil. Entre os exemplos estão a Foxconn, que fabrica computadores, telefones celulares e outros produtos eletrônicos; a Asus e a Acer; e a Hiwin, que produz braços robóticos usados para automatizar linhas de produção industriais no Brasil. Até mesmo o computador brasileiro Positivo recebeu assistência técnica de fabricantes taiwaneses há muitos anos e hoje se tornou um fornecedor muito importante no mercado. A Adata Technology produz equipamentos relacionados à memória, e a HTC desenvolve soluções de armazenamento de energia. Memória e energia são dois fatores extremamente importantes para a atual indústria de inteligência artificial, e acreditamos que podem contribuir significativamente para o desenvolvimento da inteligência artificial no Brasil. O Brasil é um grande produtor mundial de alimentos. Como Taiwan avalia a segurança alimentar e as oportunidades para o comércio agrícola bilateral? Também existe um intercâmbio significativo de produtos agrícolas, pecuários e pesqueiros entre Brasil e Taiwan. A segurança alimentar é uma questão crucial para todos os países. O Brasil é um grande produtor agrícola e pecuário e fornece uma parcela substancial do abastecimento alimentar mundial, o que torna sua importância inegável. Embora existam algumas barreiras comerciais, esperamos ampliar o comércio com o Brasil em todos os aspectos da agricultura, da pesca e da pecuária. Isso certamente será mutuamente benéfico. Taiwan é líder mundial na produção de semicondutores. Há espaço para parcerias estratégicas com empresas e universidades brasileiras nesse setor? A indústria de semicondutores de Taiwan tem recebido atenção e reconhecimento mundial por seu desenvolvimento e seus resultados. O processo de desenvolvimento desse setor é descrito no livro Chip Wars , de Chris Miller, que recomendo fortemente para quem deseja compreender plenamente os esforços de Taiwan nessa área. De fato, a experiência bem-sucedida de Taiwan na indústria de semicondutores está se expandindo para os Estados Unidos, Japão e Alemanha. A Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) já investiu e estabeleceu fábricas nesses países, com progresso bastante positivo. O governo taiwanês também compartilha sua experiência com países que compartilham valores semelhantes, incluindo treinamento de engenheiros e intercâmbios com estudantes de departamentos universitários relacionados. Se o governo brasileiro estiver disposto a adotar uma política mais flexível, superando certas restrições diplomáticas e demonstrando boa vontade política em contatos diretos com o governo de Taiwan, talvez Taiwan considere estender essa cooperação ao Brasil. Como o senhor avalia a posição do Brasil diante das tensões no Estreito de Taiwan? Os princípios da política externa brasileira enfatizam a resolução pacífica de disputas, o que é muito importante e correto. Taiwan, assim como o Brasil, valoriza a paz e compartilha valores universais como democracia, liberdade, Estado de Direito e paz. No entanto, a China nunca renunciou à possibilidade de usar a força para tomar Taiwan. Todos os dias, aeronaves militares chinesas tentam provocar Taiwan ao cruzar a linha mediana do Estreito de Taiwan, com a intenção de criar um conflito militar. Taiwan produz mais de 90% dos chips de alta tecnologia do mundo. Preservar a paz em Taiwan é crucial para a paz na região Ásia-Pacífico e para a continuidade do desenvolvimento robusto da economia global. Em caso de escalada militar na região, quais seriam os impactos econômicos globais, especialmente para economias emergentes como o Brasil? Os Estados Unidos realizaram recentemente uma avaliação detalhada segundo a qual uma guerra no Estreito de Taiwan desencadearia uma crise econômica ainda mais grave do que a Grande Depressão. Esperamos que países que valorizam a paz, como o Brasil, também uma potência regional, deem importância à paz e à segurança na região Ásia-Pacífico e expressem claramente que as questões entre os dois lados do Estreito devem ser resolvidas de forma pacífica, rejeitando o uso da força. Taiwan tem buscado ampliar sua presença na América Latina. O Brasil poderia ter um papel mais relevante nesse processo? Taiwan espera ampliar sua visibilidade e suas relações de cooperação na América Latina. Por exemplo, no Paraguai, que é nosso aliado diplomático, estamos promovendo o “Prosperity Project”, que estabeleceu o Parque Tecnológico Inteligente Taiwan–Paraguai e atualmente busca atrair investimentos. Esperamos que, com isso, empresas de alta tecnologia e industriais, possamos ajudar o Paraguai a modernizar seu setor tecnológico. Ao mesmo tempo, queremos que companhias taiwanesas instaladas ali possam alcançar o Mercosul e vender seus produtos aos países membros e aos países vizinhos, criando um objetivo comum de prosperidade. Brasil e Paraguai mantêm relações próximas, portanto também damos as boas-vindas a empresas industriais brasileiras que considerem investir no parque tecnológico, aproveitando os custos relativamente baixos de energia elétrica do Paraguai. Como o senhor responde às críticas de Pequim de que Taiwan não deveria manter escritórios de representação em países que seguem a política de “Uma Só China”? O Brasil rompeu relações diplomáticas com Taiwan ao reconhecer a República Popular da China. No entanto, devido ao desenvolvimento positivo das relações entre Brasil e Taiwan, os dois lados decidiram estabelecer escritórios de representação em seus respectivos territórios. Essa é uma decisão mutuamente benéfica, que também favorece o intercâmbio entre os povos dos dois países. A China afirma representar Taiwan, mas, quando empresários brasileiros precisam viajar a Taiwan para negociações comerciais, a embaixada chinesa não pode emitir vistos para eles. Desde a separação entre os dois lados em 1949, o regime comunista totalitário da China e o regime democrático e livre de Taiwan são independentes um do outro. O regime do Partido Comunista Chinês nunca governou Taiwan sequer por um dia. Portanto, a afirmação de que Taiwan faz parte da China é, segundo essa visão, infundada e não se sustenta. Existem negociações em andamento para acordos comerciais específicos ou memorandos de entendimento com o setor privado brasileiro? Embora muitos memorandos de entendimento tenham sido assinados entre organizações não governamentais dos dois países, existe uma clara ausência de mecanismos de comunicação entre governos. Diante dos desafios técnicos no comércio entre Brasil e Taiwan, esperamos que os dois governos possam estabelecer uma plataforma institucionalizada de diálogo para discutir obstáculos ao comércio bilateral e buscar soluções apropriadas. Acreditamos que esse tipo de mecanismo levará a mais investimentos e à busca conjunta de oportunidades mutuamente benéficas. Que mensagem o senhor gostaria de transmitir aos empresários e investidores brasileiros sobre oportunidades em Taiwan Taiwan está repleto de oportunidades de negócios. Ao longo do ano, o país realiza uma grande variedade de feiras internacionais profissionais, como a mundialmente conhecida Feira Internacional de Computadores, a Feira Internacional de Cidades Inteligentes, a maior do mundo, a Feira Internacional de Alimentos e Bebidas e exposições de diversos tipos de máquinas industriais. Esses eventos oferecem um ambiente excelente e serviços personalizados, proporcionando aos empresários brasileiros muitas oportunidades de inovação, estímulo e cooperação, o que gera possibilidades praticamente ilimitadas de negócios. Leia também: “O jogo do gigante” , reportagem publicada na Ediçao 58 da Revista Oeste O post ‘Preservar a paz em Taiwan é crucial para a economia global’ apareceu primeiro em Revista Oeste .
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